O antropólogo Michel Alcoforado disse que já recusou convites para morar fora por amor ao Brasil e por um incômodo pessoal com a ideia de morrer falando outra língua, durante entrevista ao Na Pilha com Tati Bernardi, programa do Canal UOL.Ao comentar l
Ouvir1×0.5×0.75×1×1.25×1.5×1.75×2×O antropólogo Michel Alcoforado disse que já recusou convites para morar fora por amor ao Brasil e por um incômodo pessoal com a ideia de morrer falando outra língua, durante entrevista ao Na Pilha com Tati Bernardi, programa do Canal UOL.
Ao comentar livros que marcaram sua vida, o autor de Coisa de Rico contou que já recebeu propostas para assumir cargos no exterior, mas afirmou que não se imagina vivendo longe do português e do país.
Eu sou muito apaixonado pelo Brasil. Eu recebi inúmeros convites pra morar fora, assumir cargos fora, porque eu tenho uma consultoria. [...] Eu digo não, não suportaria amanhecer dando bom dia pra John, boa tarde pra Sarah, e boa noite pra Richard e pra Paul. Eu tenho paúra da ideia de que eu posso morrer falando outra língua. Eu quero morrer falando português. Michel Alcoforado
O antropólogo e consultor ainda descreveu a própria trajetória como alguém que se aproximou da política na adolescência, influenciado pela família e por discussões sindicais em casa. Ele lembrou que os pais, funcionários da Petrobras, se identificavam com a esquerda e repetiam um lema que marcou sua formação.
O meu pai dizia: trabalhador vota em trabalhador. E ficava repetindo aquela coisa. E a gente num colégio metido à besta, obviamente a gente era minoria. Michel Alcoforado
Alcoforado contou que estudou no Rio em uma escola de classe média alta com perfil 'centro-direita' e disse que, nas votações simbólicas do colégio, sua família costumava apoiar Lula enquanto a maioria escolhia Fernando Henrique Cardoso. Ele afirmou que uma professora de história ligada a uma corrente do PT também teve papel importante no seu interesse por leitura e militância.
Para ele, livros funcionaram como uma espécie de 'atalho' para conhecer realidades distantes da sua rotina e ajudaram a desenhar escolhas profissionais. Ao falar de Abusado - O dono do morro Dona Marta, de Caco Barcellos, disse que a leitura o levou a "subir o morro" e entender um mundo que ele via de perto, mas não compreendia.
Eu abro um livro e eu subo o morro com aquele livro. Eu descubro que tem tráfico, eu descubro que o tráfico tem cargos, eu descubro como é que o morro se formou, eu descubro como é que os canos de água subiram o morro. Eu descubro o que é o comando vermelho. Michel Alcoforado
Já ao lembrar Batismo de Sangue, de Frei Betto, ele disse que leu o livro quando tinha 16 ou 17 anos, no período em que estudava a ditadura militar e militava no movimento secundarista. Na conversa, ele destacou o relato sobre a articulação da sociedade civil e a participação de freis ligados à Teologia da Libertação.
Li o Batismo de Sangue do Frei Betto, que pra mim é o melhor dos três. Esse livro mostra não só aquele período do Brasil muito duro por conta da ditadura militar, mas como é que a sociedade civil foi se articulando. Foi se articulando no movimento estudantil, mas também dentro da igreja. Michel Alcoforado
O autor também citou Cidade Partida, de Zuenir Ventura, como uma leitura de adolescência que o fez enxergar as "cisões invisíveis" do Rio e o aproximou do desejo de ser jornalista. Ele disse que o livro, ligado ao contexto de chacinas e mobilizações na cidade, abriu uma janela para uma 'outra cidade' além do cartão-postal.
Para um jovem, do lado de cá da cidade, entender de forma clara que tinha uma outra cidade ali, que não tinha a imagem do cartão postal, de forma tão sistemática, me foi uma baita viagem. Isso, pra mim, foi importantíssimo, porque ali eu comecei a achar que eu tinha que ser jornalista. Michel Alcoforado
Ao longo do episódio, Michel Alcoforado citou uma lista de leituras que passaram pela vida dele e ajudaram a formar seu olhar sobre o Brasil, a política e as desigualdades. Entre os títulos mencionados, estão obras de autores brasileiros e estrangeiros, de diferentes gêneros e épocas.
Na conversa, ele destacou Batismo de Sangue, de Frei Betto, como um marco do período em que militava e buscava entender a ditadura militar. Também lembrou Cidade Partida, de Zuenir Ventura, como leitura de adolescência que o fez perceber uma cidade atravessada por fronteiras sociais. E citou Abusado - O dono do morro Dona Marta, de Caco Barcellos, como um livro que o colocou em contato com um mundo que ele conhecia pouco.
Ele ainda mencionou outros livros que marcaram sua trajetória, como Verdade Tropical (Caetano Veloso), Carnavais, malandros e heróis (Roberto DaMatta), Utopia urbana (Gilberto Velho), Por um feminismo afro-latino-americano (Lélia Gonzalez), O Acontecimento (Annie Ernaux), O Mago (Fernando Morais) e Argonautas do Pacífico Ocidental (Bronislaw Malinowski).
Quer conhecer alguém de verdade? Descubra o que a pessoa lê (ou já deixou de ler). Neste programa, a escritora e roteirista Tati Bernardi visita a casa de personalidades conhecidas para conversar sobre suas relações com a literatura, da obra favorita àquela nunca terminada.
Tati também segue comandando o Desculpa Alguma Coisa, toda quarta-feira, no YouTube de Universa e no Canal UOL.
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