Equipe de Abel Ferreira não mostra senso de urgência em semana decisiva para a temporada, enquanto o time de Leonardo Jardim apresenta ritmo e intensidade que fazem crer que o gol é apenas questão de tempo
O primeiro tempo no Mangueirão, com aquele barulho que poucos estádios na América do Sul têm, foi quase que um plano inclinado do Flamengo atacando o Remo. À exceção do final da primeira etapa, quando a equipe rubro-negra pareceu cansar, o que era natural para tamanho ritmo, intensidade, troca de bola e gente lá na frente.
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Mas também passou aquela impressão de que o time de Leonardo Jardim faria o gol a qualquer hora. Desconfiança que a torcida tem, qualquer que seja, imprensa também, a própria bola e alguns jogadores, que exageraram na filigrana. Ou acharam que a coisa estava tão fácil e facilitada pela imensa diferença entre as equipes, que era só questão de tempo.
Ele que acabou mesmo sendo o senhor da emoção. Era lance em que Samuel Lino metia bonito para Arrascaeta que, em vez de ser faminto e bater com o pé menos excelente que é o canhoto, procurou gente na área e a zaga do Remo salvou. Era jogada muito bem executada, muito bonita, mas sem eficiência. Aquilo que algumas vezes o Flamengo erra e não é de hoje, e acabou errando no Pará.
No segundo tempo, o Flamengo manteve o ritmo de plano inclinado, mas o Remo resolveu jogar. Mas ninguém jogou mais do que o goleiro Marcelo Rangel, que fez uma defesa de Gordon Banks no lance com Pedro, que salvou o gol mais do que certo e esperado do Flamengo.
Como o Flamengo depois seria salvo por mais um erro da arbitragem brasileira, que resolveu marcar no meio-campo uma falta em que Léo Ortiz apenas escorregou e nem tocado foi pelo atacante Jajá. Aquele típico lance que o árbitro “viu” e interpretou daquela maneira, mas que um árbitro mais experiente teria deixado passar para ver se eventualmente o VAR poderia corrigi-lo de um erro crasso. Jajá podia perder o gol, podia acontecer muita coisa, mas o fato é que o lance prejudicou o Remo, mas menos do que a qualidade do Flamengo. Logo depois, Arrascaeta, numa partida pálida, achou Samuel Lino, o melhor jogador hoje no Brasil, para fazer 1 a 0 e fazer justiça mais à primeira etapa do que ao segundo tempo do Flamengo.
Deu a lógica que se esperava no Mangueirão, como também se esperava maior pressão para o Palmeiras logo depois no Nilton Santos. Quando o Botafogo começou melhor o jogo, treinado interinamente pelo ótimo profissional Rodrigo Bellão, mas com poucas possibilidades e com a torcida botafoguense mais reclamando e cornetando os ex Marlon Freitas e Alexander Barboza, de história brilhante com a Estrela Solitária, do que propriamente apoiando o time - como bem faria ao final. Botafogo que, com o passar do tempo, acabou perdendo e dando espaço ao Palmeiras, que longe, de novo, de ser brilhante, acabou o primeiro tempo melhor e poderia ter sido melhor em um lance polêmico.
Andreas Pereira, na entrada da área, foi derrubado por Marçal, com Ferraresi na cobertura. Lance possível para cartão vermelho. Na minha interpretação, era só amarelo. Na minha interpretação de uma regra que é subjetiva, logo, toda opinião é válida (até de membro do STJD e de ministro do STF), não existiam todos os elementos para a expulsão - como está escrito na regra: Andreas tinha o domínio da bola, estafa em direção ao gol, a uma distância próxima da meta, mas havia um rival que podia o deter. Por isso eu não expulsaria (como, pelo mesmo motivo, também não expulsaria Matheus Bahia, que recebeu cartão vermelho em lance semelhante, no Beira-Rio, na ótima vitória santista contra o Inter).
O fato é que da falta não saiu muita coisa no Nilton Santos. Mas sairia muito mais no início do segundo tempo, quando o líder por 19 rodadas do Brasileirão voltou bem melhor, e não fosse pelo menos uma defesa espetacular de Gabriel num peixinho de Mauricio, o Palmeiras poderia ter aberto a contagem.
Então, Abel corretamente colocou Arias para jogar e tentou mais uma vez dar o espaço e campo a Vitor Roque, que não se acha desde a lesão antes da Copa. As demais mexidas não foram felizes, e o Palmeiras não mostrou aquele senso de urgência fundamental numa semana como essa, num jogo duríssimo contra a LDU, no Nubank Parque, na quarta-feira, pela Libertadores e, sobretudo, num momento em que o Palmeiras, depois de 19 rodadas, perde a liderança.
Se o Palmeiras tem como reclamar de discutível cartão vermelho para Marçal no primeiro tempo, e até por tabela, como aprendeu com o rival, a reclamar de jogos em que não está em campo, pelo lance da não expulsão do Jajá, no mais, deu a lógica. O Flamengo, que tem jogado muito melhor, enfim, assume a ponta. E o Palmeiras, que tem jogado muito pior, é o segundo colocado.
Comentarista SBT, TNT, Xsports, N Sports e BandNews FM. Escritor e documentarista. Curador do Museu Pelé e do Museu da Seleção Brasileira.
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