Cantor faz apresentação no Brasil no próximo dia 7, parte de uma aclamada turnê de despedida que, ironicamente, o renovou

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Elton John, aos 79, surpreende ao retornar aos palcos com shows no Rock in Rio e México, após sua megaturnê de despedida. Apesar da perda de visão e o desejo de estar com a família, o ícone se reinventa com novos trabalhos, um filme aclamado e um podcast, provando que sua ligação com a plateia é inquebrável. O “último showman” continua em cena.

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O adeus de Elton John aos palcos parecia definitivo. Com a perda progressiva da visão — problema que já tomou todo o olho direito — e o desejo de passar mais tempo com a família, o cantor inglês apresentou, entre 2018 e 2023, os 330 shows da megaturnê de despedida Farewell Yellow Brick Road. Sucesso absoluto, ela arrecadou 939 milhões de dólares — sendo hoje a terceira mais rentável da história, atrás apenas de Taylor Swift e Coldplay. A aposentadoria, porém, não se cumpriu (ufa!). Na segunda-feira 7, o astro de 79 anos volta aos palcos com um show no Rock in Rio, sua terceira passagem pelo festival carioca e, provavelmente, sua última apresentação no país. O compromisso remedia a ausência da América Latina na agenda de sua itinerância derradeira — e ainda abre espaço para outro país: o México receberá dois shows do cantor em outubro.

Clichê da indústria musical, as turnês de adeus raramente são definitivas. Elton não fugiu à regra: incansável, ele é um reconhecido dependente da relação com a plateia. No processo de quase uma década de despedida, o pianista, vejam só, teve a audácia de se renovar. Paralelamente à turnê, lançou a aclamada cinebiografia Rocketman (2019), emplacou múltiplos hits com o disco The Lockdown Sessions (2021), no qual refez seus sucessos ao lado de Dua Lipa e Britney Spears, e ainda compôs o excelente álbum Who Believes in Angels? (2025) com a conceituada cantora Brandi Carlile e Andrew Watt, produtor cobiçado do meio, que trabalhou recentemente com Lady Gaga, Paul McCartney e Rolling Stones. Antenado, ainda apresenta um podcast, o Rocket Hour, no qual divulga trabalho alheio e entrevista novatos. “Se eu não tocar essas músicas, quem vai?”, disse.

O diálogo com todas as idades expõe a roda movimentada por ele: precursor do que viriam a ser as estrelas do pop, Elton inspirou as gerações nas quais, hoje, ele mesmo se apoia em busca de reinvenção. Como evidenciou a apresentação em uma de suas festas beneficentes ao lado da cantora Chappell Roan, com quem entoou Pink Poney Club, hit viralizado pela rede TikTok. Segundo ela, o conselho mais valioso que recebeu do mestre é simples: “As músicas vão vir. Ele pensava que não teria ideias para as composições, mas basta se abrir a elas”.

Sobrevivente da era mais glamourosa do rock, Elton concebeu os megasshows que hoje são moda e cravou seu lugar como a estrela a ser emulada pelas gerações por vir. Reza a lenda que seu amigo John Lennon ficou de queixo caído após ser convidado a tocar com ele em 1974 no Madison Square Garden, em Nova York. O ex-­beatle acabou estonteado com os malabarismos do cantor ao piano, com suas vestes espalhafatosas e com a aparelhagem impressionante. No palco, Lennon desabafou: “Estamos pensando qual vai ser a última música, para que eu possa sair daqui e vomitar de nervoso”. No ano seguinte, Elton iria além e seria o primeiro artista solo a reunir mais de 110 000 pessoas em um estádio, evento que canonizou a fantasia de jogador de beisebol brilhante e o padrão de qualidade visual e de entretenimento que ainda sobrevive.

Produzido junto da escrita da autobiografia Eu, Elton John, publicada em 2019, o documentário Never Too Late chegou ao streaming Disney+ em 2024 como mais um complemento da infindável despedida. Nele, o músico atribui a extroversão à infância atribulada, quando era agredido pelos pais, excluído por colegas e só se sentia empoderado ao impressionar os outros no piano, dedilhando gêneros como ragtime, funk e blues. Passou a tocar em um bar aos 15 anos e conheceu o amigo e parceiro de composição Bernie Taupin aos 20, dando início a uma das mais prolíficas simbioses da música, berço de 33 álbuns de estúdio. Foram poucos os discos feitos sem o fiel escudeiro, em sua maioria trilhas sonoras como a de O Rei Leão, com letras de Tim Rice.

Enquanto dribla a aposentadoria, Elton reflete sobre o passado e não se ilude diante do inevitável, ainda mais quando encara os filhos Zachary e Elijah, de 15 e 13 anos, respectivamente. Na faixa de encerramento do disco recente, When This Old World Is Done with Me, ele ensaia uma elegia fúnebre em forma de desabafo altruísta: “Quando este velho mundo estiver farto de mim, saiba que eu vim até aqui para ser quebrado em pedacinhos e espalhado nas estrelas”. A gravação melancólica exigiu uma pausa de 45 minutos para que o artista se debulhasse em lágrimas no estúdio. Depois, voltou atrás e cravou: aquela não seria sua composição final. O último showman nasceu para o palco.

Publicado em VEJA de 4 de setembro de 2026, edição nº 3011