No primeiro turno da eleição presidencial colombiana, em 31 de maio, houve surpresa na Colômbia pela liderança do candidato da extrema direita, o advogado penalista Abelardo De la Espriella, que ficou em primeiro lugar com 43,7% dos votos, superando o

No primeiro turno da eleição presidencial colombiana, em 31 de maio, houve surpresa na Colômbia pela liderança do candidato da extrema direita, o advogado penalista Abelardo De la Espriella, que ficou em primeiro lugar com 43,7% dos votos, superando o esquerdista Iván Cepeda, que obteve 40,90%.

A única empresa de pesquisas que antecipou a vantagem do outsider colombiano foi a AtlasIntel, cujo CEO, Andrei Roman, disse em entrevista ao UOL que "o momento da Colômbia é muito parecido com o do Brasil de 2018". Na avaliação de Roman, De la Espriella "soube aproveitar o desencantamento da população com o governo de Gustavo Petro".

Veja entrevista a seguir.

UOL: Como o senhor explica o fenômeno de Abelardo De la Espriella?

ANDREI ROMAN: Me parece que Abelardo trabalhou nessa campanha um fenômeno de viralização da figura dele, muito semelhante ao que aconteceu com Jair Bolsonaro em 2018. Para quem, de fora ou dentro do Brasil, quer entender o momento da Colômbia, me parece um momento muito semelhante ao de 2018 no Brasil. Existe um desgaste bastante significativo do governo Petro por conta de escândalos de corrupção e da crise na segurança pública. O projeto Paz Total não deu certo no país. Existem áreas que continuam sendo dominadas pelas guerrilhas, e a situação parece ter piorado ao longo deste mandato.

Na gestão pública, há a percepção de colapso do sistema de saúde. Isso faz com que, mesmo que Petro consiga manter uma base bastante mobilizada com a polarização, a partir de um discurso radical e da solidificação da base de esquerda entre os mais jovens, exista ao mesmo tempo uma grande revolta dentro de segmentos mais conservadores da sociedade, que enxergam uma oportunidade perdida do país em termos de consolidar o legado de governos de direita anteriores, especialmente os governos de Álvaro Uribe (2002-2010), que conseguiram trazer mais estabilidade e, principalmente, controle sobre o território nacional, combatendo o domínio de grupos criminais, narcotraficantes e guerrilhas.

Abelardo soube aproveitar bem esse desencantamento da população. Ele radicalizou num momento em que a direita ainda não tinha candidato e, basicamente, surfou sozinho nessa onda de revolta contra o governo Petro. A escolha da Paloma Valencia como candidata do Centro Democrático, apoiada por Álvaro Uribe, acabou também ajudando Abelardo, porque ele teve uma postura muito mais firme e muito mais radical no combate às políticas do governo atual.

O senhor considera Petro de extrema esquerda?

Não gosto de falar em extrema esquerda e extrema direita, porque, do meu ponto de vista, sendo analista de pesquisa, preciso ter uma postura não apenas imparcial, mas fria em relação ao fenômeno político. O que pode ser extremo para um é muito natural para outro. Para os eleitores de Petro, nada da agenda dele é extremo; é apenas razoável. Igualmente para os eleitores de Abelardo.

O que eu às vezes faço para caracterizar esses movimentos, até para diferenciar melhor de outros candidatos ou partidos dentro do mesmo segmento, é usar termos como direita radical, mas isso é bastante diferente de extrema direita. Eu diria que, para quem usa um termo como extrema direita, é justo cogitar a possibilidade de caracterizar o governo Petro como extrema esquerda. Não é uma caracterização que eu faça, mas, em termos de postura, discurso, uso de uma retórica muito agressiva e, às vezes, de desrespeito às instituições e às leis, há posturas radicais do presidente Petro que, para quem caracteriza Abelardo de La Espriella como extrema direita, deveriam no mínimo levar à possibilidade de uma caracterização semelhante do outro lado. Eu nunca faço esse tipo de caracterização; prefiro não usar esses termos.

Abelardo também tem um discurso de ódio forte, fala que vai esmagar a esquerda. Se ele vencer, a Colômbia corre o risco, tendo esses dois movimentos tão exacerbados e radicalizados, de entrar num período de ainda mais violência e discurso de ódio, intolerância?

Minha impressão é que a Colômbia passa pelo mesmo processo de polarização que afeta todas as grandes democracias no mundo. Não é diferente do que está acontecendo com a Argentina, o Brasil, o Chile, os Estados Unidos, a França, a Itália. Todas as grandes democracias estão passando por ondas de radicalização, de um lado e do outro.

Em comparação com esses outros países, eu diria que a Colômbia, de fato, tem um segmento centrista mais forte. Tem lideranças de centro-direita e de centro-esquerda mais populares, com partidos de centro mais programáticos e com raízes mais fortes na sociedade. Minha impressão é que a sociedade colombiana talvez entre nesse processo de radicalização a partir de uma posição em que o centro está mais enraizado, em termos de estrutura política, partidos e preferências pré-existentes dos eleitores, do que em países vizinhos. Isso talvez ajude a controlar melhor esses ânimos.

Também penso que, se Petro for derrotado, de certa forma será uma comprovação de que a radicalização do discurso e a adoção de uma linha demasiadamente dogmática trouxeram um custo político relevante, e talvez a direita faria bem em não repetir isso se se importa com a continuidade do projeto.

Quais são os principais focos de apoio de De la Espriella na sociedade? Na Argentina, se falou muito que Milei tem o apoio dos jovens e, principalmente, dos homens. Como funcionou isso na Colômbia?

De forma oposta. Abelardo não tem o apoio dos jovens e está, de fato, mais apoiado no segmento feminino do que no masculino. Existe uma projeção de masculinidade dentro da América Latina que muitas vezes é criticada como machismo e misoginia, mas nem todo mundo concorda com essa caracterização.

Em certo momento da campanha, houve uma entrevista em que Abelardo chamou uma jornalista de despreparada, e isso viralizou. O teste que fizemos mostrou que as pessoas de direita adoraram o discurso dele. Numa escala de zero a cem, o público de direita ficou acima de 90 no fim da avaliação. Entre as mulheres, a percepção foi levemente mais positiva que entre os homens. Isso indica que a tese de misoginia, machismo e autoritarismo vendida pelos adversários não vingou nem no público de direita nem sequer entre as mulheres.

Algumas pessoas podem considerar agressão e machismo quando ele chama a jornalista de despreparada, mas outras concluem que ele as convenceu, porque a pergunta dela não tratou o tema de forma profissional. Ele cita até uma revisão da posição da França sobre o aborto e faz uma discussão bastante profunda sobre ética e lei. Quando o candidato faz esse tipo de explicação e depois diz que a jornalista não entende o tema porque não estudou, algumas pessoas veem agressão; outras, convencimento.

O resultado do teste foi muito revelador, porque mostra que o discurso de Abelardo de que está sendo injustiçado e atacado pela mídia reverberou bastante. Isso criou entre grandes segmentos do eleitorado um exército de defensores nas redes sociais, reforçando a viralização da figura dele, justamente o contrário do que a entrevista queria demonstrar.

Qual é a sua expectativa para o domingo? As pesquisas apontam uma vitória do Abelardo, mas há um movimento de intelectuais e ex-presidentes tentando apoiar Cepeda nessa reta final. Tem alguma possibilidade de Cepeda reverter o favoritismo de Abelardo?