Diante dos jurados, Monique Medeiros da Costa e Silva resumiu sua defesa em uma frase: "Uma mãe não mata o seu filho". Presa preventivamente por dois anos e oito meses num pavilhão destinado a detentas por crimes contra crianças e idosos, ela disse ao júri que, se soubesse de algo naquela madrugada, estaria "respondendo por homicídio do Jairinho" ou "enterrada ao lado" do filho. Leia mais (07/20/2026 - 04h15)

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Diante dos jurados, Monique Medeiros da Costa e Silva resumiu sua defesa em uma frase: "Uma mãe não mata o seu filho". Presa preventivamente por dois anos e oito meses num pavilhão destinado a detentas por crimes contra crianças e idosos, ela disse ao júri que, se soubesse de algo naquela madrugada, estaria "respondendo por homicídio do Jairinho" ou "enterrada ao lado" do filho.

O júri concordou em parte. Em 4 de junho, após o julgamento mais longo da história do Rio de Janeiro, iniciado em 25 de maio, o conselho de sentença condenou o ex-vereador Jairo Souza Santos Júnior, o Dr. Jairinho, a 43 anos, 9 meses e 20 dias de prisão pelo homicídio qualificado de Henry Borel, 4, além dos crimes de tortura e coação no curso do processo.

Para Monique, os jurados afastaram a intenção de matar: desclassificaram a acusação para homicídio culposo e a condenaram apenas por tortura por omissão, a 1 ano e 4 meses —pena já cumprida na fase preventiva. A juíza Elizabeth Machado Louro concedeu a ela o perdão judicial.

A Justiça ainda não julgou os recursos da Promotoria, que tenta anular o perdão perdão a Monique, e a defesa de Jairinho busca invalidar todo o julgamento.

Os vídeos do interrogatório, aos quais a Folha teve acesso, mostram a versão que Monique levou ao plenário: a de uma mulher enlutada, que afirma não ter visto os sinais nem no filho, nem no homem com quem dividia a casa.

Henry morreu na madrugada de 8 de março de 2021, no apartamento da Barra da Tijuca, zona sudoeste do Rio de Janeiro, onde vivia com a mãe e o padrasto. O laudo do IML (Instituto Médico-Legal) apontou laceração hepática provocada por ação contundente e hemorragia interna.

No júri, Monique descreveu minuto a minuto sua versão daquela noite. Contou ter tomado remédio para dormir e encontrado o filho descoberto, de barriga para cima, com os pés gelados —"o olhinho dele olhando para o nada". Segundo seu relato, Jairinho sugeriu que o menino teria "engolido alguma coisa"; ela respondeu que o filho "não bota nada na boca".

No hospital, disse, as manobras de ressuscitação se estenderam por duas horas e meia.

Foi também nesse trecho do depoimento que Monique admitiu ter repetido aos médicos, na chegada ao hospital, a versão que atribui a Jairinho —a de que o casal teria "escutado um barulho" e encontrado o menino caído da cama. Ela afirmou ao júri que não ouviu barulho algum.

Nos dias seguintes à morte, Monique trocou mensagens com o pai. Elas foram lidas em plenário pela sua defesa como registro do luto em tempo real, antes de as suspeitas se voltarem contra o casal.

Nas mensagens, ela se culpa por não ter posto o filho para dormir na cama dele, "que era mais baixa", e escreve que só não tirava a própria vida porque sua religião não permitia e que queria se encontrar ele. "Sinto tanto a falta dele, que meu coração parece que está sangrando", disse.

Ao júri, ela relatou ainda o colapso físico daquelas semanas —arrancava os cabelos, roía as unhas até sangrar, parou de comer— e contestou o uso de uma fotografia sua que circulou à época: segundo ela, a imagem foi tirada de contexto, e uma primeira foto, em que aparecia chorando, enviada a uma madrinha em tratamento de câncer, nunca veio a público.

Monique e Jairinho foram presos um mês após a morte de Henry. A ruptura entre os dois, segundo o relato dela ao júri, aconteceu na cadeia, quando as primas lhe mostraram o depoimento de uma ex-namorada do ex-vereador afirmando que ele estava acordado, trocando mensagens, na madrugada da morte.

Até ali, Monique sustentava a versão de que Jairinho havia tomado remédio para dormir, orientação que, segundo ela, partiu do advogado que então defendia os dois.