Chega ameaça o Governo com uma moção de censura a propósito do caso Luís Neves. A reforma da Segurança Social parece mesmo ficar na gaveta durante esta legislatura.

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E o vencedor é na Rádio Observador, em vídeo no YouTube e nas redes sociais do Observador, hoje com a Judite França, o Alexandre Borges e também o Anselmo Crespo. Judite, o jornal Nascer do Sol diz que o Presidente da República terá dado a Luís Montenegro tempo para resolver o caso Luís Neves. Entretanto, na última hora, o Chega, André Ventura, anunciou também uma moção de censura caso Luís Neves não saia do governo até terça-feira. Estamos de regresso definitivamente ao ano político.

Sim, acabou-se o soft opening das rentrées. Agora é sério. Se a moção for apresentada na terça-feira, como diz André Ventura, lá pro final da semana, julgo que na própria semana, acho que dá pra ser na própria semana, temos um farrapo no Parlamento que não vai servir pra rigorosamente nada, não vai ter efeito nenhum, mas mais uma vez faz aquilo que o Chega costuma fazer, que é marcar a agenda midiática e marcar uma posição. E garantidamente, Luís Montenegro, depois de ter ouvido isso, deve estar com vontade que chegue o dia 1 sem demitir Luís Neves. Agora tem um prazo, que é muito mais divertido pra Luís Montenegro, que já não estava convencido que ia demitir Luís Neves, então agora é que não vai mesmo demiti-lo até dia 1 de setembro, nem durante a época de fogos, garantidamente. A notícia do Nascer do Sol diz que o presidente da República deu então um prazo a Montenegro para resolver.

A questão é o que é resolver?

Porque a questão é se resolver o caso é dizer: o ministro não pode estar constantemente sob suspeita e, portanto, vamos lá encontrar todas as justificações e mais algumas pra isto. Ou então, nestas condições, em que continua sob suspeita, com uma série de pontas soltas. É só pontas soltas ali. Continuar assim é insustentável. Eu acredito que António José Seguro lhe tenha dado, de fato, tempo, atendendo à circunstância de estarmos em plena época de fogos, mas não tenho a certeza absoluta que Luís Montenegro esteja com muita vontade de substituir Luís Neves. E depois aqui põe-se um caso um pouco bicudo entre António José Seguro e Luís Montenegro. E eu acho que António José Seguro já foi bastante vocal pra aquilo que é o seu perfil sobre o fato das instituições estarem, já não sei qual foi a expressão.

Mas ele disse: "O que eu espero é que cada um assuma a sua responsabilidade."

A sua responsabilidade. Mas falou das instituições não poderem estar em risco.

Não sei bem se foi isso. Desculpa interromper, Judite. Ou seja, pra nos lembrarmos, o que ele disse foi: "Eu já falei sobre isto, não quero estar sempre a falar, eu falo quando acho que devo, com quem devo, onde devo. Vamos deixar as investigações e as auditorias apresentarem resultados, mas eu acho que as instituições estão cada uma no seu lugar e têm que se respeitar." Foi algo deste gênero. O que eu entendi foi muito mais: não é o presidente que demite o ministro.

É que, de fato, não é um presidente que demite o ministro.

Pronto, e depois disse isso: "Eu espero é que cada um cumpra o seu papel constitucional de garante do regular funcionamento das instituições." Teve aqui um regular funcionamento das instituições, tinha a certeza. E, portanto, eu acho que ele foi bem claro nessas declarações, mas objetivamente, o que pode fazer António José Seguro? Não pode fazer nada. António José Seguro pode despentear Luís Montenegro e abrir-se um conflito, mas não pode fazer muito mais do que isso. E, portanto, Luís Montenegro está com um caso bicudo entre mãos pra resolver, mas mesmo que seja pra demitir, pra destituir, para deixar ir embora Luís Neves, vai esbracejar até o fim. Não o fará de ânimo leve.

Seguramente. Anselmo.

Olha, eu estou muito curioso pra saber, depois da moção de censura, o que é que André Ventura faz a seguir à próxima manchete do Sol. Será que faz uma greve de fome? Amarra-se à porta do Ministério da Administração Interna? Há aqui um padrão e eu acho que é importante lembrar isto: André Ventura está a seguir exatamente o mesmo guião que seguiu com o caso das gêmeas do Presidente da República, com a diferença da moção de censura, porque não o podia fazer no caso do Presidente da República. Não se pode apresentar uma moção de censura ao Presidente da República, porque senão ele teria apresentado também. E, portanto, se vocês repararem, a cada manchete do Sol ou a cada notícia da Sandra Felgueiras, André Ventura tem um ato político. Já fez todos, acho que não lhe faltará nenhum neste momento. Já inventou atos políticos, que é uma coisa nova. Já inventou o ato político de apresentar uma resolução para a destituição de Luís Neves como ministro, como se a Assembleia da República pudesse destituir ministros. E, portanto, falta a famosa greve de fome, que é uma coisa que nós não assistimos em Portugal há muitos anos, ou pôr-se à porta de algum sítio, enfim, andar atrás do ministro, qualquer coisa. Há, de fato, aqui uma situação insustentável. Eu agora já nem estou no nível de gravidade das notícias que vão saindo, porque há umas que são, de fato

