Desde pequena, a estudante Paula*, de 26 anos, aprendeu sobre os riscos de andar pelo bairro onde mora. Paula cresceu no Complexo da Maré, o maior conjunto de favelas do Rio de Janeiro, atualmente disputado pela milícia e por duas facções criminosas: Comando Vermelho (CV) e Terceiro Comando Puro (TCP). Hoje, a família dela mora do lado do CV. Ela, em território controlado pelo TCP. Quando visita os pais, Paula nunca fica até mais que 20h, para evitar cruzar a divisa da comunidade t

Desde pequena, a estudante Paula*, de 26 anos, aprendeu sobre os riscos de andar pelo bairro onde mora. Paula cresceu no Complexo da Maré, o maior conjunto de favelas do Rio de Janeiro, atualmente disputado pela milícia e por duas facções criminosas: Comando Vermelho (CV) e Terceiro Comando Puro (TCP). Hoje, a família dela mora do lado do CV. Ela, em território controlado pelo TCP. Quando visita os pais, Paula nunca fica até mais que 20h, para evitar cruzar a divisa da comunidade tarde da noite.

— Já fiquei presa várias vezes entre os ‘meninos’. Lembro de um tiroteio frenético numa manhã de domingo, meus pais estavam com minha irmã recém-nascida, e a gente ficou abrigado por mais de uma hora na casa de alguém, antes de poder tentar ir para casa — recordou Paula. — Antes, esses conflitos não eram tão comuns. Hoje em dia está pior. Agora não tem mais horário [para tiroteio]. O pessoal que mora do lado que não tem escola estadual de ensino médio precisa sair da favela para estudar, porque não pode frequentar a do lado rival.

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O controle territorial exercido por grupos armados, como facções e milícias, impactam o cotidiano de milhares de moradores das periferias brasileiras. Recentemente, os Estados Unidos classificaram o CV e o Primeiro Comando da Capital (PCC) como organizações terroristas, e parte da classe política veio à público argumentar que a medida fere a soberania brasileira. Em meio a essa discussão, um levantamento recente mostra que o Brasil não fez a lição de casa. Segundo pesquisa do Datafolha, em parceria com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, 68,7 milhões de brasileiros – ou 41% da população – dizem notar a presença do crime organizado no bairro onde vivem.

— É legítimo discutir os limites de uma classificação e seus possíveis efeitos em relação à autonomia brasileira. Mas essa discussão também não pode servir para evitar uma pergunta anterior: em que medida o Estado brasileiro exerce soberania material e cotidiana sobre todo o seu território? — questiona Júlia Quirino, especialista em Segurança e Defesa.

Na opinião da especialista, autora do livro “O que nunca te contaram sobre o Comando Vermelho”, da editora Autografia, o Brasil é “formalmente” um Estado soberano. Entretanto, segundo ela, é preciso compreender que a soberania não significa apenas ter fronteiras reconhecidas internacionalmente. Significa também ter a capacidade de fazer valer a lei:

— Proteger a população, controlar a circulação de armas, impedir outros atores que exerçam coerção sistemática sobre os cidadãos... Esse é o ponto principal. Em diversas áreas, essa soberania se mostra parcial — afirma Julia.

Operações policiais recentes têm se debruçado sobre a sofisticação do crime organizado na lavagem de dinheiro — esses grupos se infiltraram na economia formal para maquiar a origem do dinheiro do tráfico internacional de drogas, e hoje o PCC opera até mesmo da Avenida Faria Lima, o centro financeiro do país. Mas o Brasil ainda evita enfrentar a base de poder dessas facções: a chamada governança criminal, ou seja, o controle territorial exercido por facções e outros grupos.

— Acho a governança criminal bem mais prejudicial [do que a infiltração na economia formal], porque, no mínimo, compromete a cidadania e o Estado democrático de direito. Pior ainda se o crime extorquir a população, em vez de viver de varejo de drogas, porque empobrece quem já não ganha muito e freia o crescimento econômico local — argumenta Benjamin Lessing, pesquisador da Universidade de Chicago.

