Francisco Uruna Gomes da Silva mostrou, nas redes sociais, a rotina dos irmãos e do carcará adulto em um ninho no topo de uma árvore em Tamboril, no interior...
Por Samuel Pinusa, g1 CE
06/09/2026 05h00 Atualizado 06/09/2026
O agricultor Francisco Gomes filmou a rotina de dois filhotes de carcará em Tamboril (Ceará). Ele queria registrar se um irmão mataria o outro.
No Ceará, há uma crença popular de que apenas um filhote sobrevive. O biólogo Sanjay Mendonça explica que a agressividade ocorre pela escassez de alimento.
Francisco iniciou as filmagens em 20 de julho. Ele subia diariamente em uma árvore de 15 metros de altura com uma câmera adaptada para monitorar as aves.
No dia 25 de agosto, o filhote maior realizou o seu primeiro voo. O carcará adulto retornou 3 dias depois para alimentar o filhote caçula no ninho.
Os dois filhotes sobreviveram devido à alimentação variada da espécie. Nesta quinta-feira (3), o irmão mais velho retornou ao ninho e reencontrou o caçula.
Agricultor acha ninho com dois filhotes de carcará e decide filmar rotina dos irmãos no CE
Um agricultor, no interior do Ceará, criou um verdadeiro “reality show” em seu perfil no Instagram após encontrar um ninho com dois filhotes de carcará, uma das aves-símbolos do sertão nordestino. Francisco Uruna Gomes da Silva subiu em uma árvore e filmou, durante mais de um mês, a rotina dos irmãos de bico e o carcará adulto que os alimentava.
O ninho foi encontrado no topo de uma árvore com cerca de 15 metros de altura, em um sítio no distrito de Oliveiras, zona rural de Tamboril, município no interior do Ceará que fica a cerca de 287 km de Fortaleza.
“A gente ficou na curiosidade quando eu achei o ninho lá. Depois, eu fui pesquisar e vi que só ‘se criava’ [sobrevivia] um. Aí eu fiquei na curiosidade e pensei: ‘vou fazer o acompanhamento desse ninho’”, comentou Francisco, de 33 anos.
Na rede social, os seguidores do agricultor começaram a torcer pela sobrevivência do filhote menor. Há um credo popular, principalmente no interior do estado, que apenas um filhote de carcará sobrevive quando dois habitam o mesmo ninho. Normalmente, o maior, mais velho e mais forte mata o outro.
A teoria não está de todo errada. Em algumas aves de rapina, é comum o comportamento chamado “cainismo” (entenda mais abaixo), em referência à história bíblica em que Caim mata o próprio irmão, Abel.
“Aí acabou que foi como se o Nordeste todo tinha se juntado ali para torcer pelo filhote mais novo”, reforçou o agricultor sobre a viralização dos vídeos e os comentários das pessoas na torcida pelo filhote caçula.
O cainismo é um comportamento presente nos filhotes de aves de rapina. — Foto: Francisco Uruna/Reprodução
Mas por que isso acontece? O biólogo Sanjay Veiga Mendonça explicou ao g1 que o comportamento é mais comum quando há escassez de alimentos. Então, por uma questão de sobrevivência da espécie, o menor filhote é morto.
“Esses gatilhos de agressividade são geralmente disparados por escassez de alimento. Então, quando tem alimento em abundância, a agressividade é menor, sobrevivem os dois. Quando tem o alimento em menor abundância, pela degradação ambiental — hoje em dia é mais comum menor abundância —, um filhote entra em agressividade e termina matando o outro”, explicou Sanjay, que é mestre em ciências veterinárias.
Apesar da agressividade assustar aqueles não acostumados ou desinformados sobre o comportamento animal, a prática é benéfica para as espécies. “Porque, no lugar de ficar dois filhotes fracos, que não sobreviveriam nenhum dos dois, a comida vai ser toda direcionada só para o filhote mais forte, porque venceu a luta, estava mais apto”, salientou o biólogo.
“Às vezes não é nem exatamente o mais forte, mas é o mais sortudo que nasceu um dia antes. E, às vezes, o fato dele nascer um dia antes torna ele maior, porque ele vai ser sempre maiorzinho, mais esperto, e ele vai ter mais acesso à comida. Com o tempo, essa diferença vai se tornar muito gritante de um filhote para outro”, complementou.
Acompanhamento familiar


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