Homens que fazem uso de testosterona sem indicação médica têm risco 51% maior de sofrer eventos cardiovasculares graves, como infarto e acidente vascular cerebral (AVC). É o que mostra uma pesquisa publicada na revista científica eBioMedicine, do grupo Lancet.

O presidente da Sociedade Brasileira de Urologia no Espírito Santo (SBU-ES) e urologista da Rede Meridional, Claudio Borges, explica que isso acontece por uma série de alterações provocadas pelo excesso do hormônio.

Entre elas está o aumento da viscosidade sanguínea causado pela elevação da quantidade de células vermelhas no sangue.

“O sangue se torna mais espesso, o que pode levar a um aumento de eventos cardiovasculares, como derrame, infarto e mortalidade cardiovascular”, diz Claudio.

Quando a testosterona é utilizada sem necessidade clínica, principalmente para fins estéticos ou de performance, os níveis do hormônio podem ficar acima do considerado fisiológico.

Segundo a cardiologista Bruna Brandolini, do Hospital Evangélico de Vila Velha, isso pode favorecer a formação de trombos. “Nesse caso, o uso se torna um importante fator de risco para infarto e AVC e acontece pelo aumento do colesterol ruim, diminuição do colesterol bom e aumento da quantidade de células vermelhas.”

E como a testosterona causa a hipertrofia dos músculos, há ainda riscos para o coração.

“Assim como os músculos do corpo hipertrofiam, o músculo do coração também pode crescer, causando isquemias e arritmias, e aumentando o risco de eventos súbitos, inclusive morte”, adiciona a médica.

Algumas das alterações causadas pelo uso indevido podem ser irreversíveis, mesmo após a suspensão, de acordo com o membro do Departamento de Andrologia da Sociedade Brasileira de Urologia, Pedro Daher.

“Isso vai depender do tempo de uso e também de qual esteroide anabolizante foi utilizado.”

Ele reforça que a reposição da testosterona é indicada para pacientes que apresentam níveis baixos do hormônio e que deve ser orientada por um médico.

“Para isso, é preciso ter uma comprovação laboratorial de testosterona baixa associada a sintomas como fadiga, redução da libido, disfunção erétil e dificuldade de concentração. Nesse caso, o uso é seguro, ao contrário do uso para fins estéticos ou esportivos.”

Publicado na revista científica eBioMedicine, do grupo Lancet, o estudo analisou 358.957 homens, de 30 a 75 anos, todos usuários de testosterona.

Entre os homens que usavam sem indicação médica, o risco de eventos cardiovasculares graves foi 51% maior.

Nesse mesmo grupo, a mortalidade por qualquer causa quase dobrou.

Também houve aumento de AVC isquêmico, parada cardíaca e insuficiência cardíaca.

O excesso de testosterona eleva a quantidade de células vermelhas e deixa o sangue mais viscoso.

Também pode reduzir o HDL, conhecido como colesterol bom, elevar a pressão arterial e favorecer a formação de trombos.

Essas alterações aumentam o risco de problemas como infarto, AVC e outros eventos cardiovasculares.

O uso excessivo também pode provocar hipertrofia do músculo cardíaco, aumentando o risco de arritmias e insuficiência cardíaca.