Entre crises demográficas, colapsos ambientais e dilemas morais, Thanos surge como um espelho das grandes inquietações do nosso tempo: a obsessão pelo equil...

Ainda aglomerando opiniões mistas, os consensos científicos consideram que a espécie humana como a conhecemos existe há cerca de 200 mil anos. Até hoje, tendo manipulado os recursos naturais conforme entendeu, a Humanidade passou por todo o tipo de fenómenos que alteraram substancialmente a sua demografia.

A Peste Negra foi a mais mortal pandemia desde que há registo. A bactéria Yersina pestis disseminou-se pela Eurásia e pelo Norte de África, entre 1347 e 1353, e estima-se que terá ceifado mais de 50 milhões de pessoas. Historiadores apontam que, pelo menos, metade da população europeia da altura terá morrido. As consequências devastadoras em civilizações, ao microscópio atual, arcaicas em todos os níveis – saneamento, alimentação, higiene, medicina, tecnologia – apenas se tornaram comparáveis no início do Século XX. Num curtíssimo espaço de tempo, morreram na Primeira Guerra Mundial (1914–1918) cerca de 22 milhões de soldados e civis e, logo de seguida, a Gripe Espanhola (1918–1920) infetou cerca de um terço da população mundial, resultando em até 50 milhões de óbitos.

Nunca na História se tinha verificado uma avalanche tão repentina e volumosa de morte, até se chegar àquele que se mantém o fenómeno mais mortal de sempre: a Segunda Guerra Mundial (1939–1945). Por via de guerrilha, fome, doença e genocídios, o número de mortes alcançou os 80 milhões.

Os Anos 20 do Século XXI assistiram, como se sabe, à disseminação internacional do vírus SARS-CoV-2 e à pandemia de Covid-19. Com primeiras infeções em Janeiro de 2020, declarada “emergência sanitária global” em Março, pela Organização Mundial de Saúde, e declarada terminada em Maio de 2023, os números de doentes e mortos costumam ser nivelados por baixo, uma vez que muitas pessoas nunca foram testadas ou tiveram infeções assintomáticas. De qualquer modo, os números oficiais apontam para mais de 700 milhões de infeções e 7 milhões de mortos. Alguns estudiosos creem que, até 2024, mais de metade da população mundial terá ficado infetada, pelo menos, uma vez, enquanto o número real de mortos possa ter superado os 30 milhões.

Sempre foram várias as crises, à escala continental ou mundial, que levaram a drásticas reduções de população. Apesar de todas as catástrofes naturais, crises sanitárias e conflitos bélicos, o Tempo nunca impediu que a Humanidade recuperasse destas baixas, pois tão eficaz quanto as chacinas a que o ser humano se sujeita é a sua capacidade de evoluir.

Segundo dados das Nações Unidas, dispostos em tempo real na Worldometers, atingiu-se a marca de 1 bilião de seres humanos, pela primeira vez, em 1804. Em 1927, de 2 biliões. Em 1974, de 4 biliões. Atualmente, e desde 2022, já são mais de 8 biliões de cabeças que partilham oxigénio, água, comida, casa, doenças, alterações climáticas e guerras. Até ao final do Século XXI, augura-se a marca dos 11 biliões.

Sem esquecer os números assustadores de mortes do Século XX, pode-se considerar o brutal crescimento demográfico que se seguiu uma prova das virtudes a longo prazo da Segunda Revolução Industrial (1870–1918), da produção em massa e das sucessivas reconstruções da Europa.

Por conseguinte, além de aquecimento global, crises de migrantes e refugiados, regimes autoritários que persistem, deflorestação, ameaças nucleares e prateleiras de supermercados esvaziadas pelo mínimo alarme social, um fenómeno parece preocupar particularmente os cientistas e ativistas: o Earth Overshoot Day.

O Earth Overshoot Day – o “Dia da Sobrecarga da Terra” – é a data estabelecida anualmente para denunciar quando o ser humano atinge o limite de recursos naturais que o planeta consegue regenerar durante um ano. A partir desse dia, a Humanidade passa a viver em “défice ecológico”. Estabelecido pelo economista e ativista ambiental britânico Andrew Simms, o Dia é comunicado todos os anos pela Global Footprint Network. A primeira vez que o Planeta entrou em défice ecológico foi no dia 25 de Dezembro de 1971.

