Caio Perfeito, 22, e Guilherme Araújo, 22, foram colegas de colégio, permaneceram amigos e hoje fazem ponto no mesmo local, na Zona Oeste de São Paulo, na espera por chamadas de aplicativo. Um votou no senador Flávio Bolsonaro (PL) e o outro, no presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), mas nenhum dos dois votou com convicção. Preferiam escapar da guerra entre as duas torcidas, mas não viram chances nos nomes da terceira via. Na parada da avenida Rebouças, onde se concentravam entregadores na manhã deste domingo de votação, há um mapa para a rota a seguir se os finalistas pretendem celebrar vitória no segundo tempo da batalha eleitoral.
“Queria que o Brasil fosse para a direita porque a dívida pública só aumenta”, diz Caio, que preferia Romeu Zema (Novo), mas votou em Flávio para não ‘perder’ seu voto. Filho de um casal de corretores de seguros e formado em gestão financeira, trabalhava de carteira assinada até o mês passado como assistente de controladoria de uma rede de restaurantes. Diz que seu voto é movido pela situação do país, mas avalia como boa sua situação pessoal.
Informa-se pela rede social, com a família e nas suas andanças. Não acompanha o noticiário pela imprensa e não gosta quando os pais, ambos bolsonaristas, brigam por política. Votou em Jair Bolsonaro em 2018, mas não lembra de cor melhorias promovidas por seu governo, nem tampouco vê avanços no governo Lula: só o “aumento da dívida pública”. Aposta, com serenidade que Lula, a despeito de não ser seu eleitor, vai ganhar: “Quem é de baixa renda apoia”.
Guilherme Araújo aguarda o amigo terminar seu depoimento sem interferir. Eleitor de Bolsonaro em 2018, votou em Lula neste domingo. Cita Prouni como feito e Lava-jato e Mensalão como pecados petistas. Diz que o governo Bolsonaro foi afetado pela pandemia, mas não se lembra de entregas de seu governo: “Ele não ajudou o povo, Lula é o menos pior”. Formado em desenvolvimento de sistemas, trabalha com carteira assinada e faz bico como entregador nas horas vagas.
A mãe é autônoma e o pai, com quem nunca chegou a morar, advogado. A exemplo de Caio, informa-se pelas redes sociais. Nunca discutiu política na faculdade nem costuma fazê-lo com amigos. Se Augusto Cury (Avante) tivesse chance, votaria nele. Diz que a maioria dos entregadores não votam em Flávio porque muitos já sofreram abordagem de policiais e temem que a violência contra eles aumente sob um governo federal linha dura na segurança. “Lula vai ganhar, Flávio é candidato dos empresários”.
Eduardo Almeida, 23, é bem mais enfático. Estudou até o ensino médio, trabalha como entregador e, nas horas vagas, faz bico como designer, atividade em que é autodidata. Ex-menor infrator, cumpriu pena na Fundação Casa, reconhece que se desencaminhou e hoje engrossou. Sentia-se mais seguro quando a Rota estava na rua, mas desconhece que o policiamento das ruas é atribuição estadual. Assim como o ensino médio, do qual também se queixa.
Votou em Lula em 2022, arrependeu-se e gostaria de votar agora no ‘mito’. Diz que Flávio “não é nada” perto do pai, mas aprova a castração química de estupradores que acredita ser possível no governo do candidato do PL, além da redução da maioridade penal e da pena de morte para homicidas e para aqueles que cometem latrocínio (roubo seguido de morte). “Tenho um amigo que foi preso por não pagar pensão e conheço um monte de criminoso que está solto por aí”.
Discutiu com a mãe antes de sair de casa na manhã deste domingo porque ela, eleitora de Bolsonaro em 2018, agora vai votar em Lula. Coloca a mãe e os colegas que votam no PT no balaio de alienados por acharem que o presidente fez mais. Desconhece a inflação, superior nos quatro anos de Bolsonaro, mas diz que a família tinha mais dinheiro na pandemia, quando todos fizeram confinamento, mas tanto a mãe quanto a irmã receberam Auxílio Brasil. Diz que se a pandemia acontecesse no governo Lula, passariam fome. Desconhece que no governo Bolsonaro o Brasil voltou para o mapa da fome, segundo a ONU. Queixa-se dos impostos que vê discriminados na nota fiscal e da relação entre a dívida do país e o PIB que, segundo acredita, está em 100% (é de 82,9%).
Aproveita o gancho para se queixar do comportamento ‘debochado’ de Lula. E cita a sabatina no Jornal Nacional quando o presidente, confrontado por Renata Vasconcelos sobre o que faria para reduzir a dívida/PIB, que cresceu em seu governo, respondeu que não acreditava que uma jornalista tão bem informada estivesse a fazer aquela pergunta. “Eu que não me conformei com aquele comportamento do presidente”. Eduardo diz que usa o site da BBC como seu principal meio de informação. Não votou, em função do acúmulo de multas eleitorais, e espera regularizar seu título para as próximas eleições.
Pular 4 fotos Pular O que os ciclistas e motociclistas de aplicativos esperam do 2º turno Rafael Pereira, 28, tampouco votou. Faltou tempo. Diz votar em partido pequeno, a despeito de não se lembrar a quem deu o voto em 2022. No segundo turno, seu voto foi de Lula, mas diz estar frustrado pela economia. Preferia ter outras opções, mas se fosse votar, iria de Lula de novo. Trabalha só em aplicativo, mas gostaria de fazer faculdade na área de tecnologia. Queixa-se de políticos que asfaltam ruas planas e deixam crescer as crateras das esburacadas. Agrada-lhe o fim da jornada 6x1 a despeito de não ser celetista. Indagado sobre as bets, queixa-se de sua liberação, ainda que não saiba identificar o governo Michel Temer como responsável pelo feito. É a favor da proibição, mas acha difícil que se mantenha pelo que vê como uma sociedade dos políticos com as casas de apostas.
Gabriel Menezes, 28, diz que aposta de vez em quando, mas reconhece: “mais perco que ganho”. “A gente não sabe parar, é movido pela ganância”. Diz que muita gente se revoltou contra a medida do governo de acabar com as bets porque acompanha influenciadores que ganham dinheiro das bets e não gostaram da proibição. Trabalha com carteira assinada num açougue, mas não conseguiu terminar o ensino médio porque precisa ajudar os pais, ambos analfabetos, a mãe diarista e o pai, auxiliar de pedreiro, além de manter a filha de dois anos e meio. Votou em Lula em 2022 e repetiria sua escolha se tivesse transferido o voto de Santos para a capital paulista.
Cita de cor programas de Lula para tirar o Brasil do mapa da pobreza. E também os erros de Bolsonaro: “Segurou as vacinas, bebês e idosos morreram”. Diz que Flávio ‘é ainda pior’ que o pai. Teme que o senador, se eleito, desfaça o que Lula fez e retire o Bolsa Família que a mãe recebe: “Vão tirar, recriar com outro nome mas não vai ser igual”. Espera que Lula ajude quem é CLT e que o fim da jornada 6x1 chegue ao fim. “Só tenho um dia de folga e mal consigo descansar”.
Acompanha o noticiário pela Rede Globo e pelo G1, vê Flávio Bolsonaro envolvido com corrupção e diz que seus colegas não são convencidos por argumentos por terem ‘ódio’ a Lula, que, diz, aumentou depois de sua prisão: “Só se referem a ele como presidiário”.




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