Após comandar a agenda global de ação climática da conferência das Nações Unidas COP30 como Campeão Climático de Alto Nível (Climate Champion), o empresário Dan Ioschpe afirma que o maior desafio agora é transformar o forte engajamento de empresas, investidor…

Após comandar a agenda global de ação climática da conferência das Nações Unidas COP30 como Campeão Climático de Alto Nível (Climate Champion), o empresário Dan Ioschpe afirma que o maior desafio agora é transformar o forte engajamento de empresas, investidores e governos em resultados concretos. Em entrevista ao Valor durante evento na AMCHAM na SP Climate Week, o sucesso da arquitetura criada pela conferência será medido pela capacidade de acelerar a implementação de soluções e ampliar o acesso ao financiamento climático, com maior integração entre setor público e privado.

Ioschpe, que também esteve à frente do engajamento do setor privado no B20, Fórum de trabalho de negócios que ocorreu paralelamente ao G20, em 2024, fala ainda sobre o papel do sistema financeiro, a expansão do blended finance, o avanço do mercado de carbono brasileiro para financiar a transição verde.

"Quanto mais rápido avançarmos com o nosso sistema de carbono e quanto mais nos conectarmos ao mundo, melhor, porque vamos traduzir o valor mais rapidamente”, diz.

O executivo também aponta alguns desafios para manter o legado da conferência nas próximas edições da COP, não apenas da deste ano, que acontece em Antália, na Turquia, com a copresidência turca e australiana, mas também a COP32, na Etiópia. E cita o sucesso da SB COP (Sustainable Business COP), movimento que foi lançado no ano passado sob a liderança da Confederação Nacional da Indústria (CNI) e que hoje mobiliza uma coalizão de mais de 40 milhões de empresas em 60 países e que, desde junho de 2025, integra oficialmente a Marrakech Partnership for Global Climate Action, da UNFCCC.

A seguir, confira os principais trechos da entrevista:

Valor: Como o senhor avalia o engajamento do setor privado desde dezembro, ao final da COP30 em Belém (PA), especialmente do empresariado brasileiro?

Dan Ioschpe: Estamos vendo um movimento muito forte, porque a continuidade e a organização que a COP30 trouxe para a agenda de ação — a área em que estou mais envolvido — facilitam muito o trabalho das entidades que trazem essas empresas, prefeituras e comunidades. A SB COP, que hoje reúne 45 milhões de empresas no mundo, é um exemplo claro disso. Obviamente não dá para ter todas elas participando individualmente do processo, mas você tem entidades que estão conversando, se abastecendo e fazendo um ir e vir de ideias e informações com essa base, numa plataforma organizada e continuada, dentro do arcabouço das Nações Unidas. Ou seja, é uma forma de trabalho sem vieses, propositiva, positiva, pública e aberta, e isso está fazendo o engajamento aumentar. O engajamento é enorme. Agora precisamos que os planos de aceleração de soluções — hoje temos 120 — se materializem e sejam demonstráveis. Na medida em que isso acontecer, provavelmente teremos ainda mais engajamento, porque quem tem uma visão mais cética ou cansada em relação ao processo vai ver que ele de fato entrega. Só que a gente precisa que ele entregue com mais velocidade e mais escala.

Valor: Não adianta só querer, é preciso ter o dinheiro. Como vocês têm feito a ponte com o setor financeiro e de seguros?

Ioschpe: Eles estão absolutamente dentro. O setor de seguros, por exemplo, é um dos temas centrais do mundo da adaptação e da resiliência. Quando você olha para o eixo de cidades e desenvolvimento humano, seguros é uma das temáticas-chave, No eixo horizontal, que atravessa todos os outros, financiamento, tecnologia e capacitação, isso também é central. Temos iniciativas menores e maiores. O TFFF [Fundo de Florestas Tropicais para Sempre] é uma delas. Está andando, com ingresso de fundos, por enquanto de países e fundos nacionais. Acredito que a COP31 deve ser um momento importante para ele crescer.

