Ao contrário de 2023, quando iniciou seu terceiro mandato, Lula tem pela frente uma vizinhança dominada pela direita
Domínio da direitaVitória de Lula mantém isolamento político do Brasil na América Latina; veja mapaPor Fábio Galão
Dê de presentePrefira a Gazeta no GoogleAo contrário de 2023, quando iniciou seu terceiro mandato, petista tem pela frente uma vizinhança dominada pela direita (Foto: André Borges/EFE)Ouça este conteúdo
Ao ser reeleito neste domingo (25), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) mantém o Brasil preso a um impasse na política externa: está cada vez mais isolado na América Latina e no Caribe.
No início de 2023, quando Lula assumiu seu terceiro mandato, a América do Sul tinha oito mandatários de esquerda (na Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Colômbia, Guiana, Suriname e Venezuela) e apenas quatro de direita (Equador, Paraguai, Peru e Uruguai).
Hoje, o jogo político foi revertido: o subcontinente está dividido entre sete governos de direita (Argentina, Paraguai, Equador, Bolívia, Chile, Colômbia e Peru) e cinco de esquerda (Brasil, Venezuela, Guiana, Suriname e Uruguai).
Nas Américas Central e do Norte e no Caribe, apesar de focos de resistência da esquerda, como as ditaduras de Cuba e Nicarágua e o governo do México, da presidente Claudia Sheinbaum, a gestão do presidente americano, Donald Trump, também tem aliados estratégicos de direita, como José Raúl Mulino (Panamá), Nayib Bukele (El Salvador) e Nasry Asfura (Honduras).
Além desse predomínio da direita, Venezuela e Guiana, dois países das Américas liderados pela esquerda, hoje estão mais próximas de Trump do que de Lula.
A ditadora interina da Venezuela, Delcy Rodríguez, atende a todas as demandas do republicano e sua gestão desde a captura de Nicolás Maduro vem sendo descrita como uma “tutelagem” do secretário de Estado americano, Marco Rubio.
Apesar de ter um presidente de esquerda (Irfaan Ali), a Guiana aderiu ao Escudo das Américas, um plano de segurança de Trump amplamente endossado pela direita do continente e ao qual Lula se opõe, e abriu suas reservas de petróleo e gás para exploração de empresas americanas, o que tem feito o país ostentar algumas das maiores taxas de crescimento econômico do mundo nos últimos anos.
Em entrevista à Gazeta do Povo, Ricardo Caichiolo, doutor em ciências políticas e sociais e diretor do Ibmec Brasília, disse não acreditar que o petista buscará mudanças na relação com países vizinhos governados pela direita.
Bannon chama reeleição de Lula de “roubo” e pede para Trump cortar relações e comércio com BrasilUcrânia parabeniza Lula e diz esperar mais cooperaçãoDitaduras aliadas do PT parabenizam Lula pela reeleição“Com Lula permanecendo na presidência, não há perspectiva de alteração de sua política externa nas relações com tais governos de direita, que deverá se pautar no pragmatismo dessas relações, com foco nas relações comerciais”, projetou.
João Alfredo Lopes Nyegray, professor dos cursos de negócios internacionais e relações internacionais da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), afirmou que questões como Cuba, cada vez mais pressionada economicamente pela gestão Trump (que também ameaça uma intervenção militar na ilha), seguirão sendo “um ponto de tensão estratégica entre Brasília e Washington”.
“O governo atual se opõe publicamente a uma intervenção militar unilateral, posição reiterada pelo chanceler Mauro Vieira. O Brasil fala de apoiar o governo cubano em tudo. Contudo, para além da retórica, o Brasil não vai fazer mais”, disse Nyegray.
Já Allan Gallo, professor de direito e economia da Universidade Presbiteriana Mackenzie e pesquisador do Centro Mackenzie de Liberdade Econômica (MackLiber) e do Núcleo de Estudos sobre China (NECH), projetou a continuidade das hostilidades entre Lula e o presidente argentino, Javier Milei, seu principal desafeto na vizinhança.
“A vitória governista mantém o atrito, mas a aritmética pesa mais que a afinidade porque Brasil e Argentina concentram cerca de 90% do PIB do bloco. O Mercosul continua dependendo dos dois, mesmo quando seus presidentes preferem fingir que não”, disse Gallo.
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