Luís Mira, da CAP, revela o lado tecnológico do mundo rural: de sensores de rega a microrganismos que regeneram o solo.

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Qual é o objeto mais tecnológico que tem em casa? Provavelmente, neste momento, apontaria para o seu smartphone ou para o carro, que se calhar está estacionado lá fora. Mas e se eu lhe dissesse que para chegar à sua mesa, um simples tomate passou por mais camadas de inovação do que um carro de luxo? Se calhar nunca pensou nisto e parece um exagero, mas é a realidade da agricultura moderna. E hoje, no "O lado B da Terra", em parceria com a B Rural, vamos abrir o capô do setor agrícola para perceber como é que algoritmos, satélites e edição genética estão a revolucionar aquilo que comemos. Eu sou o João Costa e Silva e para nos ajudar a decodificar este cenário recebemos Luís Mira, secretário-geral da CAP e uma das vozes mais experientes na defesa da modernização do nosso mundo rural. Luís Mira, muito bem-vindo.

Também é um gosto estar aqui convosco e podermos falar neste tema tão atual na agricultura.

Sim, e com esta introdução já ficámos muito curiosos para saber aquilo que aí vem neste episódio, até porque é mesmo verdade, um tomate ganha um Ferrari, por exemplo, quando falamos aqui de carros de luxo, na pista da tecnologia.

Sim, é muito possível que ganhe e eu vou explicar porquê. Começa logo na seleção das sementes. As pessoas não têm noção, mas há todos os anos centenas de sementes novas que são desenvolvidas com investimentos enormes e que procuram melhorar as características industriais do tomate e aquilo que os consumidores preferem. Outra informação importante é que Portugal é um país pequeno e que muitas vezes acham: "Nós somos pequenos, não temos capacidade de ser competitivos no mercado mundial de uma commodity como é o concentrado de tomate". Pois, não é verdade.

Estamos enganados. Porquê? Porque o nosso concentrado de tomate tem características, nomeadamente uma que é o Brix, tem a ver com a cor e com a doçura, que são muito importantes para adicionar a outros tomates que se produzem por esse mundo fora. E as maiores operadoras de ketchup do mundo compram este tomate para fazer essa operação e, portanto, ele é muito diferenciador e de muita qualidade. Tecnologicamente, a semente tem logo todo este processo de desenvolvimento, de melhoria das características que têm a ver com isso e depois com o seu comportamento no campo. A sua produtividade tem vindo sempre a aumentar nos últimos anos, fruto não só do melhoramento genético, mas também da forma como ele é feito no campo. No campo, começa logo por serem utilizadas técnicas de sementeira extremamente curiosas. Por exemplo, o preço de 1 kg de semente também tem milhares de tomateiros. É elevadíssimo, é na ordem dos milhares de euros também.

Não temos muita noção disso.

Não têm essa noção. Porquê? Porque aquilo teve um investimento muito grande no seu desenvolvimento das sementes e em tudo o que está à volta de demonstrar que não há problema com essa semente. Depois, no campo, a sementeira altamente tecnológica, já com semeadores de precisão, mapeamentos das parcelas, muitas vezes com recurso a satélites. O que é que essas informações de satélite vêm dar? Vêm dar a condutividade do solo e, num dos casos, permitem fazer uma atuação que até agora não era possível. Antigamente, quer dizer, antes desta geração de semeadores que existem hoje, os semeadores tratavam o campo todo por igual. Eram uma máquina, não tinham capacidade de decisão. Hoje, com esta informação dos satélites e introduzida no semeador, ele coloca, por exemplo, mais fertilizante no metro quadrado que precisa mais e menos no que precisa menos. E portanto, isto diz já a tecnologia que se está a usar aqui. Depois, todo o sistema de rega. Hoje a rega é feita gota a gota e é disponibilizado aquilo que a planta precisa e não mais. Porquê? Porque são colocados sensores no solo, a 20 cm, a 30 cm, a 50 cm, que dão informação e que estão ligados a uma estação meteorológica, que dá a previsão também para o dia seguinte. E o que isso prevê? Isso prevê as condições de temperatura e de humidade do dia seguinte e dá uma instrução ao computador e ao sistema de rega para proporcionar à planta a água que ela precisa para não entrar em stress hídrico. Se amanhã forem fazer 40 graus, nós não conseguimos regar tudo amanhã, porque é muita necessidade de água. Então a rega da véspera já vai ser maior para permitir que a planta não entre em stress hídrico. Depois, o agricultor tem no seu bolso um smartphone que lhe permite saber qual é o talhão que está a regar, permite acionar essa rega, permite corrigir alguma coisa, permite ser alertado se houver um problema. Isto não é futurologia, isto existe aqui no campo de Vila Franca, onde há tomate, e por esse país fora. Depois, a colheita. Antigamente, a colheita era toda feita à mão.

Sabemos bem disso. Hoje, pensou-se: "Como é que o tomate, uma coisa tão delicada, como é que se consegue fazer?" E como é que é utilizada uma técnica com um produto para ele amadurecer mais ou menos todo à mesma altura? Depois, tem uma máquina Colhe o tomate, seleciona, até separa quando está verde, faz todo esse trabalho. Depois é transportado para a fábrica, onde tem toda a tecnologia para o seu processamento e para a sua colocação em bidões de 200 litros, que é comercializado assim. Tudo isto é feito já com esta incorporação de tecnologia. Os tratores que preparam a terra têm GPS, os semeadores têm erros de 5 cm, o agricultor não anda ali a guiar o trator.

