O ano era 1964, e os Estados Unidos viviam uma das eleições presidenciais mais importantes de sua história. De um lado, o democrata Lyndon B. Johnson, que assumiu o cargo depois do assassinato de John F. Kennedy em novembro de 1963 e buscava um mandato própri…

O ano era 1964, e os Estados Unidos viviam uma das eleições presidenciais mais importantes de sua história. De um lado, o democrata Lyndon B. Johnson, que assumiu o cargo depois do assassinato de John F. Kennedy em novembro de 1963 e buscava um mandato próprio. Do outro, Barry Goldwater, que venceu a disputa interna no partido republicano.

Calma! É evidente que Dan Gurney se candidatou de verdade à presidência dos EUA — foi tudo uma brincadeira da revista. Entretanto, apesar do tom bem humorado das propagandas em favor do carismático piloto, havia um objetivo, uma mensagem a ser passada: a imprensa automotiva precisava ficar menos sisuda e, em vez de focar-se apenas em comparativos, fichas técnicas e análises de mercado, deveria lembrar a todos de que carros também representavam cultura, estilo de vida, comportamento, expressão e, acima de tudo, prazer em dirigir.

Mas o que uma campanha fictícia para presidente dos EUA tem a ver com a linha editorial de uma revista sobre carros?

Tudo, meus amigos. Tudo.

Para entender a campanha, é preciso olhar para o que a Car and Driver estava se tornando sob a batuta de seu editor-chefe, David E. Davis Jr.. Ele queria chutar o balde contra a tradição monótona do jornalismo automotivo da época. A revista precisava ter opinião, ter humor e, acima de tudo, a capacidade sagrada de provocar.

Foi assim que, em maio de 1964, nasceu o manifesto editorial Dan Gurney for President!. Observando a sucessão de oportunistas, charlatães e amadores bem-intencionados que disputavam a Casa Branca, a redação declarou que havia se cansado de assistir àquilo passivamente. A solução da Car and Driver era rebelar-se e criar um candidato próprio para defender uma minoria esquecida pelos grandes partidos: os apaixonados por automóveis.

A plataforma eleitoral de Gurney — toda redigida por David E. Davis Jr. — era radicalmente voltada ao entusiasta, deliberadamente absurda e propositalmente insana. Ela propunha:

É claro que algumas dessas propostas seriam muito mal vistas hoje. Mas é preciso observar uma coisa importante: era tudo escrito de forma humorística. A campanha da Car and Driver era algo chamado sátira, uma arte que parece andar meio esquecida atualmente.

Abaixo, leia o manifesto em sua íntegra:

Sentados aqui em nosso escritório, assistindo à procissão de covardes, charlatães, amadores bem-intencionados e idealistas confusos que compõem o atual leque de aspirantes à presidência, nós nos rebelamos. Não vamos deixar que os grandes partidos políticos nos enganem com sua lábia outra vez este ano. Vamos lançar nosso próprio candidato — um homem capaz de representar cada um de nós que se considera um fanático por carros.

Entusiastas, uni-vos! Juntem-se a nós no apoio à candidatura de Dan Gurney, concorrendo sob a plataforma do mais sincero e genuíno entusiasmo automotivo. Nem os republicanos nem os democratas demonstraram qualquer interesse pelas necessidades, esperanças, desejos ou sonhos mais íntimos de quem gosta de pilotar de verdade. Por isso, nós dizemos: que vão para o inferno! Criaremos uma terceira via — uma nova força vital na política americana que vai varrer das estradas as vovozinhas, das rodovias expressas os radares feitos para vicinais, e reservar as as estradas sinuosas de pista simples apenas para motoristas de comprovada habilidade e paixão. Todos os condutores terão que passar por algo como a escola de pilotagem de Carroll Shelby em Riverside, ou por uma das boas escolas europeias ou britânicas — e os reprovados serão banidos e obrigados a usar o transporte público. Isso cumprirá a dupla função de aumentar a arrecadação local e estadual, salvar da falência as companhias ferroviárias, aéreas e de transporte urbano, e de quebra ainda tirar os braços-duros do caminho, para que nós, modelos de condução impecável em alta velocidade, possamos finalmente rodar do nosso jeito.

Quem seria melhor qualificado para defender a nossa causa do que Daniel Sexton Gurney? O homem anda como o vento. Que guia qualquer coisa melhor do que praticamente qualquer um. Que tem o amor incondicional de 300 mil torcedores em Indianápolis. Seu nome inspira incontáveis fãs de stock car no sudeste dos Estados Unidos. Ele é o santo padroeiro das corridas de carros esporte americanos. Os aficionados por Grandes Prêmios na Europa pronunciam seu nome no tom mais reverente que se possa imaginar. Ele se tornou uma lenda em seu próprio tempo.

