Num país com cerca de 7 milhões de deslocados, Bruno Cardoso Reis explica como o terramoto serve de teste à solidez do Estado. Ainda a viragem à direita na América Latina e a crise no Reino Unido.
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Embarcamos numa nova viagem pelos "Cinco Continentes". Já sabe que é por aqui que fazemos a análise aos temas que marcam a geopolítica internacional. Eu sou o João Costa e Silva e está comigo o historiador Bruno Cardoso Reis. Bruno, seja muito bem-vindo. Como é que estás?
Olá, obrigado. Está tudo bem. Saudações a todos os ouvintes.
E hoje é um dia importante aqui pra nossa rádio. Dia 27 de junho de 2019, a Rádio Observador iniciava as suas funções, as suas emissões, foi a primeira emissão nesse dia. Tu, Bruno, tens estado conosco ao longo destes anos. Vivenciaste também muitos acontecimentos que nos mudaram e transformaram até enquanto sociedade, muitos eventos que também falamos deles aqui, inclusive no "Cinco Continentes". Esta questão é um bocadinho ingrata, mas se tivesses de escolher um, aquele que mais te marcou, qual seria?
Desde logo, parabéns a toda a equipa. Tem sido um enorme prazer trabalhar aqui na Rádio Observador. Acho que é um projeto excelente e tem excelentes pessoas com quem é muito fácil e muito agradável trabalhar. Muito obrigado a todos também por me convidarem para participar nesta aventura. E obrigado também aos ouvintes, que se têm multiplicado, isso é fundamental para sustentar este tipo de projeto. Queria destacar duas coisas, uma coisa na rádio e outra coisa fora da rádio. Na rádio, um projeto no qual eu não estou envolvido, portanto, também estou mais à vontade pra elogiar, que é realmente este projeto dos podcasts Plus. Acho que realmente é uma enorme mais-valia em que o Observador apostou e felizmente teve também alguns patrocínios pra isso, mas acho que realmente é algo que fazia muita falta na rádio portuguesa. Eu sou um grande fã de rádio, desde sempre. Depois de viver na Inglaterra, tornei-me ainda mais fã da BBC nas suas variantes. Mas realmente, no mundo anglo-saxónico, onde há obviamente outros recursos financeiros também, este campo dos podcasts está muito desenvolvido há muito tempo e este género de podcast já existia, mas realmente não existia no caso de Portugal. E acho que não só, no fundo, o Observador foi buscar esse bom exemplo, mas fez um trabalho que é excelente e que é completamente comparável na qualidade àquilo que de melhor se faz fora. E portanto, convido os ouvintes que ainda não ouviram, ouvirem alguns desses projetos.
O último é os fechos do caso Carlos Castro.
Exatamente. E, por exemplo, eu gostei especialmente do Piratinha do Ar, aquele podcast dedicado a um-
Que está mais aproximado também às tuas áreas de interesse, não é?
