Mário Centeno multiplica-se em livros e artigos para se fazer à liderança do PS. Pelo meio, o primeiro-ministro assusta o país com fantasma da bancarrota e o escândalo do Banco Master chega a Portugal
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Todos os dias na Rádio Observador pode contar com uma nova edição de "Iuventus Domi". Hoje, domingo, com o Nuno Gonçalo Poças e o António Costa. A condução é contigo, Luís Soares.
Bem-vindos, António e Nuno. Hoje vamos a contas. Contas ao preço dos combustíveis, às contas públicas, mas começamos com um homem de contas, Mário Centeno, que ontem, Nuno, criticou Marcelo, elogiou Cavaco. Como é que olhas para esta análise política feita ontem por Mário Centeno?
Bom dia a todos. Normalmente, quando Centeno fala, acho que se deve ouvir com atenção, mas eu não consigo deixar de revirar os olhos. Em suma, é mais ou menos isso. Faz uma crítica a Marcelo Rebelo de Sousa por ter dado posse a um governo que não tinha apoio maioritário no Parlamento. E passa a ter um grande elogio a Cavaco Silva por, em 2015, ter feito o contrário. Faz uma série de considerações sobre a questão da estabilidade e uma espécie de autoelogio sobre os anos de progresso, acho que a expressão é mesmo essa, que foram permitidos precisamente pela estabilidade que foi gerada em 2015 pela geringonça. Eu tenho uma série de considerações iniciais que me levam a uma questão. Eu acho que muitos daqueles argumentos que são invocados são discutíveis e rebatíveis, até porque a história conta o contrário. Houve muitos governos minoritários que tomaram posse e os presidentes da República deram posse a governos que não tinham apoio maioritário no Parlamento. Cavaco Silva em 85, António Guterres em 95, António Guterres em 99, a José Sócrates em 2009. E já agora, por que não, a António Costa em 2019, quando já não houve acordo escrito. Estava mais ou menos no ar que havia um apoio, mas na verdade, esse apoio foi muito ténue e depois levou a eleições em muito pouco tempo. E Mário Centeno também era ministro desse governo. Portanto, há aqui uma contradição histórica que eu acho que merece alguma discussão, mas que me levará depois a esse ponto, que é o que Mário Centeno quer com todas estas coisas. Mesmo relativamente a Cavaco Silva em 2015, a memória também é um bocadinho seletiva, porque Cavaco Silva não começou por dar posse ao governo maioritário do PS apoiado pelo PCP, pelo Blocoo e pelos Verdes. Deu posse ao governo minoritário de Pedro Passos Coelho, que tinha ficado em primeiro lugar nas eleições. E, portanto, essa discussão da prática constitucional, ou práter constitucional, se quiserem, ou do costume constitucional, se Mário Centeno quiser voltar a discuti-la, acho que há muita disponibilidade pra voltar a fazer. E por que o PS naquela altura resolveu fazer como faz ou não? Depois, há outro ponto que eu também acho que é discutível, que é o fato de, havendo governos minoritários e a probabilidade, a tendência normal é de que não haja maiorias absolutas, é a de que são os partidos no Parlamento que têm que se entender e o Presidente da República pode e deve dar posse a um governo, independentemente de o ter naquele momento ou de eventualmente até ter a capacidade pra fazer esses acordos mais tarde, ou eventualmente até como acontece com este governo, de pescar a linha, fazer uma maioria aqui e ali pra aprovar aquilo que entende aprovar. E não estamos sequer a falar do mérito das propostas. Depois há uma série de autoelogios por causa dos anos de 2015 a 2019. Mais corretamente, 2016 a 2019. É um bocadinho gaba de cesto, que vais pra vindima. Mas Mário Centeno está a fazer uma coisa que normalmente em Portugal se faz muito na política, que é tentar fazer vingar a avaliação dos governos, mesmo pra posteridade, com base na imagem mediática e na narrativa que foi criada durante a sua vigência, e não avaliando o resultado das políticas públicas que implementaram. E portanto, se nós quisermos olhar pra trás, e eu acho que Mário Centeno merece essa discussão, aqueles anos de 2015 e 2019 deveram-se à estabilidade que foi proporcionada entre o PS, o Bloco de Esquerda e o PCP, ou a juros baixos, a um boom do turismo, a fundos comunitários, a desinvestimento público brutal. E que impacto é que isso teve na vida pública do país e na forma como o Estado funciona e que nós estamos a ver hoje.
Acabamos por paradoxo, por ter sorte com a pandemia, que trouxe um PRR que serviu pra Costa e o governo disfarçarem o que não fizeram naqueles anos todos.
