Por Anna Lúcia Silva, g1 Centro-Oeste de Minas — Itapecerica
06/09/2026 07h00 Atualizado 06/09/2026
O porão de uma antiga senzala no Hotel Fazenda Palestina, em Itapecerica, virou um memorial. O espaço preserva a história das pessoas negras escravizadas na região.
A iniciativa integra a série especial do g1 sobre Itapecerica. O local, associado ao ciclo do ouro e agropecuária, hoje funciona como empreendimento de turismo rural.
O memorial busca impedir o apagamento histórico da escravidão local. Painéis retratam o trabalho forçado na mineração, na agricultura e as fugas para os quilombos.
A historiadora Erivelta Diniz destaca que a memória escravagista permanece viva na cultura do município. Manifestações como o Reinado de Itapecerica mantêm viva essa ancestralidade.
O memorial está aberto para hóspedes e visitantes mediante agendamento prévio. O hotel fazenda oferece também a Trilha do Ouro, percurso usado por escravizados no período colonial.
Antiga senzala em fazenda é transformada em memorial da escravidão em Itapecerica
No porão de um antigo casarão colonial de Itapecerica, paredes de pedra, madeira e terra guardam uma parte dolorosa da história do Brasil. O espaço que um dia foi utilizado como senzala hoje abriga um memorial dedicado às pessoas negras escravizadas que viveram e trabalharam no local.
O espaço fica no Hotel Fazenda Palestina, propriedade histórica que remonta ao período colonial e está associada à exploração do ouro e, posteriormente, à atividade agropecuária. Hoje transformada em empreendimento de turismo rural, a fazenda preserva parte de sua estrutura antiga, inclusive o espaço onde pessoas escravizadas eram mantidas.
Esta é a quarta reportagem da série especial “Itapecerica: Sabores, Sons e Memórias”, que o g1 apresenta todos os domingos. Em cada capítulo, mostramos diferentes aspectos da história, da cultura e das tradições que ajudam a contar sobre a identidade do município. Desta vez, o olhar se volta para um dos capítulos mais dolorosos dessa história: a escravidão e a memória das pessoas negras escravizadas, preservada neste antigo espaço que hoje abriga um memorial.
Casarão do Hotel Fazenda Palestina em Itapecerica, onde no porão havia uma senzala — Foto: Anna Lucia Silva/g1
A proposta do memorial é justamente impedir que essa parte da história seja apagada ou até mesmo romantizada.
Ao invés de contar apenas a história do casarão, dos antigos proprietários ou dos ciclos econômicos que passaram pela fazenda, o espaço coloca em evidência aqueles que foram submetidos à exploração e cujo trabalho foi fundamental para a economia daquele período.
A própria história apresentada no memorial afirma que a escravidão em Itapecerica esteve relacionada ao período colonial e à exploração do ouro. O material também registra a presença de pessoas escravizadas na construção de templos religiosos, o trabalho forçado na mineração e na agricultura e as formas de resistência, incluindo a fuga para quilombos.
Um passado que não pode ser romantizado
Para a historiadora Erivelta Diniz, é importante fazer uma distinção: as antigas senzalas não são apenas uma construção histórica preservada. Elas representam um sistema que transformou seres humanos em propriedades, submeteu homens, mulheres e crianças à violência, ao trabalho compulsório, à separação de famílias e a diferentes formas de punição.
"A existência desse espaço dentro de uma fazenda histórica ajuda a compreender que a escravidão não foi uma realidade distante ou restrita a grandes centros mineradores. Ela esteve presente também no interior de Minas Gerais e participou diretamente da formação econômica e social de municípios como Itapecerica", destacou Ertivelta.
A historiadora também aponta que efeitos da escravidão também permanecem na cultura local. "Se observarmos com sensibilidade percebemos a ancestralidade, resistência e recriação no próprio Reinado de Itapecerica, em que os sofrimentos vividos durante o período escravista continuam presentes através da memória revivida nos cantos, rituais e manifestações culturais e religiosidade", disse.
Documentos ajudam a reconstruir essa história



0 Comentário(s)
Deixe seu comentário