Henrique Araújo, ex-presidente do Supremo Tribunal de Justiça, teve uma banda de rock, recusou-se a alterar um artigo chumbado pela Censura e foi fundador do PS em Arcos de Valdevez.
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Bem-vindo, doutor Henrique Araújo. Nasceu nos Arcos de Valdevez em 1954, distrito de Viana do Castelo, Alto Minho, uma zona com muito orgulho nas suas tradições. Como é que foi a sua infância?
Foi uma infância muito feliz, passada em tempos e em espaços em que não se punham problemas de segurança. As crianças brincavam na rua, iam pra escola sem acompanhamento. E brincávamos todo dia, depois de fazermos os deveres de casa, na rua, no adro da igreja, jogávamos futebol até chegar o primeiro polícia, que nos confiscava a bola. Mas foi uma infância realmente muito feliz, com banhos no rio Vez. Meu pai era um adepto fervoroso do rio Vez, um defensor fervoroso daquelas águas límpidas do rio Vez, que ainda hoje se mantém assim, felizmente. Portanto, foi muito bom. Gostaria muito que os jovens de hoje, com a idade que eu tinha na altura da escola primária, pudessem ter sido tão felizes como eu fui. Gostava muito.
Como eram os seus pais? O que faziam?
O meu pai era comerciante, tinha um estabelecimento de pronto a vestir. Era um comerciante modesto. A minha mãe era costureira. Éramos uma família modesta. Eu tinha dois irmãos.
Noventa e tal por cento da população portuguesa tem precisamente origens sociais iguais. Era o comum na altura.
Sim, nunca faltou, felizmente, nada, mas era uma família modesta. O meu pai nunca teve carro, nunca fizemos férias no Algarve nem em qualquer outro sítio. O meu pai fazia questão de, nas férias escolares, me pôr ocupado a trabalhar em várias situações.
Nem tanto. É curioso, por acaso nem tanto. Ajudava quando era preciso. Por exemplo, eu tive uma experiência que foi fantástica. Havia uma agência de câmbios e bancária, um agente bancário, junto à loja do meu pai. Meu pai colocava-me lá e eu fazia troca de divisa. Na altura, ainda não havia o euro, eram os florins holandeses, eram os marcos alemães, francos suíços e franceses e dólares.
Já havia alguma imigração nessa altura.
Sim, e fazia também cobrança de letras a comerciantes que chegava o prazo de vencimento e eu, com 13, 14 anos, ia fazer essa cobrança.
Uma letra, isso é uma coisa que um jovem hoje em dia não faz a mínima ideia do que é.
Uma letra é uma espécie de cheque, ou seja, adiantava o dinheiro e depois tinha que pagar a data de vencimento.
Outras vezes colocava-me no estabelecimento do meu padrinho, que tinha um estabelecimento de eletrodomésticos, e eu ajudava também nas férias. Sempre ocupado nas férias. Já numa fase mais avançada, quando eu tinha talvez 16 anos, recordo-me que fui trabalhar para a Câmara Municipal, para o serviço das águas. E foi aí que eu juntei o meu primeiro dinheiro pra poder ir ver o primeiro Festival de Vilar de Mouros.
Isso já foi nos anos 70.
Já foi nos anos 70, aí um salvo erro.
Sim. Nessa altura, já tinha 18?
Então devia ser um outro mundo nesse festival de música.
Sim, foi o festival que realmente me marcou muito. Na altura, foi lá o Elton John, foi também o Manfred Mann.
Que na altura era um artista muito conhecido.
Bandas portuguesas como a Psico e o Objetivo, que eram bandas muito conceituadas aqui em Portugal. E foi com esse primeiro dinheiro que eu consegui auferir no serviço da Câmara que pude ir ao Festival de Vilar de Mouros com o meu primo.




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