Gestores se preparam para forte alta de ativos locais na abertura dos mercados

“Já é Flávio na Austrália”, disse o sócio de uma importante asset em condição de anonimato, com pouco mais de uma hora de apuração dos votos do primeiro turno.

Pouco depois do fechamento das urnas, os modelos monitorados por participantes do mercado com base em votações anteriores já começavam a indicar com clareza que Flávio Bolsonaro (PL) terminaria o primeiro turno à frente do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

Antes do pleito, esse cenário já era acompanhado pelos investidores, mas nem de longe considerado o de maior probabilidade. Na sexta-feira, os ativos domésticos precificavam Lula com 2 a 3 pontos à frente, mas, na maioria das assets e tesourarias da Faria Lima, havia um sentimento de que a disputa seria bem mais apertada e, até por isso, investidores já se prepararam para um rali no pregão desta segunda-feira.

Pelo visto, o movimento dos ativos será ainda mais forte.

Em conversas com participantes do mercado, houve quem apontasse para a chance de uma queda de até 5% do dólar frente ao real e a possibilidade de uma queima relevante de prêmios no mercado de juros, que poderia chegar a 1 ponto percentual.

Seriam movimentos muito relevantes de alívio no mercado e que não são vistos há muito tempo. Nos últimos seis anos, a maior queda diária do dólar frente ao real ocorreu logo após o primeiro turno de 2022, quando a moeda americana recuou 4,07% contra a divisa brasileira.

O mercado, na prática já deve considerar a fatura como liquidada. E, assim, pode partir para uma segunda etapa de monitorar promessas de Flávio para a área fiscal e possíveis nomes para a área econômica.

Na leitura de um importante tesoureiro na Faria Lima, só um milagre — ou algum escândalo de proporções não imaginadas no momento — pode impedir uma eleição de Flávio. E, por isso, os ativos domésticos ainda podem guardar espaço de ajuste para depois do segundo turno.

Para alguns gestores, traders e tesoureiros ouvidos nos últimos dias, a lua de mel com o possível governo Flávio dependerá do exterior, mas deve ser duradoura e os ativos domésticos devem trabalhar com prêmios de risco mais baixos nos próximos meses.

Investidores irão retirar dos preços alguns fatores que levaram o mercado a exigir prêmios mais altos nos últimos anos, como uma política fiscal bastante estimulativa e uma política parafiscal ativa, que ajudou a elevar a taxa de juros de equilíbrio. Não por acaso, nos últimos meses, gestores de renda variável foram bem mais vocais em relação à necessidade de mudança de política econômica.

A visão de que a política fiscal deve ser mais responsável em um governo Flávio é unanimidade na Faria Lima. No entanto, há quem alerte que uma melhora tão expressiva na gestão das contas públicas não deve nem de perto se concretizar.

Isso, porém, não deve nem de perto abalar a lua de mel, que deve tornar o mercado mais tolerante à espera de novidades sobre como Flávio irá lidar com a questão fiscal. Além disso, outros aspectos, como uma maior desregulação em algumas áreas da economia e a possibilidade de redução de impostos.

“É o mercado se preparando para um choque de confiança. Isso vai fazer o Flávio ganhar tempo”, diz um gestor, ao lembrar que juros reais mais baixos também já devem ajudar na condução da dívida. Resta saber quanto tempo Flávio terá.