Daniel Sexton Gurney! O nome que será o brado de união para milhares de entusiastas marginalizados!

Sim, há muita coisa datada ali, e algumas referências que só faziam sentido nos Estados Unidos da década de 1960. Ainda assim, o texto mostra o estilo que a Car and Driver se orgulhava de ter — algo mais informal, mais bem-humorado, mas sem perder a autoridade ou a seriedade quando fosse preciso. No mundo de hoje a gente é obrigado a tomar muito cuidado com o que diz, como diz, e quando diz, sob o risco de ser mal interpretado ou de não estar alinhado ao momento atual — seja lá o que isso significa. É óbvio que ninguém pensa de verdade que andar de transporte público te torna menos que alguém, ou que ir trabalhar de carro é algo reservado a gente superior, que tem os meios, pode pagar caro por combustível, et cetera. Davis Jr estava simplesmente conversando com seu público, na linguagem de seu público, e se valendo de referências e códigos feitos por seu público, para seu público. Sem medo de ser mal interpretado ou de soar desconectado da realidade. Entendem o que quero dizer?

Mas por que justo Dan Gurney? Simples: ele era o cara certo. Extremamente carismático e com boa aparência, ele era mesmo tudo aquilo que o editorial dizia. Àquela altura ele já havia vencido um Grande Prêmio de Fórmula 1 pela Porsche. Competia pela Brabham e construíra uma reputação impressionante para um americano, sendo respeitado tanto no automobilismo europeu quanto nas categorias dos Estados Unidos. Em janeiro daquele ano, Gurney havia vencido pela segunda vez consecutiva as 500 Milhas de Riverside, da NASCAR. Além disso, era também uma figura central na tentativa de levar a tecnologia dos monopostos de motor central-traseiro a Indianápolis.

Mas a escolha também era inteligente porque ia além da fama. Naquele período, o automobilismo americano ainda era um conjunto de comunidades relativamente separadas: havia o público de Indianápolis, o das corridas de stock cars, os entusiastas dos esportivos europeus e os seguidores da Fórmula 1. Gurney transitava com elegância entre todos esses mundos, e Davis explorou exatamente esse atributo em seu editorial: Gurney era admirado e respeitado por todas as vertentes do automobilismo.

Rapidamente a ideia ultrapassou os limites das bancas de jornal e invadiu os boxes das pistas. Jim Clark, bicampeão mundial de Fórmula 1, foi fotografado nas 500 Milhas de Indianápolis usando orgulhosamente o broche da campanha. Em tom brincalhão, declarou que, se Dan fosse eleito presidente, não teria mais tempo para voltar à Europa e correr contra ele. Carroll Shelby e toda a equipe da Shelby American tiraram fotos oficiais empunhando cartazes de apoio a Gurney. Pilotos de ponta como Bob Bondurant também exibiam o material nos boxes. Além disso, os adesivos começaram a aparecer em para-choques de carros de rua e de competição tanto nos Estados Unidos quanto na Europa, atravessando o Atlântico e ganhando vida própria.

O contraste entre os dois pilotos era perfeito para a paródia: Dan Gurney era alto, bem apessoado, cosmopolita, refinado e passeava com elegância entre a Fórmula 1 e o automobilismo americano. Já A. J. Foyt era o retrato da working class americana: texano, durão, vindo dos ovais de terra, temperamental e combativo — e recém-vencedor das 500 Milhas de Indianápolis de 1964.

Smith simulou uma denúncia contra a própria Car and Driver, accusando David E. Davis Jr. de manipular leitores e controlar Gurney como um candidato marionete. A sátira aproveitou para ironizar os bastidores do jornalismo automotivo: questionava a imparcialidade da revista, levantava suspeitas falsas sobre os dados de testes de pista (incluindo o lendário e polêmico comparativo entre o Pontiac GTO e a Ferrari 250 GTO, que colocou Dan Gurney no volante dos dois carros) e insinuava que o departamento comercial alterava as pesquisas dos leitores.

Foyt não abraçou a campanha com o mesmo entusiasmo de Dan Gurney, mas também não se opôs. E é fato que os dois mantinham enorme respeito mútuo — e a história prepararia uma ironia poética: três anos depois, em junho de 1967, Gurney e Foyt dividiram o cockpit do Ford Mk IV nº 1 para vencer as 24 Horas de Le Mans, consagrando uma vitória 100% americana e dando origem ao famoso gesto de estourar o champanhe no pódio.