Mais preocupantes do que outras, para dizer o mínimo. Mas neste momento, se Luís Neves atravessar fora da passadeira, André Ventura a seguir também vai pedir outra vez a cadeia com ele, logo imediatamente. Mas era importante, nesta fase, perceber exatamente onde é que o Presidente da República se vai posicionar, e aí estou com a Judite, porque neste momento, se vocês repararem bem, André Ventura está a pregar sozinho. Não tem o PS, não tem o Bloco, não tem o PC, não tem a IL. A IL, mais ou menos, de vez em quando, não é propriamente a maior fã desta situação, mas quem está a cavalgar politicamente isto é André Ventura. Portanto, há aqui uma sincronização perfeita entre as notícias que saem e as declarações de André Ventura. Não preciso ser mais claro do que isto. E é daí que eu acho que é importante a posição, independentemente de ser verdade que o Presidente da República, mesmo que peça a cabeça de Luís Neves, Luís Montenegro pode sempre fazer uma coisa a António Costa e dizer: "Mas eu não quero." E ele fica. E agora? Mas é muito relevante saber, porque a declaração de António José Seguro, que eu interpreto exatamente como eu acho que a maior parte dos portugueses interpretou, pode ter também uma outra leitura. As instituições aqui não é apenas o governo, é a Polícia Judiciária. E o que está a acontecer com Luís Neves está a atingir de uma forma muito brutal a Polícia Judiciária. E esta guerra com Luís Neves virou também uma guerra com o atual diretor da Polícia Judiciária, com denúncias para o Ministério Público, com a abertura de um inquérito. Atenção, eu não faço a menor ideia se a denúncia é fundamentada, se não é fundamentada. É Carlos Cabrera, não é? Se Carlos Cabrera agiu bem, se agiu mal, não faço ideia, não conheço o processo e não me vou meter por aí. Mas a verdade é que neste momento a suspeição não existe apenas sobre o Luís Neves, existe uma suspeição grave sobre uma instituição que é muito importante, que é a Polícia Judiciária. Eu deduzo, e acho que não estarei longe da verdade, que a preocupação de António José Seguro não é apenas com o Ministério da Administração Interna e com o governo, é também com a Polícia Judiciária. Ainda mais se, de facto, avançar a comissão de inquérito, porque essa comissão de inquérito, eu acho que no caso de Luís Neves, pior não fica. É um bocadinho como o Tiririca, mas no caso da Polícia Judiciária pode-se abrir ali um alçapão que eu acho que é muito perigoso e que eu temo que possa abanar, de facto, uma instituição que já de si, neste momento, não é propriamente a instituição mais sólida do ponto de vista da opinião pública. Dito isto tudo, e termino com isto, eu acho que no fundo, isto é o que André Ventura sempre defendeu, que é abanar o regime, combater o regime. Portanto, acho que esse intento ele está a conseguir. Já o conseguiu com a Presidência da República, está a consegui-lo com o governo, também já vamos nas polícias, portanto, daqui a pouco, de facto, sobra pouco do regime. E talvez aí André Ventura possa fundar a sua Quarta República, que é o grande sonho dele.

Alexandre, não sei se queres acrescentar sobre a moção de censura.

Sim, tentando dividir em duas partes, começando pelo Sol, pelo nascer do Sol. A notícia em si é muito estranha, porque não tem nada a ver, isto é, não é nada consonante com o que o presidente declarou na semana passada. E acho que a Judite sublinhou um bom jogo de palavras, no fundo, que é: acho que todos acreditamos, pelas declarações de António José Seguro, que ele tenha dado tempo a Luís Montenegro e não um prazo. Acho que a diferença seria esta. Tendo em conta o que o próprio presidente disse, isto é, se ele quer que decorram as investigações e as auditorias, não deu propriamente um prazo, a menos que tenha dado um prazo ao Ministério Público. Agora, esta notícia sai no nascer do Sol, porque fonte da Presidência da República passou ao Sol, que cita uma fonte anónima, apenas. E neste caso, o Sol vai ser o expresso deste Presidente da República? Ou é fonte do governo que recebeu este prazo e o disse, ou é uma notícia que veio não sabemos muito bem de onde. Isto é uma notícia com este alcance, ser citada a partir de uma fonte anónima e claro que o líder da oposição se agarra a ela como se fosse uma declaração formal do Presidente da República, de uma fonte oficial de Belém identificada. Portanto, temos isto. Por outro lado, a boa notícia para Luís Neves é que, pelos vistos, esta semana o Nascer do Sol não descobriu nada de grave sobre ele, porque a notícia que teve para trazer foi esta. Passando à parte André Ventura da questão.

Desculpem, que não cita a fonte de Belém em momento algum.

Diz só "apurou o Sol."

Pronto, é isto. Apurou.

Não há nenhuma fonte citada.

Pareceu-me que era isso, ou dizia fonte anónima, ou então isto. Portanto, é zero desse ponto de vista. Agora, podíamos escolher dar crédito a isto ou não. O líder da oposição escolheu dar imenso crédito a isto. E como dizia o Anselmo, é isto. Estamos todos muito preocupados com o trajeto do Luís Neves, mas não há dúvida que há duas entidades particularmente sequiosas com isso, que tem sido o Nascer do Sol e tem sido André Ventura. E aqui, André Ventura, quando ele próprio pediu uma comissão parlamentar de inquérito, pelos vistos, não quer esperar pelos resultados dela. Portanto, agora decidiu que é terça-feira. Eu estava a pensar: "Mas por que terça-feira?" Pois, pronto, é dia 1 de setembro.