Psicólogo educacional e gestor do Colégio Loyola explica como lidar com expectativas, ansiedade e desempenho dos jovens durante a preparação para as provas

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Outro dia, depois de um simulado, vi um grupo de estudantes saindo do colégio. Alguns comentavam questões de matemática, outros faziam as contas sobre a quantidade de acertos e a conversão das notas. Havia também os que caminhavam em silêncio, talvez tentando deixar aquela manhã para trás.

Entre eles, um jovem encontrou a mãe na portaria, que, sorrindo, fez a pergunta que os pais frequentemente fazem:

A mãe ficou alguns segundos parada, enquanto o filho entrava no carro. Talvez pensasse que ele não queria conversar ou tenha imaginado que se insistisse estaria ajudando.

O vestibular costuma provocar essa sensação nas famílias. Os filhos estão diante de uma das primeiras grandes decisões da vida, mas nem sempre permitem que os responsáveis participem dela da forma como gostariam. E aí surge uma dúvida silenciosa: até quando eles vão precisar de nós?

Há alguns anos, a indispensável função dos pais era verificar o uniforme, conferir o material, acompanhar as notas. Agora, os jovens organizam seus próprios estudos, escolhem estratégias, constroem metas e... tomam decisões sobre o futuro!

É bonito ver a autonomia se consolidar. Mas também é um pouco assustador. Principalmente porque, em muitos momentos, o vestibular parece ser justamente isso: o marco de uma travessia entre a adolescência e a vida adulta. E os pais, por vezes, sofrem mais do que os filhos nesse processo.

Enquanto os adolescentes estão concentrados nas provas, nos simulados e nas escolhas profissionais, muitos adultos enfrentam as próprias ansiedades. Querem proteger, orientar, evitar erros e diminuir frustrações. Sem perceber, acabam transformando cada nota em assunto de conversa, cada resultado em motivo de questionamento e cada silêncio em sinal de alerta. A intenção é boa. Porém, há uma diferença importante entre acompanhar e controlar.

O primeiro significa estar presente, mostrar interesse, criar espaço para que o jovem fale quando quiser. Já a segunda opção, significa confundir cuidado com a necessidade de dirigir cada etapa do percurso.

Quando isso acontece, o fechamento dos filhos raramente aparece em forma de conflito. Ele surge aos poucos: nas respostas curtas, nas conversas interrompidas, na sensação de que qualquer assunto pode acabar voltando para estudos ou escolhas profissionais. O jovem não está rejeitando os pais; muitas vezes, está apenas tentando preservar um espaço próprio em uma fase em que já convive com cobranças suficientes. Por outro lado, quando encontra em casa um ambiente de escuta, sem julgamentos imediatos, sente-se mais seguro para compartilhar dúvidas e frustrações quando realmente precisa.

Muitos pais acreditam que precisam ter as respostas certas. Na verdade, frequentemente os filhos precisam apenas da presença certa. Necessitam de alguém que escute sem julgar, que acolha sem dramatizar e que ajude sem assumir o controle.

Também é importante lembrar que, durante o ano do vestibular, existe uma tendência em enxergar apenas o desempenho acadêmico. Os dias passam a ser medidos por questões resolvidas, simulados realizados e resultados alcançados.

Mas nenhum estudante é apenas um candidato. Ele segue sendo um adolescente que sente medo, insegurança, cansaço e expectativa. Continua precisando dormir bem, encontrar amigos, praticar esportes, assistir um filme e rir sem culpa.

Quando a rotina se resume apenas aos estudos, o desgaste costuma aparecer. E a família pode fazer muito para evitar isso. Às vezes, o apoio mais valioso é também o mais simples. Ou seja, respeitar o momento de concentração e evitar comparações com colegas ou irmãos.

É reconhecer o esforço, mesmo quando o resultado não foi o esperado. É celebrar pequenas conquistas ao longo do caminho. É perceber que uma nota abaixo da expectativa não define uma trajetória inteira.

É lembrar ao filho algo que, em meio à pressão, ele pode acabar esquecendo: seu valor não depende de uma aprovação.

Existe uma pergunta que costuma acompanhar muitas famílias nessa fase: "O que posso fazer para ajudar?" Talvez algumas ações sejam um bom começo:

Nenhuma dessas condutas garante aprovação. Mas todas ajudam a construir algo importante: equilíbrio emocional para enfrentar o processo.

Porque o vestibular passa, as listas de aprovados são divulgadas, novos desafios chegam. A vida segue. O que permanece é a qualidade das relações construídas durante o caminho.

Anos depois, poucos vão se lembrar da nota que tiraram em um simulado de setembro. Mas muitos se lembrarão de quem os acolheu nos dias difíceis, de quem acreditou neles quando a confiança vacilou e de quem esteve presente sem transformar o amor em cobrança.