Uma diferença marcante entre as duas maiores vertentes cristãs é a relação com os santos: enquanto católicos os veneram como exemplos de fé, evangélicos veem aí uma forma de idolatria, pois a Bíblia ensina que a adoração deve ser direcionada apenas a Deus. Leia mais (06/23/2026 - 06h00)
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Anna Virginia Balloussier
Uma diferença marcante entre as duas maiores vertentes cristãs é a relação com os santos: enquanto católicos os veneram como exemplos de fé, evangélicos veem aí uma forma de idolatria, pois a Bíblia ensina que a adoração deve ser direcionada apenas a Deus.
Chega junho, e a divergência doutrinária ganha contornos bem práticos para milhões de brasileiros que se declaram evangélicos: e participar dos festejos de são João, as tradicionalíssimas festas juninas, pode?
É uma discussão que envolve cultura popular e interpretação da Bíblia. E aqui as igrejas evangélicas se dividem. As mais rígidas vetam a presença do fiel e ponto. As mais flexíveis criam alternativas como o Arraiá Gospel, promovido todo ano em várias unidades da Renascer em Cristo —o de 2026 será no sábado (27).
Para o apóstolo Estevam Hernandes, líder da igreja, é tipo separar joio de trigo. A versão católica "está atrelada aos santos, e a evangélica, somente à parte festiva, com pipoca, pinhão e quadrilhas", diz.
Ele está alinhado à parcela evangélica que não vê por que ficar de fora de uma manifestação cultural já dissociada de seu caráter estritamente religioso. O que importa é filtrar elementos tidos como neutros e compatíveis com a fé do grupo, e adaptar o que der para adaptar.
A Assembleia de Deus Vitória em Cristo, do pastor Silas Malafaia, organiza sua Festa Jesuína. A embalagem é a mesma de tantas festividades caipiras, como o evento produzido por uma filial em Curitiba que anuncia "um dia pra lá de bão, um dia abençoado d+ da conta, sô" e até "um cantinho instagramável para tirar aquela foto marota".
A Igreja Batista Atitude, onde a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro ia quando morava no Rio, tem a sua Festa da Roça. Em 2025, o pastor Josué Valandro Jr. prometeu usá-la para evangelizar: "E ali vai ter uma igreja tão fera, mas tão fera, que, nesta Barra da Tijuca, quem não quiser se converter vai ter que se mudar!".
Em Aracaju, o tradicional Forró Caju conta com uma noite inteira dedicada ao repertório cristão, no Forró Caju Gospel. Outras muitas festas se espraiam Brasil afora, podendo inclusive servir crentão, uma versão sem álcool do quentão.
Os arraiais evangélicos contam com playlist própria. A paraense Som e Louvor, que surgiu numa Assembleia de Deus local, tem forrós como "Nunca Foi Sorte, Sempre Foi Deus". A banda defende usar estilos musicais populares na evangelização: "Já ouvimos muito falar que o diabo é o pai do rock, reggae, do forró e de vários outros, quem disse? A única coisa de que ele é pai é da mentira."
A economista Deborah Bizarria, colunista da Folha, se lembra das tantas vezes que celebrou a data com os primos no sertão de Pernambuco, com direito a fogueira e traque-traque, que em outros cantos do país ganha nomes como biribinha e estalinho. Conta que sua identidade evangélica nunca foi um empecilho —no máximo, ela deixava de participar de festejos dedicados a santos na escola católica onde estudou. "Eu ia mais cedo pra casa."
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Neste junho, o encontro mensal de jovens da Comunidade da Vila, a igreja presbiteriana que frequenta em São Paulo, encoraja os participantes a levar comidas típicas e se vestir como caipira.
"Festa junina ou São João é uma festa que nos lembra do passado agrário do Brasil", afirma Bizarria. "Claro, o catolicismo está presente nessa longa tradição. Eu entendo que evangélicos de cidades onde as festas têm cunho mais religioso apresentem mais resistência. Mas, em outros lugares, sobretudo nas grandes cidades, não há nada de contraditório em ser crente e ir a uma festa junina."


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