Estudo da Unifesp usou IA para analisar 90.798 internações registradas Sistema de Informações Hospitalares do SUS

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Ao menos 15 mulheres foram internadas por dia em hospitais do Brasil de 2008 a 2023 em decorrência da violência doméstica. O dado é de um estudo da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo) publicado na revista científica Ciência & Saúde Coletiva.

A pesquisa usou inteligência artificial para analisar 90.798 internações de mulheres de 20 a 59 anos registradas no SIH (Sistema de Informações Hospitalares) do SUS (Sistema Único de Saúde). O objetivo era identificar padrões que passam despercebidos em bases de dados extensas.

Os resultados mostram que grande parte dessas mulheres chega ao hospital com politraumatismo, quadro geralmente ligado a atropelamentos ou acidentes graves. No caso das vítimas de violência doméstica, porém, a origem é a agressão por armas brancas ou objetos cortantes.

"É um caso de violência que chega como se fosse um atropelamento, um politraumatismo. É absurdo", diz Maria Elisabete Salvador, professora do Departamento de Informática em Saúde da Escola Paulista de Medicina e uma das autoras do estudo.

É um caso de violência que chega como se fosse um atropelamento, um politraumatismo. É absurdo

Um algoritmo de aprendizado de máquina, chamado LDA, separou as internações em nove perfis clínicos recorrentes. O mais comum, com 17,2% dos casos, reúne mulheres jovens, de 20 a 29 anos, operadas às pressas por politraumatismos ou ferimentos no tórax causados por objeto cortante.

Outro perfil identificado reúne mulheres de 40 a 59 anos internadas após agressão por força corporal ou objeto contundente. Já o grupo mais grave, de 5,5% dos casos, envolve agressão por arma de fogo ou envenenamento, com necessidade de internação em UTI (Unidade de Terapia Intensiva) e alto risco de morte.

O algoritmo também revelou associações entre o tipo de lesão e a arma usada. A associação mais forte liga traumatismos no punho e na mão a agressões por objeto cortante, um padrão que a medicina legal associa a ferimentos de defesa, quando a vítima tenta se proteger do ataque.

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Prontuários médicos revelam mais detalhes das agressões Uma segunda pesquisa dos mesmos autores, ainda não publicada, aprofunda esse retrato a partir de prontuários eletrônicos de hospitais da rede SPDM (Associação Paulista para o Desenvolvimento da Medicina), mantenedora do Hospital São Paulo, da Unifesp. Os dados são preliminares.

Os pesquisadores usaram um modelo de inteligência artificial generativa, o Llama-3, para ler o texto livre escrito por médicos em 720 atendimentos a mulheres de 18 a 64 anos vítimas de violência, entre 2020 e março de 2026. A ideia foi captar detalhes que não aparecem em campos fechados dos sistemas hospitalares, como o instrumento usado no ataque e a parte do corpo atingida.

Em 60,2% dos textos analisados não havia nenhuma informação sobre o instrumento da agressão. Quando havia, o soco foi o mais citado, em 14,2% dos casos, seguido por chute, ferimento com faca ou objeto cortante e arma de fogo.

Rosto, cabeça e braço foram as regiões mais lesionadas. Agressões com arma de fogo aumentaram em quase oito vezes a chance de lesão no abdômen. Facas e objetos cortantes elevaram o risco de ferimentos na mesma região e no tórax. Golpes com garrafa ou vidro multiplicaram por seis a chance de lesão na mão.