A tomada de assalto das chamadas big techs sobre o mercado musical planetário é uma caixa de Pandora de números estarrecedores, como expõe em larga escala o novo livro A Grande Trapaça Digital – Como as Big Techs Destruíram a Música, Enganaram o Público e Seq…
A tomada de assalto das chamadas big techs sobre o mercado musical planetário é uma caixa de Pandora de números estarrecedores, como expõe em larga escala o novo livro A Grande Trapaça Digital – Como as Big Techs Destruíram a Música, Enganaram o Público e Sequestraram a Nossa Alma Sonora, do jornalista Luiz Cesar Pimentel. Na sua leitura descobre-se, por exemplo, que nos últimos dois anos cerca de 60% das canções que encabeçaram as paradas das plataformas de streaming foram produzidas ou co-escritas pelos mesmos 15 profissionais de elite da indústria musical. Que a produção independente, fora das antigas gravadoras transnacionais, constitui 37,3% do valor global de mercado em termos de volume de faixas, mas captura apenas 20% do faturamento. Que, das cerca de 120 mil faixas inseridas diariamente nas grandes plataformas musicais, em torno de 30% não têm origem humana (mas os royalties correspondentes seguem escoando para bolsos humanos desconhecidos, ou não tanto).
Sob escrita elegante e engenhosa, o livro de Pimentel estende a provocação à concretude: dividido em duas partes, imita a estética de uma antiga fita cassete, com lado A e lado B. Virado de ponta-cabeça, A Grande Trapaça Digital se transforma em A Fissura Musical – Por Que Amamos o Que Amamos, Odiamos o Que Abominamos e as Respostas Sonoras Que Nunca Te Deram, uma parte mais impressionista e menos interessante do trabalho de fôlego erguido pelo jornalista, que é também mestre em ciências sociais com especializações em inteligência artificial e big data.
Na outra ponta estão as antigas multinacionais do disco, desossadas pela pirataria e pela desmaterialização da música e hoje reduzidas a apenas três grandes gravadoras (Universal, Sony e Warner). Sob jugo das big techs transnacionais, elas entregaram o ouro ao bandido ao se tornarem sócias ocultas do Spotify, fornecendo, fundamentalmente, a matéria-prima acumulada em décadas de construção de catálogo, correspondente a aproximadamente 70% do mercado fonográfico mundial.
Tomando por alicerce um conjunto irrefutável de dados sombrios, Pimentel opta por uma leitura predominamente negativa da realidade. Constrói um cenário pré-apocalíptico que é abertamente tributário ensaio A Obra de Arte na Era de Sua Reprodutibilidade Técnica (1935), do filósofo alemão Walter Benjamin, que examinava o tratororamento da indústria cultural sobre o fazer artístico artesanal (e idílico).
O jornalismo (musical nesse caso, mas qualquer jornalismo) entra na dança, ainda bem, quando o autor aponta que “é neste palco de ruído ininterrupto que a figura do crítico (…) encontra sua sentença de morte definitiva”. Certo, mas há evidências abundantes de que os críticos cavamos nossas próprias covas bem antes do advento de influenciadores digitais e outras inteligências artificiais. Talvez os boatos sobre a morte definitiva dos críticos sejam exagerados, como saber? Assassinados (como diz o autor) ou suicidas, os fantasmas ainda coabitam o presente entre bots e androides.
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