Carla Mendonça Tavares é diretora do Centro de Inovação para Renováveis e Área Comercial da GALP.  Uma carreira que começou nas fusões e aquisições e que hoje está na área da inovação.

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Eu hoje em dia olho para trás e penso: o meu maior falhanço não foi eu não ter conseguido dar resposta ao ritmo de trabalho. O meu maior falhanço foi eu não ter visto os sinais que o meu corpo me estava a dar. E eu deveria mesmo ter tirado uns dias e voltado.

A inclinação é suave, mas é muito prolongada. A certa altura, a pessoa perde a perspectiva, não é?

Sim, são tempos diferentes.

Este é o Querido Líder da Rádio Observador. Eu sou o Ricardo Conceição e comigo estão os especialistas em liderança, o Milton de Sousa e o Jorge Medeiros. A nossa convidada é a Carla Mendonça Tavares, diretora do Centro de Inovação para Renováveis e Área Comercial da Galp. Economista de formação, com MBA, a nossa convidada tem mais de 20 anos de experiência no setor da energia. Começou em fusões e aquisições na Spirit Santo Investments, antes de participar na fundação da EDP Ventures. Depois passou pela Open Innovation, na EDP Inovação. Hoje lidera a aposta da Galp na transição verde, no solar, eólico, descarbonização de indústrias pesadas. Gosta de caminhadas, porque as corridas não são muito amigas dos joelhos. Bem-vinda, Carla, ao Querido Líder. Posso lhe perguntar o que queria ser quando era pequenina?

Pode perguntar e a resposta é: não tinha nenhuma ideia.

Não estava a pensar ir para as fusões e aquisições e renováveis.

Não tinha nenhum sonho artístico, nem ligado à medicina, aquelas profissões que normalmente as crianças ambicionam.

Ou ser astronauta, não é?

Então como é que vem aqui parar?

Por exclusão de partes. Fiz o meu percurso acadêmico até o 12º ano, depois alguns psicotécnicos que eu ignorei olimpicamente.

E o que é que davam?

Efetivamente davam mais economias e matemáticas. Mas quando nós temos que escolher uma área entre artes, letras, ciências e economias, não havia ali muita dúvida. E foi essa área que escolhi, tinha boas notas e continuei. Era Economia ou Gestão, mas acabei por tirar Economia. E como é que eu vim aqui parar? Eu acabei o curso no ano 2000, apesar de não parecer.

Nós não temos imagem.

O Jorge foi meu professor há uns anos e diz que eu estou igual.

Eu apontaria para 2015.

Não, tirei o curso no ano 2000, com 10 anos.

E nessa altura, estávamos numa situação de pleno emprego em Portugal. Os alunos nas universidades eram aliciados em janeiro, quando acabavam o curso em junho, julho. Quem estava a tirar o curso de Economia nessa altura, ou ia para a banca, ou ia para uma consultora. Surgiu a oportunidade da banca de investimento. A banca de investimento é como jogar na primeira liga. É aquela profissão que é mais exigente, em que lidamos com as grandes operações. Na altura, eu trabalhava muito com os meus clientes na banca de investimento, era Portugal Telecom, também os grupos mídia. Trabalhei muito nessa bolha dos mídia, nessa altura, nos anos 2000, quando os grandes grupos começam a consolidar e a comprar revistas e rádios, as mídias capitais, as Cofinas. Vivi muito esse ambiente, o ambiente das telecoms, o ambiente das ITs, e era muito interessante e muito também a onda da economia que o país estava a viver. Foi um agitar de águas muito grande. Nós começamos a ver grandes fusões e aquisições acontecerem em Portugal pela primeira vez nessa altura. E estar ligada aos projetos que efetivamente estavam a mudar o panorama da economia do país, foi muitíssimo interessante e foi uma escola excepcional, e tenho amigos que ainda tenho desses dias, e sempre que posso, vou mantendo os contatos. Tinha também, curiosamente, as SAD. Porque foi no momento em que os clubes de futebol, Benfica, Porto, Sporting, fizeram as suas SAD e se lançaram na capitalização bolsista.

Foram vocês que provocaram isso.

Fomos nós que provocamos isto. E também vivi momentos caricatos, como a defesa da OPA do Joe Berardo à SAD do Benfica, com o Luís Filipe Vieira. Foram momentos muito engraçados, com os mídia sempre muito em cima desses projetos. Foi uma escola muito engraçada.