Até 2030, o setor de mineração no Brasil deve receber US$ 76,9 bilhões em investimentos, um aumento de 12,5% em relação à previsão do período 2025-2029. A estimativa é de US$ 21,3 bilhões para os chamados minerais críticos e estratégicos (como grafita, vanádi…
Até 2030, o setor de mineração no Brasil deve receber US$ 76,9 bilhões em investimentos, um aumento de 12,5% em relação à previsão do período 2025-2029. A estimativa é de US$ 21,3 bilhões para os chamados minerais críticos e estratégicos (como grafita, vanádio, nióbio, cobre, níquel, terras raras, bauxita, lítio, titânio e zinco), o que representa um aumento de 15,2% para esses minerais, comparativamente ao período de 2025-2029 (US$ 18,5 bilhões).
O minério de ferro deve receber US$ 19,8 bilhões (1,1% mais em relação ao período anterior) e, na terceira posição, a área socioambiental deve ser destino de US$ 14,7 bilhões, alta de 29,7% em relação ao período 2025-2029. A distribuição dos investimentos revela uma transformação na mineração brasileira: durante décadas, os aportes estiveram concentrados na expansão da produção de minério de ferro, e, embora o segmento mantenha-se entre os três principais itens da pauta de exportação, a corrida global por insumos estratégicos para a geração de energias renováveis, carros elétricos e baterias traz novas perspectivas.
“A transição energética sinaliza que o mundo vai precisar muito da mineração”, diz Rinaldo Mancin, diretor de sustentabilidade e assuntos associativos do Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram — entidade cujos associados respondem por mais de 85% da produção mineral brasileira). Outra mudança estrutural é o aumento de quase 30% nos investimentos sociais e ambientais até o fim da década, sinalizando que a régua da sustentabilidade subiu e hoje é um dos fatores que compõem a competitividade em relação às novas e crescentes exigências de investidores, reguladores e mercados consumidores.
Essa tendência é global. Mas, no caso brasileiro, foi impulsionada pelos desastres envolvendo o rompimento das barragens de Mariana (2015) e Brumadinho (2019), que, juntos, causaram a morte de 291 pessoas e incontáveis impactos ambientais. Depois deles, a legislação tornou-se mais rigorosa em relação ao descomissionamento de barragens de rejeitos, o setor adotou maior transparência em relação aos riscos envolvendo essas estruturas e os aportes de capital a mineradoras passaram a ser condicionados ao desempenho em critérios ambientais, sociais e de governança (ESG).
O recorte Brasil da pesquisa “Top 10 business risks and opportunities 12 for mining and metals”, estudo global publicado em abril de 2026 pela consultoria global EY, corrobora essa percepção.
A chamada “licença para operar” está entre os três principais temas do setor de mineração, atrás de capital (primeira posição) e aumento dos lucros e produtividade, em segundo lugar. Os fatores ESG ocupam a sétima posição entre os temas mais importantes levantados pelos 500 executivos entrevistados do setor de mineração e metais.
De acordo com Ricardo Assumpção, líder de sustentabilidade e ESG para América Latina da EY, hoje, é esperado que as mineradoras não só compensem os impactos ambientais de suas operações, mas também assumam a responsabilidade de construir uma proposta de geração de valor compartilhado nos territórios.
“Isso se faz criando novas fontes de receita, novas cadeias de fornecimento, fomento à empregabilidade e capacitação, infraestrutura e uma estratégia para o pós-fechamento das minas”, diz Assumpção.
Outra pesquisa recente, elaborada pela Agenda Pública em parceria com o Ibram e o Ministério de Minas e Energia (MME), aponta que, embora os municípios mineradores contem com reforços orçamentários, a aplicação desses recursos nos territórios é desigual, de modo que nem sempre a riqueza da mineração se traduz em melhores indicadores socioambientais. O levantamento listou 79 municípios brasileiros em que o principal royalty pago pela mineração, a Compensação Financeira pela Exploração de Recursos Minerais (Cfem), representou pelo menos 5% da receita total municipal em algum ano entre 2018 e 2025. Os pesquisadores analisaram oito dimensões, tais como saúde, educação e infraestrutura.