Escusado será dizer que, devido à gananciosa exploração da Natureza, o Dia se tem verificado cada vez mais precoce. Ligeiramente desacelerado por quarentenas e confinamentos dos últimos anos pandémicos, temos entrado em défice ecológico cada vez mais cedo. Em 2025, aconteceu no dia 24 de Julho.

Após a consulta regular destes dados, é fácil apontar a sobrepopulação como uma das principais causas de um Planeta Terra saturado, cair em alarme diante de políticos e governos infrutíferos ou irresponsáveis, ceder ao pessimismo. Felizmente, nem todos cedem.

No documentário “Dont’ Panic: The Truth About Population” (2013), o sueco Hans Rosling descreveu a evolução demográfica desde o Início. O investigador explica, com o mais acessível dos cálculos, que, graças à estagnação do número de habitantes com idade igual ou inferior a 15 anos, ao aumento da esperança média de vida, à educação sexual nos países subdesenvolvidos, entre outros, a sobrepopulação vai abrandar progressivamente.

Um assumido possibilista, ao invés de um otimista, Hans mantinha réstias de esperança num futuro risonho, fé na capacidade do ser humano de se reinventar, superar barreiras ideológicas que, com tanta frequência, são erguidas e reerguidas para criar divisão. “O problema não é a falta de conhecimento, mas, sim, o excesso de ideias pré-concebidas”, afirma com o sentido de humor com que contagia a plateia.

Estivesse ainda vivo – faleceu em 2017 –, é provável que este fosse obrigado a rever o seu estado de espírito. Ao testemunhar a reimersão de extremismos nas democracias mais influentes do Mundo e às incontroláveis ondas de desinformação, torna-se bastante difícil concordar com Hans, quando diz que “já não vivemos num mundo dividido”. Talvez hoje dormisse menos descansado.

Sobra a pergunta: como alertar e sensibilizar para o que importa? Quando líderes partidários, redes sociais e grupos económicos parecem mais interessados em adensar as massivas divisões sociais e políticas, existe um défice de ferramentas que dialoguem com o coletivo, de maneira produtiva, agregadora e estimulante. Neste aspeto, a literatura, a cultura e as artes, como geralmente acontece – quão maior a inquietação social, mais inspirados os movimentos artísticos –, dedicam-se a promover o debate. Entre elas, o cinema.

Seja por um sentimento de urgência dos autores, seja pela necessidade dos estúdios de se manterem relevantes numa época de rápido consumo, as grandes produções de Hollywood têm pulverizado as suas histórias e personagens com as ideias e reflexões do nosso tempo. Desta forma, a linguagem mainstream deixa de estar limitada ao entretenimento sazonal e bacoco, para suscitar o diálogo, o pensamento crítico e, no melhor dos cenários, a comunhão de ideias antagónicas, ao invés da sua polarização.

Nenhum género tem sido mais popular no Século XXI do que os filmes de super-heróis e, desde 2008, nenhuma fórmula se provou tão lucrativa quanto a do Universo Cinematográfico da Marvel. Não obstante um grande decréscimo de qualidade nos últimos anos e uma fatiga do público, que tem optado por abordagens mais originais, menos infantilizadas, não há dúvida de que os filmes do Homem de Ferro, do Capitão América, do Thor, e de tantos outros, se tornaram tremendamente apreciados não só graças a sequências de ação e efeitos visuais de ponta, mas sobretudo ao carisma dos elencos e ao seu miolo emocional.

Herança inegável da Trilogia do Homem-Aranha (2002–2007), realizada por Sam Raimi, o Universo Cinematográfico da Marvel abraçou a velha máxima – “Com grande poder, vem grande responsabilidade” – e soube comunicar tanto aos fãs de banda desenhada como ao público generalizado. Os temas são transversais: o amadurecimento pessoal, a responsabilidade e a relação entre pais e filhos.

O legado familiar e a redenção de Tony Stark; a liderança de Steve Rogers contra o fascismo da II Guerra Mundial; os dilemas shakespearianos de Thor, Loki e Odin; a união dos desajeitados Guardiões da Galáxia e a revolta de Peter Quill contra o pai; o acolhimento de Scott Lang por parte de um amargurado Hank Pym; a imperfeição de T’Challa e os esqueletos no armário do Reino de Wakanda; os ensinamentos de Tony Stark a um inocente Peter Parker.

A Marvel jamais prescindiu de contar esta história, tão intemporal, tão cara a tanta gente: a relação que o indivíduo cultiva com outrem ou consigo próprio deriva, inevitavelmente, da relação com os pais, ou da falta dela, e o crescimento deste advém de reconhecer isso mesmo.