Três irmãos deixaram seu grupo de origem na Zâmbia e percorreram uma distância extraordinária em busca de parceiros e novos territórios. Entre julho de 20...
Três irmãos percorreram 4.126 quilômetros pela Zâmbia e revelaram a importância das conexões entre habitats para a sobrevivência da espécie
Três irmãos deixaram seu grupo de origem na Zâmbia e percorreram uma distância extraordinária em busca de parceiros e novos territórios. Entre julho de 2025 e abril de 2026, os cães-selvagens-africanos acumularam 4.126 quilômetros de deslocamento, atravessando regiões protegidas, estradas e áreas próximas a grandes cidades. A jornada, documentada por pesquisadores, representa o maior percurso de dispersão registrado para um mamífero africano. Além do recorde, o episódio revelou como esses predadores ameaçados ainda conseguem conectar ecossistemas separados por centenas de quilômetros.
Os três machos pertenciam ao grupo Mayukuyuku, localizado no Parque Nacional de Kafue, na Zâmbia. Com aproximadamente três anos de idade, deixaram o território natal em julho de 2025. Esse comportamento, chamado dispersão, ocorre quando indivíduos procuram oportunidades de reprodução fora do grupo onde nasceram.
Equipados com coleiras de rastreamento GPS, os irmãos seguiram por regiões centrais do país, aproximaram-se das cidades de Kitwe e Ndola e mudaram de direção diversas vezes. Em abril de 2026, alcançaram a área de manejo de fauna de Luano, no ecossistema do vale do Luangwa. A distância registrada corresponde ao trajeto acumulado, não à separação em linha reta entre origem e destino.
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A viagem atravessou paisagens extremamente diferentes. Os animais precisaram contornar reservatórios, cruzar estradas e percorrer regiões com atividades humanas intensas. Em determinados momentos, aproximaram-se de centros urbanos antes de retornar a áreas menos modificadas.
Apesar desses obstáculos, conseguiram atravessar territórios considerados pouco favoráveis à permanência de grandes carnívoros. Os pesquisadores identificaram comportamentos que ajudam a explicar essa capacidade de deslocamento.
Entre os principais desafios estavam:
Um vídeo divulgado pelo Zambian Carnivore Programme apresenta a pesquisa sobre os deslocamentos extraordinários desses animais na Zâmbia.
A espécie Lycaon pictus, também conhecida como mabeco, vive em grupos sociais cooperativos. Normalmente, apenas o macho e a fêmea dominantes se reproduzem, enquanto outros integrantes participam da caça e do cuidado com os filhotes.
Quando muitos indivíduos atingem a maturidade, alguns deixam o grupo natal para procurar oportunidades reprodutivas. Os três irmãos pertenciam a uma geração numerosa, composta por 19 filhotes que chegaram à idade adulta. A saída oferecia uma possibilidade de reprodução, mas também aumentava a exposição a ameaças naturais e humanas.
O estudo publicado na revista Ecology, em setembro de 2026, reuniu informações de deslocamentos monitorados pelo Zambian Carnivore Programme. Liderada por Scott Creel, da Universidade Estadual de Montana, a pesquisa documentou movimentos que conectaram diferentes ecossistemas da Zâmbia.
Os pesquisadores acompanharam 19 grupos em dispersão e analisaram trajetórias que demonstram a existência de passagens entre populações distantes. Entretanto, conseguir atravessar um território não garante sucesso reprodutivo. Os animais ainda precisam encontrar parceiros, formar novos grupos e sobreviver tempo suficiente para produzir descendentes.
Os três irmãos percorreram 4.126 quilômetros, embora a distância direta entre os territórios de origem e destino fosse muito menor. Isso demonstra que a dispersão envolve mudanças de direção, exploração de diferentes ambientes e tentativas de encontrar outros indivíduos.
A pesquisa também documentou trajetórias de fêmeas que ultrapassaram dois mil quilômetros. Algumas dessas viagens terminaram tragicamente, após encontros com armadilhas destinadas à captura de animais silvestres.
A espécie enfrenta redução de habitat, conflitos com atividades humanas, doenças e mortalidade provocada por armadilhas. Sua sobrevivência depende não apenas de parques nacionais, mas também de paisagens que permitam deslocamentos seguros entre populações.
O recorde dos três irmãos mostra que essas conexões ainda existem, embora sejam frágeis. Proteger corredores de fauna, reduzir armadilhas e conservar áreas intermediárias pode aumentar as oportunidades de reprodução e circulação genética. A pesquisa também evidencia uma diferença fundamental: percorrer milhares de quilômetros demonstra capacidade de movimento, mas a conservação depende de transformar essas viagens em conexões duradouras entre populações.




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