Sim, eu recordo-me vagamente aquele caso, dessa pirataria aérea de Portugal dos anos 80. Acho que é um excelente exemplo, realmente, como também se faz história com o rádio. Depois, em termos da dimensão internacional, por estranho que pareça, não tenho grandes hesitações. Ou seja, claramente, aquilo que se destaca pra mim é a guerra na Ucrânia, a invasão russa da Ucrânia, a guerra de conquista russa em relação à Ucrânia. E as razões pra isso são várias. Por um lado, a proximidade à realidade ucraniana, por exemplo, na escola da minha filha, no dia da invasão, nos colegas de turma havia obviamente miúdos da comunidade ucraniana, que está aqui, que é numerosa, que está muito bem integrada e, portanto, preocupados com o que estava a acontecer aos avós, por exemplo. É uma realidade que tem essa proximidade, depois, porque me parece que objetivamente, é talvez dos eventos mais impactantes e mais perturbadores na política internacional nas últimas décadas, porque basicamente, o que significa é que uma grande potência, pela primeira vez, faz abertamente uma guerra de conquista contra uma potência mais fraca. Claro que tivemos muitas guerras desde 1945, mas desde aí que não é suposto haver realmente a alteração das fronteiras pela força. E isso, parecendo pouco, é muito em relação ao histórico, é uma limitação importante àquilo que as grandes potências podem ou não podem fazer. E é algo que, apesar de tudo, essas grandes potências têm respeitado. Eu sei, claro, que os Estados Unidos fizeram muitas intervenções armadas, muitas delas eventualmente questionáveis ou criticáveis, mas os Estados Unidos nunca declararam, nem nunca quiseram anexar território do Iraque ou do Afeganistão ou do Kosovo. E realmente, isso faz uma enorme diferença, é um enorme retrocesso, é um enorme risco pra pequenas e médias potências como Portugal. E de fato, também significou uma terceira coisa, que é objetivamente, em termos de importância deste conflito, porque também temos essas críticas, que eu acho que são inaceitáveis e até no limite, racistas, de quem diz: "Essa guerra só interessa porque é uma guerra entre brancos ou entre europeus", como se houvesse alguma razão pra nós, que somos europeus, não estarmos mais atentos a conflitos no nosso continente. É normal que isso aconteça, como é normal que os africanos se interessem por conflitos africanos ou os latino-americanos por conflitos latino-americanos. Mas além disso, e objetivamente, este é o conflito armado mais intenso, mais mortífero nos últimos anos. E portanto, pela primeira vez também desde 1945, a Europa é o continente onde há mais mortes em combate. E tudo isso, realmente, do meu ponto de vista, justifica que a invasão russa, esta guerra de conquista russa da Ucrânia, seja o evento que se destaca nestes últimos sete anos.
E que começou a 24 de fevereiro de 2022. Ainda esta semana falava com a Carla Jorge Carvalho e ela lembrava-se bem das emissões especiais em que entraste nesse início desse conflito.
Fomos todos surpreendidos por isso mesmo.
Também foi aqui um grande desafio pra rádio, que eu acho que se procurou responder o melhor possível. Espero que os ouvintes também concordem.
Bem, venham mais sete anos contigo, Bruno Cardoso Reis, também aqui no "Cinco Continentes". Vamos agora falar de um assunto também que não é nada simpático, uma catástrofe que aconteceu na Venezuela e que também não gostaríamos de estar a falar. Falamos aqui de uma desgraça, Bruno, todos sabemos disso, mas será que este evento que aconteceu vai ajudar aqui a reduzir as tensões, por exemplo, com os Estados Unidos e até atenuar essa divisão interna, quem sabe, abrir espaço até para uma transição democrática?
Primeiro que tudo, realmente transmitir os meus sentimentos, a minha empatia e simpatia por todos os portugueses e lusodescendentes que foram afetados por esta catástrofe, enfim, diretamente ou indiretamente, através de familiares.
As imagens são surpreendentes, de pessoas a resistir a esse sismo. Temos visto.
Portanto, é uma tragédia terrível. Obviamente, simpatia e empatia também por todos os venezuelanos que têm passado por décadas terríveis. Temos falado aqui muitas vezes disso. A Venezuela é, nos últimos anos, o país que mais contribui para os deslocados, para os refugiados, a nível global, à volta de seis, sete milhões, sendo que tipicamente os outros países que estão neste top 10 terrível de campeões em termos de números de deslocados, refugiados, são países onde há conflitos armados, como o Sudão, como a Birmânia, como o Afeganistão. Realmente, em cima de tudo isto, a Venezuela sofre agora esta tragédia terrível. Portanto, obviamente, transmitir aqui a minha simpatia e preocupação também, e o desejo de que haja aqui uma resposta eficaz e o mais rápida possível. Mas em termos dessa questão, realmente é uma questão interessante. O que se pode dizer a esse respeito? À partida, quando há realmente uma catástrofe deste género, desde logo ela é um teste à solidez das estruturas físicas, mas também das estruturas governativas, das estruturas estatais. E obviamente, nas estruturas físicas a Venezuela f




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