É este rasto indecoroso de crimes, corrupção, atentados ao Estado de Direito democrático, danificação das instituições, incompetências, obscenidades e ...

Poucos minutos depois de receber a notícia da catastrófica colisão de dois comboios de alta velocidade, Óscar Puente, o Ministro do PSOE para os transportes, preparava mais um dos seus infames tweets. A prioridade sobre o terrível acidente, e ainda mais terríveis consequências humanas, vinha sob a forma habitual: a hostilidade e o ódio permanente aos adversários políticos. Desta vez era ainda a respeito da vitória de Lula no Brasil. A extraordinária prosa de Puente dizia apenas isto: “A superioridade moral da esquerda”. Um tweet que resume, no tempo e no conteúdo, todo o cadastro de um político e todo um rasto de um governo.

Já nem vou perder tempo com a mediocridade política de um dirigente nacional, pertencente ao núcleo duro de Sánchez, cuidar mais de um rixa política num país longínquo do que de uma calamidade nacional que cai no centro das sua funções. Agora, é preciso sublinhar a marca de água desta inefável criatura: a política do ódio, da desqualificação dos adversários, sejam eles quais forem, e a encarnação de uma missão política que tem como alfa e ómega a protecção do poder incompetente e corrupto do PSOE. São estas evidentes virtudes o que tanto o recomendam para pertencer ao núcleo duro do padrinho desta convenção de podres políticos, Pedro Sánchez.

Tudo converge em Puentes, como nos seus pares, para o retrato mais sinistro de um político em democracia. As clientelas partidárias com que encheu a operadora da rede ferroviária em Espanha, à semelhança do que o PSOE fez nas restantes instituições. A incompetência no uso e execução de fundos europeus. O recurso soviético à propaganda até ao ponto da mais profunda náusea. O cinismo na acção política, na subversão da democracia, nas alianças escolhidas e na violência verbal permanente. E, neste trágico episódio, a obsessão pelo “controlo da narrativa” independentemente de qualquer consideração pela verdade, justiça ou simples decência.

Antes de os factos terem sido apurados – que, de resto, seriam impossíveis de apurar sob a batuta de Sánchez, como demonstram a obstrução sistemática ao apuramento da verdade no apagão de 2025, no desastre de Adamuz, na invasão de Ceuta, entre dezenas de outros casos -, esta triste criatura enviou para os órgãos de comunicação social amigos um registo áudio das comunicações entre a sede de controlo e os maquinistas mesmo antes da colisão. E seguiu com a mensagem previamente encomendada: o erro fora “humano” e o humano era evidentemente o maquinista morto que tudo fez para evitar a morte dos seus passageiros. Poucos minutos passaram até que esta “narrativa” fosse destruída pela verdade elementar dos factos e pelas próprias admissões do governo que se seguiram, incluindo a ponderação de interromper a actividade de outras linhas de comboio para reforço de segurança do sistema.

Sendo Puente quem é, o problema não se resume a ele. Com Sánchez, tudo é possível. Incluindo esta maravilhosa coincidência. Foi a irmã de Puente quem Sánchez pôs a instruir a maior fraude eleitoral das últimas décadas na Europa da democracia e dos valores do Estado de Direito. Foi ela quem respondeu às dúvidas dos consulados espanhóis na América Latina sobre a concessão de nacionalidade aos beneficiários da Lei dos Netos – que, na lei, abrangeriam apenas os descendentes dos que foram forçados a exilar-se durante e após a Guerra Civil – no sentido de violar a lei, desvirtuando-a, de modo a encher o universo eleitoral das próximas eleições com gente cujos antepassados tinham abandonado Espanha ainda no século XIX. Os números falam por si: dos quase 164 mil processos validados, o governo espanhol só consegue comprovar o exílio político de 901. Só 0,55% dos beneficiados poderiam comprovadamente gozar da cidadania, e consequente direito de voto, de acordo com a lei. Não fosse a suspensão desta vigarice descomunal pelo Supremo Tribunal e teria sido perpetrado um golpe fatal à democracia espanhola.

Como se isto não bastasse, estas e outras patifarias foram devidamente escoltadas por metade da comunicação social espanhola, cujo repugnante exército de funcionários ainda tem o atrevimento de se chamar a si mesmo “jornalistas”. Porquanto, já se sabe, o primeiro e último soluço desta denegeração política é aparecer atrás da proclamação cínica e mentirosa do anti-fascismo. Trata-se de uma mentira hoje, tal como já era uma mentira ontem, e na qual acreditam os que não são menos dados ao cinismo, nem menos propensos à mentira.

Finalmente, é este rasto indecoroso de crimes, corrupção, atentados ao Estado de Direito democrático, danificação das instituições, incompetências, obscenidades e abusos de poder que o Partido Socialista em Portugal tanto aplaude. Mais, escolhe-o conscientemente como referência: de António Costa a José Luís Carneiro, do comentador mais dependente que se arrasta pelas televisões e jornais até ao artista “politicamente consciente”. É este o exemplo e a esperança do socialismo nacional, o que tem ao menos a vantagem de deixar claro para todos o que é, para este admirável grupelho, o bom governo e a defesa da democracia.