Na ânsia de apanhar condutores a prevaricar, alguns polícias levam a dedicação ao extremo. Um, em vez de se esconder atrás de um arbusto, vestiu-se como tal (só) para apanhar condutores em infracção.

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A Operação Stop está com a Rádio Observador, no programa em que falamos do mundo automóvel. Eu sou o Miguel Cordeiro e comigo já está o Alfredo Lavrador. Bem-vindo, Alfredo.

Vamos falar hoje de multas.

Eu pensava que a caça à multa era uma coisa do passado, mas esta, de facto, é uma expressão que nunca sai do nosso léxico. O que este polícia com excesso de brio fez para apanhar mais condutores em falta, este polícia de que queres falar hoje?

Eu sou bastante mais velho do que tu. Ainda sou do tempo em que os polícias se escondiam atrás das árvores, dos sinais de trânsito e das lombas. Logo ali à saída das lombas, no final daquelas descidas mais pronunciadas, para apanhar os incautos condutores que resolviam prevaricar.

Mas este polícia foi muito mais longe. O rapaz vestiu um fato de sniper. Todos nós já vimos aqueles filmes.

Camuflado? Aqueles camuflados militares?

Um camuflado, mas camuflado à séria, com arbustos, com ervas, com tronquinhos. Tudo, capacete, não se via nada. Até as mãos estavam envoltas naquela folhagem. E mesmo assim ele conseguia estar encostado a uma árvore, com o seu fato de arbusto, de binóculos na mão, para ver os carros que se aproximavam, de um lado e do outro, quem é que ia ao telefone. E convenhamos que é um passo em frente. Atenção que isto foi numa pequena cidade ali ao pé de Nova Jérsia, a 50 km de Nova Iorque, mais ou menos. E nesta altura do ano não está provavelmente frio. Ou seja, aquilo consistiu também numa pequena sauna, para apanhar os condutores incautos.

Ok. Dá para perder um bocadinho de peso.

Normalmente, estes fatos são vestidos por snipers para caçar os inimigos. O polícia utilizou o mesmo raciocínio, só que aqui o inimigo era o condutor, que apesar de ser proibido e até comprovadamente perigoso, não estamos a defender o uso do telefone ao volante, como é óbvio.

Temem conduzir agarrado ao telemóvel numa cidade cheia de peões, de ciclistas, de passadeiras de peões, nem todas visíveis, porque aqueles carros em segunda fila normalmente impedem uma visão correta sobre quem vai na passadeira, se é que vai alguém. E pronto, muitos foram vítimas deste polícia cheio de gelo. Se calhar tinha aquele fato de sniper dos seus tempos de tropa e resolveu dar-lhe uso de uma forma economicamente mais interessante.

Bem, eu admito que é uma atitude um pouco extrema, podemos dizer assim, mas a realidade é que um condutor distraído pelo telefone coloca, de facto, peões, ciclistas e outros veículos em risco, não é?

Claro que sim. E para que os nossos ouvintes não pensem que nós estamos aqui a exagerar, segundo a Prevenção Rodoviária Portuguesa, em Portugal, o uso de telemóvel ao volante, agarrado na mão, se utilizares um car kit, é como ires falando com o teu passageiro, com o teu amigo do lado. Mas agarrado com o telemóvel, o que te inibe desde logo de utilizar uma das mãos, é responsável por entre 5% a 25% dos acidentes rodoviários. O que, apesar da margem de erro ser grande, no limite, são números bastante preocupantes.

E isto gerou cerca de 12 mil acidentes nos últimos três anos. É uma média anual, também ela alarmante. E nota que se falar ao telemóvel aumenta o risco de acidente cerca de quatro vezes, enviar mensagens, o que muita gente faz também, mea culpa, faz disparar este risco em 23 vezes, ou seja, cerca de 800%. Isto sim, é grave. Para termos uma ideia da situação, posso avançar que desviar os olhos da estrada, e isto são números também que vão fazer alguma confusão, mas é a realidade e mais uma vez é a Prevenção Rodoviária a avançar com eles. Desviar os olhos da estrada para olhar para um ecrã durante três segundos apenas, é difícil olhar menos tempo do que isto, permite que o veículo percorra 42 metros, se viajado a apenas 50 km/h. São 42 metros em que tudo pode acontecer, sem que o condutor se aperceba.

Mas vamos voltar a este polícia.

Tu gostaste do polícia.

Gostei. Acho que a história está aqui. Porque dos perigos de utilizar o telemóvel, todos nós sabemos deles. Esses números ajudam-nos também a justificar esses perigos. Mas eu duzo que este polícia não estivesse sozinho. Isto não costuma acontecer sozinhos.

Não, aquilo era um grupo de pândegos que estava ali a faturar a bem do município. Para já, a estrela do pelotão era efetivamente o polícia vestido de arbusto, com os tais binóculos e rádio. E então o seu papel era o veículo tal, com a matrícula tal, vai ao telefone. E aqui havia uma dose de humor associada, devo-te confessar Porque quem recebia a informação via rádio era um polícia vestido à paisana, com uma T-shirt em que dizia, escrita em letras garrafais no peito, supõe-se que nas costas também: "Nada cap, não sou polícia". O que não deixa de ser um bocado parvo. E esse depois retransmitia a informação para, creio que três agentes que estavam de um lado e de outro do tal polícia arbusto, que assim mandavam parar os carros identificados, com o condutor ao telefone e multava-os. De maneira que era um trabalho de equipa, que é importante salientar.

Mas há aqui uma coisa que eu ainda não consegui perceber. Não sei se tens essa informação. Quantos condutores é que este polícia conseguiu apanhar assim camuflado?

Para já, recorda-te que eu disse que os fatos sniper não são provavelmente frescos, porque com aqueles arbustos todos é complicado. Agora, estava calor. E ainda assim, o polícia espero que tenha multado muita gente, porque teve seis horas com aquela coisa vestida. Seis horas é um turno de trabalho inteiro, não é fácil estar ali seis horas seguidas. E nesse período, conseguiu apanhar 76 condutores ao volante. Depois, é bom ter presente que as multas lá variam consoante se é primeira infração ou não. A primeira infração normalmente é punida por 200 dólares, mas depois sobe para 400 e 600 para a terceira e à quarta são pontos na carta, 90 dias de conduzir e por aí fora. Em Portugal também as multas de telemóvel não são fáceis, porque variam entre os 250 € e os 1250 €.