Aprender é se relacionar. Nas periferias, as aprendizagens correm pelos becos, vielas, rodas de samba, terreiros e hortas comunitárias. Para além do confinamento escolar, aprender é movimento, afeto e ancestralidade. Leia mais (06/24/2026 - 08h00)

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Juliana Mangaba Integrante da equipe de coordenação pedagógica da Formigas-de-Embaúba

Aprender é se relacionar. Nas periferias, as aprendizagens correm pelos becos, vielas, rodas de samba, terreiros e hortas comunitárias. Para além do confinamento escolar, aprender é movimento, afeto e ancestralidade.

É desse chão que eu chego, mulher periférica, educadora socioambiental, filha do êxodo rural nordestino. Trago as belezas e as feridas do meu lugar e a escuta do que pulsa nas redes de vida da quebrada, uma natureza que insiste em brotar nas frestas do concreto.

Na infância, aprendi no sertão do Ceará que a terra sustenta a vida. De volta à periferia de São Paulo, buscava essa mesma vida no mundo cimentado.

A escola pública também era concretada, mas minhas professoras abriam frestas e nos conduziam a encontros com resquícios de floresta ainda vivos no território. Chegar aqui é travessia, minha voz emerge da margem, pesquiso desde o porão.

Vivemos, afinal, no mesmo navio-mundo, mas não nos mesmos lugares. Há quem esteja no convés. E há quem sobreviva no porão, onde a água chega primeiro. Na cidade, esse porão se reinscreve nas periferias.

Somos nós que sustentamos o peso, movemos os remos e sentimos a borda ceder. É daqui que se reinventam rotas e se aprende, por enfrentamento e invenção, a não afundar.

A vida depende de fluxo, princípio ecológico que sustenta ciclos, trocas e a continuidade da vida. Quando interrompido, o sistema adoece. Nas periferias, essa ruptura tem nome: desigualdade, racismo ambiental e uma cidade que bloqueia o acesso à natureza, ao descanso e ao encontro, criando zonas de contenção da vida.

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Quando a vida é contida, a aprendizagem também é. Interrompem-se fluxos de memória, sentido e criação. Nas tradições afro-brasileiras, essa força vital em movimento tem nome, axé. Ele não se acumula, mas circula e vive.