Projeto foi idealizado pela AfroReggae, produtora que elevou o realismo do gênero ao dissecar as peculiaridades do combate ao crime no Rio

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VEJA acompanhou as gravações de “Delegacia de Homicídios”, a primeira série policial brasileira do Disney+, com estreia em 2027. Idealizada pela AfroReggae, a produção busca realismo ao integrar egressos do sistema prisional e autoridades policiais no set, explorando a complexidade do combate ao crime no Rio de Janeiro e o legado do cinema que retrata as favelas.

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Resumo gerado por ferramenta de IA treinada pela redação da Editora Abril.

Das janelas de suas casas, moradores do Morro do Cantagalo, na Zona Sul do Rio de Janeiro, testemunham um tiroteio brutal. A cena se tornou corriqueira — não se trata, contudo, da violência que assola comunidades cariocas e se repete nos noticiários criminais, mas, sim, da gravação de Delegacia de Homicídios, a primeira série policial brasileira do Disney+. Marcada para estrear em 2027, a superprodução promete altas doses de realismo. Para isso, transitam no set um curioso grupo de pessoas: durante um dia de filmagem, a reportagem de VEJA conheceu no local egressos do sistema prisional, talentos das periferias e autoridades policiais, como tenentes e investigadores. Para atingir a precisão do cotidiano policial carioca, a série foi além dos estereótipos, lançando um olhar de dentro para fora. “Contamos histórias através de quem deve contá-las, dos que vivem aqui”, disse o diretor Lucas Villamarim.

O feito está ligado ao trabalho da AfroReggae. Nascida em 1993 como uma ONG que promovia atividades socioculturais a jovens periféricos do Rio, hoje se tornou uma produtora com forte atuação na indústria do audiovisual, sendo responsável por títulos de sucesso como as séries A Divisão e Arcanjo Renegado, ambos no Globoplay. Nesses projetos seu idealizador, José Júnior, mantém o DNA do grupo voltado para a ressocialização. “Aquele papel que a ONU deveria ter de mediar conflitos e não faz, nós fazemos no Rio”, disse ele a VEJA. “Conseguimos criar uma convivência entre ex-detentos e policiais.” Essa política da boa vizinhança ajuda, ainda, no acesso às comunidades, onde as produções são rodadas. “Eu não faço acordo com chefes do crime. Eu comunico que vou gravar, e é isso”, garante Júnior.

O fascínio sobre a vida no morro é antigo. O Cinema Novo observou o cotidiano local de forma romantizada, entre os anos 1950 e 1960, antes do tráfico de drogas transformar as comunidades em cenários de guerra. Em 2002, Cidade de Deus, filme de Fernando Meirelles e Kátia Lund, virou o jogo estabelecendo o marco zero do que a crítica batizou de favela movie, expressão cunhada para definir as produções que têm as comunidades e periferias urbanas como cenário principal — e até como personagem. O longa indicado ao Oscar expôs a crueza sedutora do crime para jovens sem perspectivas, com estética visceral, ágil e pop, transformando a complexidade social da capital fluminense em força motriz de entretenimento — mas sem perder a pegada crítica. Boa parte do elenco de Cidade de Deus era composta de moradores da comunidade — revelando talentos ainda hoje em atividade, como Seu Jorge, Alexandre Rodrigues e Leandro Firmino.

Duas décadas depois, a televisão e as plataformas de streaming herdam esse legado, mas com uma camada extra de sofisticação e ambição. Delegacia de Homicídios, por exemplo, vai explorar o âmbito da investigação criminal em um ambiente no qual um delito se sobrepõe a outro. Em uma sequência de ação, o policial Patrício, papel de Marcello Melo Jr., busca uma testemunha vivida por Juliane Araújo para depor. A missão é afetada por um confronto com bandidos fortemente armados no meio do caminho. A série marca a boa parceria de Melo Jr. com a AfroReggae — ele também protagoniza Arcanjo Renegado, que chega a sua quinta temporada neste ano, na pele de um agente do Bope que se revolta contra a corrupção dentro das instituições policiais e de suas conexões com milicianos. “O Patrício de Delegacia é mais solar, enquanto o Mikhael de Arcanjo é mais traumatizado pelo que viveu”, disse ele, distinguindo os dois mocinhos.

Agora, o ator divide o protagonismo com Vanessa Giacomo, que interpreta a investigadora Marina. “Ele vem da Polícia Militar, do confronto, já a Marina é o oposto, protocolar. Vira uma briga de gato e rato entre eles”, explica a atriz sobre a dinâmica do duo, um dos temperos do roteiro. Também no elenco está Marcelo Serrado, como o chefe dos agentes. “Entramos na comunidade e precisamos respeitar quem está aqui”, disse sobre a experiência. Ao ganhar entretenimento de qualidade, o público terá também a chance de abrir os olhos para a realidade de pessoas comuns, seus desejos e possibilidades longe de filmes estereotipados. “Ao nos aproximarmos da realidade, espero criar um novo entendimento sobre o morro”, diz Villamarim. O resultado é uma indústria fervilhante de ideias e talentos, pronta para dissecar a vida como ela é.

Publicado em VEJA de 11 de setembro de 2026, edição nº 3012