E, portanto, a minha pergunta é, porque normalmente se faz muito esta pergunta a uma outra pessoa, que por acaso já não é membro do governo, mas que também já foi, e que a Mário Centeno normalmente nunca se faz. Curiosamente, Mário Centeno já esteve disponível em vários momentos, alguns até bastante estranhos, que quando era ministro das Finanças estava disponível pra ser governador do Banco de Portugal, esteve disponível pra ser primeiro-ministro, esteve disponível pra ser candidato à Presidência da República. Isso acho que é público e é notório. Esteve sempre disponível pra ser uma série de coisas e, portanto, a pergunta é Como e quando é que Mário Centeno vai derrubar José Luís Carneiro da liderança do PS? Como é que o PS tem um líder institucionalizado, que está em afirmação, que está a liderar sondagens, e quando é que Mário Centeno vai fazer o xeque-mate? O que é que ele quer? Quando e como é que está a pensar fazer isso? Com que ideias? Com que projeto? O que está a acontecer por trás de tudo isto?
As ideias e o projeto podem ter a ver com aquele think tank de esquerda, onde, de resto, se não me engano, foram feitas essas declarações, foi no âmbito também já desse grupo.
Mas será que Mário Centeno quer?
Eu garanto que nós, eu e o Nuno, não combinamos nada. Como vocês sabem, não combinamos temas. Mas eu gostava mesmo de trazer uma abordagem que, na verdade, é um complemento ao que o Nuno estava a dizer, sem saber que o Nuno me traria esta reflexão, que afinal o PS também tem o seu Pedro Passos Coelho. O país anda obcecado. Quando eu digo o país, digo alguns comentadores, alguns jornalistas, alguma malta do PSD e do governo obcecada com Pedro Passos Coelho. Não há dia que não haja um comentário, um podcast, um texto de opinião, que aqui vem Pedro Passos Coelho.
Eu vou confessar, eu tenho uma obsessão, mas é por necessidade.
Parece aqui uma corrida entre Mário Centeno e Pedro Passos Coelho para eventualmente um dia ver quem é que está atrás do outro.
Eu acho que, por acaso, Passos Coelho não está nessa corrida. Toda gente quer metê-lo. Eu não digo que ele não esteja disponível para estar na corrida num qualquer momento.
Mas ele não precisa de construir isto. Mário Centeno precisa e está a fazê-lo, e tem que ser avaliado a essa luz.
Mas esse detalhe é muito curioso, só 20 segundos, porque acho que seria um duelo muito interessante de assistir. Pedro Passos Coelho que, como dizia o António, se tem colocado de fora. Nós depois podemos discutir se quer, se não quer, se há ali algum interesse. Mas eu acho que tem sido bastante honesto e direto, quando ele diz que se um dia tiver que voltar, não será por boas razões, é no fundo: "Eu não tenho interesse, mas se o cenário se puser muito mal e que de fato seja necessário, ou se as pessoas quiserem ou qualquer coisa assim do gênero, enfim, na altura logo se equacionará." E isso parece muito claro, não há grande espaço para grandes divagações sobre isso, apesar de ter existido. Mas a intervenção de Pedro Passos Coelho desde há um ano para cá, mais ou menos, tem sido feita muito em torno de políticas públicas em concreto, de opções. E, portanto, é um ex-primeiro-ministro que está a participar no debate público sobre as escolhas que o PS tem para fazer relativamente ao seu futuro. E Mário Centeno, de repente, aparece, acho que de forma muito mais aberta, porque já esteve tantas vezes disponível para tudo e mais alguma coisa.
Para ser director do FMI.
Sim, para presidente do Eurogrupo.
Candidato à Presidência da República.
Sim. Acho que é muito mais evidente que tem essa ambição para qualquer coisa, ele precisa que o ponham em qualquer coisa assim importante. Não trouxe nenhum contributo para esse debate sobre políticas públicas. Aquilo que está a fazer é remeter a conversa para um período em que ele foi governante e tentando manter a narrativa de que aqueles quatro anos foram incríveis. Nem sequer está disponível para agora, que nós estamos a ver resultados das políticas que foram implementadas naquela altura. Os relatórios PISA, as políticas migratórias, as questões todas na saúde, as contas públicas, o investimento público em geral. Não está disponível para isso. E eu acho que o debate entre os dois seria muito interessante. Mas caramba, se eventualmente são duas pessoas que querem ter um futuro político à frente, e eu não acho que seja claro, pelo menos para um, então temos que lhes fazer as perguntas certas aos dois. Por que é que a Pedro Passos Coelho estamos sempre a falar do passado e agora a Mário Centeno não podemos fazer perguntas sobre o futuro?
E com esse ângulo, com essa bússola e com essa luz, à luz dessa lupa.
Damos a nota, então.




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