Nós temos que esquecer aquela ideia de que a agricultura é um setor antiquado, se calar para um jovem que quando pensa neste trabalho, pensa mais em técnicas ainda muito rudimentares. Mas isto hoje está tudo muito mais tecnológico, segundo aquilo que o Luís Mira também me está a partilhar.

Essa é uma realidade. Eu vou dar aqui um exemplo real de um agricultor, que é um agricultor bastante evoluído, que há cerca de 20 e tal anos, 30 anos, começou na gestão da exploração familiar. E há 30 anos tinha 14 pessoas no campo e uma pessoa no escritório. E hoje tem 10 pessoas no escritório e cinco pessoas no campo e diz que vai se calar terminar a sua vida de agricultor com duas pessoas no campo e 13 pessoas no escritório. Por que isto? Porque ele diz-me: "A decisão, por exemplo, do milho que eu vou utilizar este ano, a data em que vou fazer a sementeira, não sou eu que decido. Tenho um programa informático que decide, naquela parcela, quando é que eu vou fazer essa operação. Nem sou eu que decido a variedade, nem sou eu que decido a data". Eu acho que isto diz o nível que está a agricultura empresarial, aquela que funciona para o mercado. Se você é um pequeno agricultor, não tem esta infraestrutura nem esta capacidade social, mas aqueles que funcionam para o mercado, todos têm que ir neste caminho e não é uma situação do futuro, não, é já hoje uma realidade.

Há também uma versão que não é só tecnologia de sensores, de equipamentos e de computadores. Há uma grande informação e uma grande alteração do conhecimento do solo e da própria biologia desse solo, coisa que há 30, 40 anos não existia. Eu diria que aquilo que eu aprendi na universidade sobre estas técnicas agrícolas, a maioria das coisas hoje já está totalmente ultrapassada. E o que se está a assistir hoje a um tipo de agricultura, que se chama agricultura regenerativa, em que se vai utilizando a capacidade dos micro-organismos do solo, das minhocas e de todo o ecossistema do solo, para fazer aquilo que é o mais interessante para o solo, que é captar o azoto, o fósforo e o potássio. E está-se a chegar a resultados muito impressionantes, em que se vai diminuindo a quantidade de adubos que se utilizam e que as produções são as mesmas ou até maiores. E também na parte da mecanização, nós passamos por uma fase que era muita maquinaria, muita lavoura, andar sempre ali, no fundo, a trabalhar o solo. Chegou-se à conclusão, primeiro, hoje, os combustíveis estão caríssimos e tenta-se minimizar todas essas operações. Mas também se está a chegar à conclusão que se eu tiver numa cultura intercalar, uma mistura com 100 variedades, com um nabo do tamanho de quatro bolas de tênis, e que isso rasga a terra, faz o mesmo trabalho que faria uma máquina a passar sem gastar combustível e tendo essa mesma função, que é permitir a entrada da água e manter vivo esses micro-organismos e minhocas. Ele diz muitas vezes: "Eu por cada hectare tenho o peso de quatro vacas em minhocas, não tenho que as alimentar". E é esta nova consciência, este novo conhecimento científico, que não é possível eu passar de um dia para o outro, de uma agricultura que cresceu nos últimos 50 anos à base de maquinaria e à base de fertilizantes sintéticos, feitos com recurso a energia, mas é isso que permite que o mundo atual não passe fome. 50% da produção de alimentos do mundo deve-se à capacidade dos fertilizantes para aumentar a produção. Se não houvesse fertilizantes no mundo, havia muita gente que não tinha para comer. E esta é também uma parte importante, este novo conhecimento biológico do solo, só para deixar claro, que não é só sensores, inteligência artificial.

Há mais do que isso.

Drones. Há esta parte que também é muito importante e que são o complemento das duas, que torna isto bastante mais sofisticado do que o Ferrari, que a sua tecnologia já vem há alguns anos, que é sempre a mesma, tem vindo a melhorar pontualmente, mas não com esta alteração tão grande como o setor agrícola. Ele também estava mais atrasado.

Vai evoluir bastante mais.

Falava aqui destas alterações que têm acontecido ao longo de 50 anos. Hoje, um agricultor passa tanto tempo a analisar gráficos e mapas de calor de satélite, como falava aqui há pouco, como olhar para a terra. Podemos entender que esta é a nova cara do setor, é desta forma que nós devemos olhar agora para a agricultura.

O agricultor hoje tem meios de tomar as decisões que não tinha há 30 anos.

O simples facto de ter um smartphone e poder monitorizar muita coisa.

Sim, ter uma imagem de satélite com facilidade também não tinha, e que não precisa de pagar por ela, mas depois precisa de ter outro tipo de despesas e de conhecimentos. Por exemplo, se eu utilizar mais bactérias, tenho que ter quem me venda as bactérias ou tenho eu que produzir bactérias. É uma nova tecnologia É fácil ser moral de ovelhas ou de vacas, mas de bactérias já é mais complicado. Há aqui muita tecnologia que não existia. Há despesas que vão a diminuir, mas há outras que vão aumentar. A tecnologia também é cara, muitas das vezes assistimos a que o próprio meio universitário já não consegue acompanhar esta alteração tão profunda que se está a verificar, e até existem formas já diferentes de transmitir o conhecimento em matérias que evoluíram mais.

Quando diz o meio universitário, é aquilo que se ensina nas universidades para quem quer aprender mais sobre isto.