Porque é que tantas relações familiares continuam a ser atravessadas pela ideia de obrigação? É importante refletir sobre a forma como confundimos amor, c...
à velocidade máxima de 10Gbps Topo dos artigos A paradoxal obrigação de amar Psinove Inês Amaro 22 jun 2026 08:32 Opinião Psicologia Familia Saúde mental Psinove Partilhar Partilhar Partilhar Partilhar Partilhar MadreMedia · Vida · 17 jun 2026 12:27 "De Menina Ferida a Mulher Selvagem". A sabedoria ancestral e a força do feminino sagrado MadreMedia · Atualidade · 19 jun 2026 12:09 "Gostar de alguém não dá o direito de controlar essa pessoa". Amor e ciúme não são a mesma coisa por Mariana Santos Galo A opinião de Inês Amaro Porque é que tantas relações familiares continuam a ser atravessadas pela ideia de obrigação? É importante refletir sobre a forma como confundimos amor, cuidado e dívida — e sobre o que muda quando escolhemos amar em liberdade. Acompanhe toda a atualidade informativa em 24noticias.sapo.pt
Enquanto psicóloga com um gostinho especial por trabalho interpessoal e de personalidade, um dos objetivos psicoterapêuticos que mais prazer me dá alcançar é aquilo que, em sentido lato, podemos chamar de diferenciação.
Na prática, isto significa que o indivíduo passa a reconhecer aquilo que o separa do outro. Aprende, por exemplo, que aquilo que lhe pertence — e que, de forma geral, pode controlar e pelo qual é responsável — inclui os seus comportamentos, pensamentos, vivências, reações, e outras dimensões suas. Naturalmente, isto implica também compreender que tudo o resto — por exemplo, aquilo que os outros pensam, fazem ou sentem — não lhe pertence e se encontra, portanto, para lá dos limites que o separam do outro. Bonito e libertador, certo?
Mas, de vez em quando, até as almas mais diferenciadas tropeçam nas amarras invisíveis da obrigação.
“Tenho de ir visitar os meus pais este fim-de-semana [mas não quero]”
“Tenho de enviar dinheiro à minha mãe [apesar de saber que ela vai gastar tudo em compras online].”
“Tenho de responder à mensagem do meu pai [mas só a ideia de alimentar esta conversa ativa-me].”
A pergunta que se ergue é… Mas então porquê?
E a resposta é quase sempre a mesma: “Sinto que é a minha obrigação”.
Disclaimer: esta será uma reflexão polémica.
Durante séculos, amor e obrigação caminharam lado a lado, de forma bastante paradoxal. Afinal, o amor genuíno, sem deixar de respeitar limites saudáveis, é altruísta e, por isso, livre e desinteressado. A obrigação não. Originalmente, obrigar significava literalmente “atar com um laço”, “amarrar” ou “prender firmemente”, mas, com o tempo, adquiriu um sentido metafórico e moral, passando a indicar que alguém estava ligado a um dever ou a uma dívida.
Este modo de associar amor e obrigação tem várias origens e foi sendo reforçado por diferentes estruturas religiosas, económicas, familiares e políticas ao longo do tempo.
Olhemos, por exemplo, para o Antigo Testamento. Em Levítico 19:18, encontramos a conhecida frase “amarás o teu próximo como a ti mesmo”. Há cerca de três mil anos, já alguém tinha decidido que, para preservar a paz entre os seres humanos — e bem —, amar deveria ser um mandamento. Talvez não no sentido literal de obrigar alguém a sentir afeto, mas essa parece ter sido a mensagem que muitas pessoas acabaram por internalizar: o amor como uma obrigação.
Durante milhares de anos, ter filhos podia ser economicamente vantajoso, porque ajudavam desde cedo no campo, no cuidado dos animais, nas tarefas domésticas e nos negócios familiares. Também garantiam a continuidade da família, cuidavam dos pais na velhice e compensavam a elevada mortalidade infantil. Faz sentido que, nas sociedades agrícolas pré-industriais, os filhos nascessem e vivessem sob um tremendo sentido de obrigação para com os pais e as suas responsabilidades familiares.
Se viermos mais para o nosso cantinho do mundo, o período ditatorial, cuja herança cultural salazarista ainda hoje se faz sentir, acoplou a pressão e a culpa católicas associadas à dinâmica pais-filhos (“honra o teu pai e a tua mãe”) à ideia da família — tradicional, claro — como instituição prioritária e superior ao indivíduo e às suas necessidades.
Tem sido um longo caminho de consolidação de crenças sociais e culturais em torno da ideia de que amar, sobretudo no contexto familiar, é um doce revestido de amargas obrigações, dívidas e cobranças.
Hoje em dia, e na verdade já há muito tempo, na maior parte das sociedades ocidentais industrializadas, ter filhos está longe de ser uma necessidade. As pessoas, no geral, têm filhos porque querem, não porque precisam. É um exercício de liberdade. Antes, era frequentemente entendido como um dever. A quebra das taxas de natalidade parece refletir, entre muitos outros fatores, esta transformação. Aliás, ter um filho — com todas as dificuldades económicas, sociais, políticas, ambientais, etc. — deve mesmo ser uma escolha ponderada e deliberada para a grande maioria das famílias. Então por que motivo continuam tantos padrões herdados dos nossos avós a organizar a forma como algumas famílias entendem o amor?
A resposta poderá ser simples: porque os nossos pais aprenderam com eles a associar o amor à obrigação. Talvez, em alguns casos, tenham aprendido apenas a obrigação e já estejam a desbravar terreno ao conseguirem trazer amor para a mistura. O problema é que aquilo que, no tempo dos nossos avós, podia fazer sentido enquanto estratégia de sobrevivência familiar chega agora até nós como uma lição bafienta, carregada de culpa, cobranças e ressentimentos.
Senão, façamos um exercício. Imaginemos que aquele amigo que antes nos perguntava “Queres ir dar uma volta?” chega um dia e nos diz: “Temos de ir dar uma volta. Hoje é domingo. É a tua obrigação enquanto meu amigo.” Nem precisamos de ir tão longe: basta observar como a ideia de obrigação, quando entra no campo da intimidade, destrói o erotismo em tantos casais. A partir do momento em que algo é obrigatório, deixamos de ter espaço para querer, amar, desejar, escolher. A obrigação é inimiga do amor — pelo menos quando é imposta e usada para anular a liberdade do outro. Cria ressentimento, culpa, e alimenta a ideia de que o amor é transacional: algo que eu dou com a intenção de receber de volta. Isto não significa que o amor não envolva cuidado, compromisso ou sacrifício. Significa apenas que nenhuma dessas coisas deveria nascer da ideia de que o outro nos pertence ou nos deve alguma coisa. Talvez o amor na sua forma mais pura seja precisamente aquilo que damos sem garantias. E que bom é quando regressa até nós — não porque tinha de regressar, mas porque o outro assim escolheu.
Quando às vezes oiço os meus clientes refletir sobre a ideia de que têm de ter filhos para não morrerem sozinhos ou para terem alguém que cuide deles, pergunto-me que medo estarão a tentar resolver através de uma pessoa que ainda nem existe. E lamento a persistência desta narrativa intergeracional, que nos diz que uma vida pode vir ao mundo por nossa escolha para ser força de trabalho, cuidador informal, um melhor amigo, ou só alguém que existe para nós. O problema não está em cuidar, ajudar ou fazer sacrifícios por quem amamos. Está em acreditar que um filho nasce já em dívida e que, por ter recebido cuidados, passa a dever aos pais uma vida inteira de disponibilidade e retribuição.


