Depois de Filadélfia, segue-se Boston. Entre Shakira no TD Garden e uma jazz-band da Marinha na rua, o nosso veleiro "Sagres" brilhou na capital do Massachusetts. Um ensaio de João van Zeller.

No texto anterior falou-se de facetas da Pensilvânia e de Filadélfia, numa incursão pela América profunda, pelo americana, expressão intraduzível.

Em Boston foi diferente. Só não foi nas interpelações dos que davam com este português: Portugal, tudo uma maravilha! E diziam: “já fui”, “já marquei para ir”, “quero visitar”, uma música celestial para a nossa economia, e repetida N vezes. Quase todos os americanos que encontrei conhecem, quase todos falam dos vinhos, das gastronomias, das paisagens, das muitas idas ao Porto, mais do que a Lisboa ou ao Algarve…

Em tudo o resto, Boston foi diferente de Filadélfia. As pessoas que eu queria encontrar estavam fora, pelo que, apesar de tudo ter sido excelente, não fui apaparicado como na Pensilvânia, onde me senti em casa, tal a excepcional simpatia e interesse dos que me receberam.

Boston é a capital do Massachusetts e o coração da Nova Inglaterra. Dizem-na a mais segura, arborizada e civilizada das grandes cidades americanas. Eu senti a cidade assim quanto ao arvoredo e quanto à segurança. Quanto ao resto, não. Filadélfia e o Estado da Pensilvânia têm a verdade histórica da democracia americana. A Nova Inglaterra e Boston têm também carga histórica, mas de natureza mais “leve”… E Boston rivaliza com Filadélfia.

A frase é uma alusão à velha rivalidade entre Boston e Filadélfia, que percorre a história americana desde 1776. Algumas famílias de Boston fazem parte da mais antiga aristocracia americana, com pretensão de nobreza intelectual e social. Os de Filadélfia (caso dos meus amigos, e de todos os que conheci) replicam que a sua cidade é que foi a capital dos Founding Fathers, com a Declaração da Independência em 1776 e a Constituição em 1787, enquanto Boston foi apenas o palco de uma escaramuça inicial e do Boston Tea Party, que muitos baralham, aliás, com toda a história da independência face à Grã-Bretanha.

O comentário do meu amigo anglo-argentino, que vive em Buenos Aires, quanto aos primos de Boston “são o mais próximo da realeza que a América tem”, mais a resposta irónica dos de Filadélfia “é o que eles pensam que são…”, é a versão contemporânea desta rivalidade.

No Massachusetts, a densidade de Universidades não tem paralelo. Conta com Harvard, o MIT (Massachusetts Institute of Technology) e mais quarenta e quatro outras. Tal como Filadélfia, tem museus, orquestra sinfónica de referência, arquitectura preservada e grande tradição intelectual. Tudo isto faz de Boston, no imaginário dos americanos, a cidade mais «europeia» dos Estados Unidos.

Os de Filadélfia sentem-se “outra loiça”…

O futebol nunca parou nos écrans das televisões em tudo quanto era sítio. Filadélfia recebeu seis jogos, incluindo o do Paraguai contra a França, no dia 4. Boston recebeu sete, e a França foi para lá jogar os quartos de final no dia 9. Estranhei ver poucos ou nenhuns franceses em ambas as cidades, ao contrário dos paraguaios e marroquinos que encontrei.

Boston também teve comemorações “especiais” nos 250 anos do 4th of July.

Uma delas foi a Tall Ship Parade, um desfile de lindíssimos veleiros de várias nacionalidades, incluindo a nossa Sagres.

Nesse dia, deambulei três horas ao longo da orla da enseada de Boston e dos cais, na expectativa de poder rever um espectáculo semelhante ao que assistíramos no Tejo durante a Expo 98. A nossa foi incomparavelmente melhor, com os veleiros a passar a cada cinco/dez minutos, num esplendor de beleza. Na capital do Massachusetts era o «lá vem um», com os grandes veleiros, uns 35 ou 40, muito separados.

Mas a alegria das gentes americanas compensou muito os vagares. Aqui e ali encontrei orquestras de jazz da Marinha Americana, comes e bebes, parquezinhos de jogos para miúdos e graúdos, etc., etc. Era uma festa popular que se estendia por uns três quilómetros da enseada.

Tropecei com alguns artistas que pintavam, cada um à sua maneira, os belos barcos que, de velas erguidas, lá iam passando muito separados e devagar. Entre eles chamou-me a atenção um, cujo work in progress no óleo de um Tall Ship me pareceu bom.

Perguntei-lhe se podia pintar a Sagres quando o mais bonito de todos aqueles veleiros passasse com as velas erguidas. Como o artista acedeu, decidi naquele instante adquirir a obra pelo preço bem em conta que ele me fez, para oferecer ao Capitão-de-Fragata Sousa Luís, Comandante da Sagres, pois fora amavelmente convidado para uma recepção a bordo no dia seguinte, ao fim da tarde. Apostei às cegas na eventual qualidade da pintura.

Chegado ao hotel, fui ver quem era o pintor, de seu nome Oleg Shvets, de origem ucraniana. É sócio da American Society of Marine Artists, a principal associação americana dedicada em exclusivo à pintura de navios, veleiros e cenas navais. Tal como o Oleg, alguns dos que ali paravam com os cavaletes montados tinham vindo de várias partes dos Estados Unidos para pintar os barcos ao vivo, alla prima.

Entregou-me o quadro a óleo na manhã seguinte, com a tinta ainda por secar, a tempo do presente para o Comandante. Regressou a Baltimore logo a seguir, numa viagem em que iria a guiar durante sete horas. O resultado foi admirável quanto à qualidade da obra: eu ganhara a aposta feita às cegas!

Só depois vim a saber que, entre os prémios recentes do Oleg Shvets, contavam-se o prémio do Júri da Paint Historic Alexandria Plein Air (2023), o prémio do Júri da Maryland Federation of Art – Strokes of Genius (2023) e o 1.º prémio da competição Quick Draw do North Carolina Plein Air Art Festival (2024). O acaso faz destas coisas.

O melhor, porém, veio depois.

A Sagres, disse, ficaria por isso na sua memória para o resto da vida. E contou o que comove qualquer um: o dinheiro daquele quadro ia ser enviado para um pequeno orfanato no Uganda, que Oleg apoia. O dinheiro irá servir para, durante seis meses, eles comprarem pastilhas de tratamento da água armazenada no depósito de três mil litros que enchem com a chuva recolhida das caleiras. Quarenta crianças irão beber água tratada, por conta daquela venda, durante os próximos meses. “Eu próprio estou short of money/com pouco dinheiro”, escreveu, “mas Deus providenciou”. E concluiu: “muito obrigado, Sr. João!”