À Folha Medea Benjamin afirma que aliança militar perdeu razão de existir após fim da União Soviética

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7.ago.2026 às 6h00 Atualizado: 7.ago.2026 às 17h12

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Mais de três décadas após o fim da União Soviética, a Otan continua de pé e, segundo Medea Benjamin, perdeu sua razão de existir. A escritora americana defende que a aliança militar deveria ter sido dissolvida em 1991, mas, tendo assumido um caminho contrário, hoje caminha para um processo de esgotamento.

Benjamin, 73, é voz do movimento pacifista nos Estados Unidos e autora de uma série de livros sobre política externa, direitos humanos e conflitos globais. Cofundadora da organização pacifista e feminista CodePink, criada durante a preparação para a Guerra do Iraque, ela construiu sua trajetória com críticas às intervenções militares feitas por Washington.

A autora está no Brasil, onde participou nesta sexta (7) da Festa Literária Pirata das Editoras Independentes (Flipei) e lançou seus livros "Otan: O Que Você Precisa Saber" e "Por Dentro do Irã: A Verdadeira História Política da República Islâmica".

Em entrevista à Folha, Benjamin analisa o cenário internacional sob uma taxativa crítica do militarismo crescente que, nos últimos meses, tem dominado a pauta do governo republicano de Donald Trump.

Olhando para o Irã neste momento, qual a situação do regime em comparação aos últimos anos? Está mais forte hoje por causa da guerra. Muitos iranianos que sempre foram contra o governo agora acreditam que precisam se unir e mostrar que vão lutar contra o governo Trump, que falou em varrê-los do mapa.

Certamente há muitos iranianos, especialmente na diáspora, como aqui nos EUA, que são monarquistas, que apoiam o filho do xá e gostariam de vê-lo voltar ao Irã, embora ele tenha dito que não quer morar no Irã. Mas eles parecem muito indiferentes em relação ao próprio povo.

Alguns desses grupos já disseram que o povo iraniano quer os bombardeios. Como é possível dizer que as pessoas querem ser bombardeadas?

Para que têm servido, então, os ataques? Ficou claro que os bombardeios não vão derrubar o governo iraniano; é certo que tornam a vida das pessoas mais difícil, mas os iranianos vêm se preparando para essa guerra há décadas e demonstraram que estão prontos para uma longa luta.

E não acho que o povo americano também esteja. Eles votaram em Trump porque, entre outras razões, ele disse que acabaria com essas guerras intermináveis. Aqui estamos nós, em outra guerra interminável. Acho que isso fortaleceu o governo iraniano, mas é algo muito recente.

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O contexto pré-guerra era mais oneroso para o regime iraniano? O governo ficou bastante enfraquecido pela morte de manifestantes durante os protestos dos meses anteriores ao conflito, e isso voltará à tona depois que essa guerra terminar. É preciso haver algum tipo de prestação de contas pelo que aconteceu durante esse período.

Trump interpretou mal o poder do regime iraniano dentro do próprio país? É possível dizer que a análise dele ao iniciar a guerra foi equivocada? Não sei se o Trump analisa alguma coisa. Acho que ele vai com aquele barrigão e simplesmente decide um dia: "Ok, vou dar ouvidos ao Bibi Netanyahu [premiê de Israel]".

Ele calculou totalmente errado, achou que o povo iraniano se levantaria e que o governo seria derrubado. E não acho que ele tenha dado ouvidos à maioria de seus assessores porque, convenhamos, há de se acreditar que existem aqueles nas inúmeras agências de inteligência dos EUA que lhe deram informações de que isso simplesmente não iria acontecer.