Pleito de meio de mandato em novembro é tiro de largada para debates sobre eleições de 2028

Donald Trump ainda tem mais de dois anos de mandato pela frente, mas a política em Washington já começa a se organizar em torno do que virá depois dele. As eleições de meio de mandato de 3 de novembro, que definem o controle do Congresso dos EUA, dão a largada para essa disputa. Candidatos republicanos em corridas apertadas fazem campanha à distância do presidente, enquanto democratas já preparam a agenda de um governo posterior a ele e testam plataformas para 2028. Conversas nos bastidores já enfatizam temas como a disputa entre JD Vance e Marco Rubio nas primárias republicanas e os nomes mais cotados do lado democrata.

De fato, o que Vance ou Rubio herdariam é incerto. John Lawrence, historiador e ex-assessor da democrata Nancy Pelosi, disse ao Washington Post duvidar que o modo de Trump exercer o poder funcionaria sem a personalidade do próprio presidente. Por isso, não vê nenhum dos dois chegando à Casa Branca e agindo com a mesma desenvoltura, ainda que um sucessor republicano possa tentar.

Além disso, qualquer um dos dois teria que buscar apoio entre novos grupos de eleitores – afinal, há numerosos sinais de que a coalizão eleitoral que Trump construiu nas eleições presidenciais de 2024 está se desfazendo, e os republicanos que disputam cadeiras no Congresso no mês que vem já agem de acordo. Os candidatos do partido ao Senado em Iowa e Michigan pediram o fim da guerra contra o Irã, que encareceu o combustível nos EUA – um claro sinal de que o apoio incondicional às políticas de Trump já produz um risco eleitoral maior para candidatos do Partido Republicano do que uma retaliação da Casa Branca. Uma deputada republicana da Flórida, até então leal a Trump, levou ao ar um anúncio de campanha em que diz ao presidente que sua política de imigração foi longe demais e que seus apoiadores latinos se sentem “traídos” – símbolo de que parte do eleitorado latino, fundamental para eleger Trump em 2024, hoje vê o presidente de forma crítica.

A vantagem do Partido Democrata, porém, é menor do que a impopularidade do presidente sugere. Pelas contas da revista britânica The Economist, que analisou 58 mil respostas a pesquisas do instituto YouGov, os democratas lideram a disputa pelo Congresso por cerca de oito pontos, embora a desaprovação a Trump supere a aprovação em 19 pontos entre eleitores registrados. A razão? Nem todos os eleitores de Trump insatisfeitos mudam de lado. Entre os que reprovam o governo, um terço ainda votaria em republicanos e 28% tendem a não votar. Isso explica, em parte, por que o controle do Senado segue indefinido.

Mesmo assim, do lado democrata, o trabalho é feito como se o pós-Trump já tivesse começado. Naftali Bendavid, do Washington Post, relata que assessores jurídicos já discutem como, com os Democratas em controle da Câmara dos Deputados, se pode proteger o Departamento de Justiça da influência da Casa Branca. Deputados do partido já redigem projetos para limitar o poder presidencial de declarar emergências, instrumento que Trump acionou cerca de uma dúzia de vezes para justificar tarifas e deportações e outras medidas controversas.

As expectativas, tanto à direita quanto à esquerda, de que Trump dificilmente conseguirá recuperar sua popularidade também impactam a influência dos EUA no mundo. Em abril do ano passado, bastou o presidente erguer um cartaz de tarifas na Casa Branca para derrubar bolsas no planeta inteiro e fazer dezenas de governos correrem para negociar. Em julho deste ano, quando ele impôs novas taxas de importação, os mercados mal reagiram. No intervalo, um país após o outro aprendeu que resistir custa menos do que parecia. A China respondeu às tarifas restringindo a exportação de terras raras, minerais essenciais para eletrônicos e carros modernos, e obrigou Washington a recuar. O Brasil ignorou a tarifa de 50% com que Trump tentou pressionar o Brasil a interromper o julgamento de Jair Bolsonaro, e o ex-presidente foi condenado mesmo assim. O Irã mantém desde o fim de fevereiro fortes restrições à navegação pelo Estreito de Ormuz. Quando Trump ameaçou, na Assembleia-Geral da ONU, destruir a República Islâmica, a plateia de diplomatas mal reagiu, como registrou Jackie Calmes, colunista do jornal Los Angeles Times.

Um Trump mais fraco, porém, dificilmente será mais previsível. A revista britânica The Economist o compara a um gorila de dorso prateado envelhecido, que evita confrontos com líderes de outros bandos mas se volta com violência crescente contra quem está ao seu alcance. Ao alcance estão os aliados que, na visão dele, o abandonaram e partes da América Latina, onde Washington ainda tenta impor sua vontade pela força: foi aqui que tropas dos EUA capturaram o venezuelano Nicolás Maduro em janeiro. Com cada vez menos força para peitar potências do porte da China ou da Rússia, aumentará o incentivo para pressionar ou tentar derrubar regimes em Cuba e Nicarágua.

Pesquisador Sênior do Carnegie Endowment em Washington DC e professor de Relações Internacionais da FGV-SP. Escreve quinzenalmente.

Os comentários são exclusivos para cadastrados.