Presidente ucraniano acusa governo dos EUA de enfraquecer o apoio a Kiev com restrições ao compartilhamento de inteligência e ao acesso à internet via satélite

A Ucrânia retomará os ataques às refinarias de petróleo da Rússia, afirmou o presidente Volodymyr Zelensky ao jornal britânico Financial Times (FT), em uma entrevista na qual criticou o que descreveu como uma retirada “perigosa” do compartilhamento de inteligência dos Estados Unidos e as restrições ao serviço de internet via satélite Starlink.

“O bloqueio [aos ataques às refinarias] acabou. Terminamos”, disse Zelensky ao FT.

As declarações expõem a crescente frustração do presidente ucraniano com o presidente americano Donald Trump e aprofundam a já conturbada relação entre os dois líderes.

Na semana passada, Trump anunciou um acordo controverso para comprar diesel russo e pressionou a Ucrânia a interromper os ataques às refinarias de petróleo da Rússia. A iniciativa ocorre enquanto o presidente americano tenta reduzir os custos de energia antes das Eleições de Meio de Mandato nos Estados Unidos.

Na quarta-feira (14), a Ucrânia também afirmou que restrições a serviços militares de internet via satélite Starlink prejudicaram operações essenciais, aumentando a preocupação em Kiev e entre aliados europeus.

Segundo o FT, Zelensky criticou a disposição de Trump de fechar acordos comerciais com Moscou e o que considera uma admiração do presidente americano por Vladimir Putin, presidente da Rússia.

O líder ucraniano afirmou ainda que autoridades militares do país foram informadas por representantes americanos de que, se não interrompessem os ataques à infraestrutura energética russa, os Estados Unidos bloqueariam o compartilhamento de informações de inteligência.

O anúncio de que os ataques às refinarias russas serão retomados ocorreu após outra entrevista em que Zelensky expressou indignação com o acordo de combustível entre Washington e Moscou.

Questionado pelo apresentador britânico Piers Morgan se havia sido “traído” pelo governo Trump, o presidente ucraniano respondeu que sim. Ele classificou o acordo como uma “vitória simples” para o Kremlin.

“É uma pena que estejamos perdendo um parceiro forte”, disse Zelensky na quarta-feira, durante o programa de entrevistas Piers Morgan Uncensored, publicado no YouTube.

Na semana passada, Trump afirmou nas redes sociais que Putin havia concordado em abastecer os mercados com diesel russo enquanto o governo americano trabalha para reduzir os custos de energia. A iniciativa provocou críticas de integrantes dos dois principais partidos dos Estados Unidos e indignação entre aliados europeus.

Na segunda-feira (12), forças russas lançaram novos ataques contra a Ucrânia poucas horas depois de Trump declarar que um “cessar-fogo energético” havia entrado em vigor. Nem Moscou nem Kiev haviam confirmado publicamente a existência de uma trégua nesses termos.

Em um trecho da entrevista com Morgan publicado na rede social X, Zelensky criticou a postura do presidente americano diante da guerra.

“Este é o nosso país, o nosso corpo, o nosso lar, os nossos filhos… É por isso que dói quando Trump escolhe um lado”, afirmou.

“Se você está no meio, tem que ficar no meio. Não do lado errado. Este não é o lado certo da história”, acrescentou.

“A Rússia quer que ele [Trump] seja fraco. Eles não se importam com as eleições nos Estados Unidos”, disse o presidente ucraniano.

Nas últimas semanas, forças russas e ucranianas intensificaram os ataques aéreos contra a infraestrutura energética uma da outra, enquanto as mudanças no campo de batalha permanecem relativamente limitadas.

O governo Trump havia alertado a Ucrânia e seus aliados europeus de que os Estados Unidos poderiam suspender o compartilhamento de inteligência e as compras europeias de armas americanas destinadas a Kiev caso os ataques ucranianos de longo alcance contra instalações energéticas russas não fossem interrompidos.

As informações fornecidas pelos americanos são consideradas fundamentais para a defesa ucraniana contra ataques russos com mísseis balísticos. Os dados incluem a localização de lançadores de mísseis e informações sobre os locais e horários previstos para as ofensivas.

Nos dias seguintes, integrantes do governo Trump, incluindo o próprio presidente, afirmaram que o compartilhamento de inteligência continuava. Ainda assim, a ausência de alertas sobre ataques com mísseis levantou questionamentos em Kiev.