A regulação desses grupos armados nos territórios se dá de várias formas, menos ou mais invasivas, sem ou com violência. O crime interfere no transporte, no comércio, no acesso a serviços públicos e nos conflitos privados. Resolve brigas de casal, decide que uma família deve mudar sua casa, proíbe roubo nas “quebradas”. Em casos mais extremos, decide sobre a vida ou a morte de alguém.

Paula, da Maré, não é apenas impedida de ir e vir em seu próprio bairro. Mais recentemente, foi obrigada a mudar seu provedor de internet. Trocou uma assinatura mensal em uma empresa formal para um serviço oferecido na ilegalidade por uma facção. Paga cerca de R$ 90 pelo serviço, e tem direito à assistência técnica caso dê problema.

— A gente não pode ter Oi, Claro, Tim. Até porque, dificilmente, a gente consegue contratar as de fora da favela. Elas não entram mais. Você é aconselhado a comprar a dos ‘meninos’ — conta Paula.

Referência nos estudos de governança criminal na América Latina, Lessing explica a lógica por trás do conceito. Segundo ele, o traficante de drogas do varejo não tem interesse em governar civis. Faz isso para manter a polícia do lado de fora do território.

— Ou para, quando a polícia entrar, poder contar com a lealdade do morador durante uma operação para prender droga e traficante. Essa relação é forçada e violenta? É. Mas o traficante não é bobo. Ele sabe que, se não tratar bem, não vai conseguir o que quer — ressalta o professor, que recém concluiu o livro "Criminal Leviathans: Why Gangs Govern Prisons and Peripheries", que será publicado pela Cambridge University Press em 2027, ainda sem data de lançamento no Brasil.

A chegada de uma facção rival a um conjunto habitacional no residencial Alameda das Palmeiras, na periferia de Fortaleza, alterou a vida de uma quadra inteira. Em janeiro de 2024, Ana* recebeu um vídeo em que criminosos ameaçavam de morte seu filho mais velho, sob o som do piseiro "O menino de vó vai deixar vovó". Com medo, ela tomou o mesmo rumo de outras cerca de 50 famílias, nas contas delas: abandonar tudo do dia para a noite, muitas com a roupa do corpo. Ana até conseguiu levar alguns pertences, mas como tinha que sair rápido, deixou para trás itens mais pesados, como a máquina de lavar roupa.

Ana, de 42 anos, havia conseguido o sonho da casa própria seis anos antes. Contemplada pelo programa Minha Casa, Minha Vida, foi viver com o filho num apartamento de dois quartos no residencial. Até pouco tempo antes de ser expulsa, o condomínio era relativamente tranquilo, tinha uma vizinhança "animada". A tomada do bairro por uma facção rival mudou o cenário. Hoje, depois de ser forçada a sair do próprio apartamento, se desdobra para pagar o aluguel de R$ 500 em outro bairro da capital cearense.

— Estou tentando me reerguer. Tem dias que estou bem, em outros nem tanto — diz.

A guerra entre as facções tem provocado a morte de inocentes nas periferias. De uns anos pra cá, um simples gesto, quando feito em um território controlado por um grupo rival, pode custar a vida. As facções se apropriaram de símbolos e gestuais para marcar território, reconhecer aliados e identificar inimigos. Integrantes do PCC, por exemplo, postam fotos com três dedos das mãos levantados. Usam roupas com o símbolo yin yang. E emoji do número 3. Já os membros do Comando Vermelho tiram fotos fazendo o V com os dedos, que até então era só um sinal de paz e amor. Ou V da vitória. E adotaram o emoji da bandeirinha vermelha.

Sem conhecer os códigos do crime, o jovem Thiago Oseas da Silva, de 18 anos, se tornou uma de suas vítimas. Morreu por causa de um "V" da vitória. Em 2024, Silva havia recém se mudado para Rio Branco para jogar futebol em um time profissional, o Santa Cruz do Acre. A estadia na capital do Acre durou só duas semanas.

— O que aconteceu exatamente? Eu também não sei. É uma pergunta que fica no ar. Disseram que foi por causa de uma foto, a foto que ele tirou no alojamento