Foto: Duda Menezes Me deparei com um vídeo no feed de um casal na livraria. A mulher escolhia um livro de desenvolvimento pessoal enquanto o homem se mostrava orgulhoso de sua escolha. Em tom de desdém, brincaram sobre quem opta por “historinhas”, afinal de contas, eles buscam algo que acrescente às suas vidas, para crescer juntos.
Por onde começar? Talvez falando sobre o aspecto simplista e meramente utilitário desse tipo de pensamento. A literatura, como qualquer arte, pode servir ao lazer, contemplação e entretenimento, e, ainda assim, acrescentar repertório em vários sentidos. Ao ler ficção adquirimos um olhar mais empático sobre o outro, aprendemos e absorvermos costumes, aperfeiçoamos nossa retórica, interpretação de texto, gramática. Entre tantos outros benefícios. Mas, sobretudo, o que mais incomoda num discurso tão reducionista: enxergar literatura e ficção como histórias que passam em branco e não acrescentam nada - algo tão longe da capacidade transformadora que são capazes de exercer. Em O vício dos livros, o escritor Afonso Cruz argumenta que “é muito difícil, senão impossível, explicar a um néscio a importância da cultura, pois ele não tem cultura para perceber a falta dela”. Na literatura descobrimos o que nos conecta a cada ser humano do mundo, o igual e o diferente, ainda que separados por décadas, séculos e continentes. Uma conversa interminável, sempre em expansão, ampliando nossos debates internos e expandindo horizontes. Entendendo quem somos e o lugar que ocupamos no mundo. Segundo Alberto Manguel, o leitor é, para um livro, a promessa de ressureição.




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