Para Sergio Andrade, diretor-executivo da Agenda Pública, organização que atua no fortalecimento de políticas públicas, o estudo demonstra que a licença para operar da mineração estará, cada vez mais, ligada à habilidade das empresas de equilibrar as demandas das populações com a construção de capacidade para lidar com os ciclos da atividade.
“Depois de Brumadinho e Mariana, nada será como antes. A mineração hoje passa por um escrutínio maior e precisa provar que consegue tanto operar no cotidiano quanto construir um legado de longo prazo para o território”, afirma.
Isso passa, por exemplo, por fundos anticíclicos — mecanismos de reserva estruturados para proteger a economia de Estados e municípios mineradores contra as oscilações bruscas do mercado de commodities e a futura exaustão das jazidas, além de contribuir para o planejamento da transição local para outras atividades econômicas.
Para os executivos que comandam áreas de gestão e ESG nas mineradoras, a sustentabilidade passou do estágio de compliance para uma dimensão estratégica, que precisa de padrões e transparência para ser comprovada. A Vale foi a primeira mineradora no Brasil a adotar as normas IFRS S1 e S2, padrões internacionais criados pelo International Sustainability Standards Board (ISSB), que orienta empresas na divulgação de informações sobre riscos e oportunidades relacionados à agenda ESG e clima.
A obrigatoriedade do relatório foi suspensa em maio deste ano pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM), mas a empresa optou por continuar utilizando o padrão como ferramenta de comunicação com o mercado, de acordo com Grazielle Parenti, vice-presidente-executiva de sustentabilidade da Vale. “Durante nossas interações recentes com investidores na Europa, a palavra que mais ouvimos foi transparência. O relatório traduz, de forma pragmática, os riscos, oportunidades e resultados financeiros das iniciativas socioambientais e como a descarbonização é, hoje, um diferencial competitivo para a Vale”, diz.
A demanda por produtos com menor teor de carbono deve favorecer o minério brasileiro no cenário crescente de precificação das emissões, como o mecanismo de ajuste de carbono na fronteira (CBAM, na sigla em inglês) da União Europeia, que entrou em vigor em janeiro deste ano. Isso tem levado as empresas a uma corrida para aumentar a produção de itens como o pellet feed, minério de maior pureza e valor agregado que ajuda a reduzir as emissões da siderurgia em até 50%.
Com teor de ferro entre 67% e 68%, o produto é o carro-chefe do Sistema Minas-Rio da Anglo American, que conecta via mineroduto as minas localizadas em Conceição do Mato Dentro e Alvorada de Minas até o terminal do Porto do Açu, em São João da Barra (RJ).
“Hoje, o minério de ferro premium ocupa um papel estratégico no mercado global, contribuindo para a descarbonização da cadeia do aço e para o avanço da transição energética”, diz Ana Cunha, diretora de assuntos corporativos e sustentabilidade da Anglo American. O avanço rumo a uma mineração mais sustentável em meio ao cenário geopolítico turbulento, marcado por guerras e tarifaços, passa por incorporar eficiência e circularidade nos processos, na avaliação de Sérgio Botelho, diretor-executivo da Mineração Serra Azul, que faz parte do grupo ArcelorMittal.
A substituição das barragens de rejeitos por outras tecnologias de disposição, a reutilização e comercialização de coprodutos, o uso da sucata como insumo na produção do aço (hoje, cerca de 60% de aços do segmento de longos já são produzidos via sucata), a eficiência energética e a introdução da inteligência artificial (IA) para reduzir perdas contribuíram para aumentar a competitividade das operações tanto de mineração quanto de siderurgia.




0 Comentário(s)
Deixe seu comentário