Hoje em dia é pouco provável que a desafortunada expressão "crime passional" faça parte de uma reportagem sobre feminicídio, mas outros cacoetes daninhos -que refletem falta de formação e reflexão sobre o assunto- continuam a habitar as manchetes quando uma mulher é assassinada pelo fato de ser mulher. Leia mais (06/25/2026 - 16h16)
Jornalista especializada em diversidade, escreve sobre quem vive às margens nada plácidas do Ipiranga, da América Latina e de outras paragens
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25.jun.2026 às 16h16
Hoje em dia é pouco provável que a desafortunada expressão "crime passional" faça parte de uma reportagem sobre feminicídio, mas outros cacoetes daninhos —que refletem falta de formação e reflexão sobre o assunto— continuam a habitar as manchetes quando uma mulher é assassinada pelo fato de ser mulher.
O uso da voz passiva —que apaga a ação do agressor—, a escolha de fotos sensuais para mostrar as vítimas, a falta de contextualização social e étnico-racial das mulheres e a menor relevância dada ao assassino —mesmo quando já oficialmente identificado— são alguns dos elementos frequentes em relatos sobre esses crimes e terminam esvaziando a brutalidade das mortes.
Isso é o que indicam, com clareza e riqueza de exemplos, as jornalistas Niara de Oliveira e Vanessa Rodrigues em "Voz Ativa: O Manual do Jornalismo Antifeminicídio" (Drops Editora), guia prático com o objetivo de ajudar a eliminar (maus) hábitos do jornalismo nosso apressado de cada dia —que no final culpabilizam a vítima e naturalizam a violência.
O manual surge como um desdobramento, para consulta rápida, da pesquisa das autoras para o livro "Histórias de Morte Matada Contadas Feito Morte Morrida", publicado em 2021.
"Quando a imprensa trata um feminicídio como se fosse uma fatalidade, está contando morte matada feito morte morrida, e é exatamente esse apagamento que o livro investiga", afirmam as autoras. "Quando você passa anos mapeando como a imprensa brasileira cobre feminicídios e identificando padrões que se repetem há décadas, chega um momento em que apontar o problema não é mais suficiente. Precisávamos oferecer uma ferramenta de correção."
A realidade do jornalismo, permeado pela multitarefa e por prazos exíguos para a entrega de reportagens, não foi ignorado para a construção das propostas, com o objetivo de "tornar a boa prática mais fácil que a má":
"Não se trata de má-fé individual, trata-se de um olhar que foi construído e normalizado ao longo de décadas e que precisa ser desconstruído com a mesma consciência", pontuam Oliveira e Rodrigues. "Se o jornalista tem à mão uma ferramenta que mostra, em segundos, como reescrever um título sem perder agilidade e sem incorrer em risco jurídico, a barreira cai. Não estamos pedindo que o jornalismo pare o mundo para se transformar. Estamos oferecendo atalhos para que ele seja melhor dentro da velocidade que já tem."
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As autoras desenvolvem outros formatos para o guia —como workshops e conteúdos digitais— para que as recomendações, e sua prática, avancem em outros âmbitos para além das redações e dos criadores de conteúdo, como universidades e entre o público consumidor de notícias.
"A voz passiva apaga o agressor, o recorte racial importa", afirmam. "O que acontece é que esse saber cede diante de uma pressão estrutural muito concreta: o tempo, o clique, o algoritmo, a precarização da profissão."


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