Valor: No caso brasileiro, que exemplos concretos se destacam nesse engajamento do sistema financeiro?

Ioschpe: O sistema financeiro brasileiro está muito engajado nessa agenda, assim como o setor de seguros. O BNDES está extremamente ativo nessa temática, de forma muito criteriosa. Por exemplo, a primeira unidade de SAF [combustível sustentável de aviação] a partir da macaúba foi revisada e viabilizada dentro do sistema do BNDES, assim como outras iniciativas do Programa Clima e do Ecoinvest.

Valor: O blended finance é um tipo de mecanismo que tem atraído cada vez mais capital. Por que esse modelo desperta interesse do setor empresarial?

Ioschpe: A chave do blended finance é conseguir aumentar o tamanho da oferta a partir da mistura de fundos distintos, em que um tipo de fundo, eventualmente, viabiliza outro. A Luciana Costa, [diretora de Infraestrutura, Transição Energética e Mudança Climática] do BNDES, comentou recentemente que quando o BNDES analisa um projeto a fundo e participa dele, isso funciona como um selo, não formal, mas muito bem visto por outras instituições financeiras públicas e privadas ao redor do mundo. O blended finance tem essa capacidade: você não esgota o limite de ninguém e soma forças para realizar uma tarefa. Normalmente, o entrante inicial ajuda a resolver a equação do ponto de vista financeiro atraindo outros, por exemplo, com instrumentos de "primeira perda" (first loss). Há investidores e fundos especializados em oferecer essa primeira perda. Com uma cesta de projetos, isso permite que financiadores mais tradicionais entrem, porque o risco deles diminui significativamente. Há muitas formas de estruturação e uma agenda contínua, estruturada e com ampla visibilidade facilita o trabalho das instituições financeiras.

Valor: O senhor também falou sobre o Brasil se conectar mais ao mundo. Quais os principais desafios hoje e o benefício disso para o empresariado brasileiro?

Ioschpe: Sob o ponto de vista da agenda da ação climática, primeiro, os processos são globais, nossa agenda de ação climática é global. O combustível sustentável da aviação é um tema global, assim como o combustível marítimo, a mineração, os seguros. Você não consegue ter risco só de uma localidade, precisa mesclar riscos para fazer o resseguro, por exemplo. Segundo, você precisa ter agentes de diversas nacionalidades, porque às vezes não existem, num lugar, tecnologias que já existem em outro, e o inverso também é verdade. O Brasil tem uma potência em biocombustíveis. Quando foi à Índia falar sobre o tema, acelerou o desenvolvimento de biocombustíveis por lá, com o avanço da mistura de etanol na gasolina a partir dessa incursão brasileira. Essa conexão é muito importante, e acho que estamos fazendo isso. Mas há temas em que ainda podemos avançar bem mais, por exemplo, a questão do carbono. Na minha opinião pessoal, quanto mais rápido avançarmos com o nosso sistema de carbono e quanto mais nos conectarmos ao mundo, melhor, porque vamos traduzir o valor mais rapidamente.

Valor: O senhor se refere ao mercado global de carbono previsto no Acordo de Paris?

Ioschpe: Estou falando de acordos bilaterais ou multilaterais em que os países negociam e comercializam créditos de carbono. O Brasil começou a discutir essa semana como vai fazer essa autorização. Na minha opinião, esse é um tema muito importante. Quanto mais rápido e mais integrados estivermos a esse sistema [mercado de carbono], com as salvaguardas necessárias para não termos problemas com o cumprimento das nossas NDCs [metas de descarbonização as quais os países se comprometem a cumprir], melhor. O carbono é um exemplo de uma moeda, de um valor. Quem tiver acesso a ele vai ter uma oportunidade de aceleração e de escala que talvez quem não tem acesso não tenha.

Valor: A cada COP muda o país-sede e o Climate Champion. Como funciona essa transição e a continuidade do processo?

Ioschpe: Sempre há um Climate Champion para cada COP, e a equipe do Climate Champions Team fica tentando garantir essa continuidade d