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IA Arte/Pipoca Moderna

A perseguição a eleitores de Luiz Inácio Lula da Silva ganhou uma dimensão que ultrapassa a disputa política após a reeleição do presidente no domingo (25/10). Nas redes sociais, a humilhação de adversários virou conteúdo para influenciadores com milhares de seguidores, enquanto parlamentares incentivam boicotes comerciais e demissões por preferência eleitoral. Um humorista perdeu trabalho e recebeu ameaças depois de ser insultado por um deputado federal. Uma criança de nove anos foi constrangida por uma influenciadora que filmou a cena para o Instagram. Fora das telas, o governo federal contabilizou 45 episódios de violência política entre sábado (24) e quarta-feira (28), com 47 vítimas e dez mortes, três delas de indígenas. O balanço reúne crimes com possível motivação eleitoral que ainda estão sob investigação. A escalada também levou o Ministério Público do Trabalho a registrar mais de 3.500 denúncias de assédio e pedir a responsabilização da Meta pela circulação de conteúdos discriminatórios.

Um dos episódios mais reveladores dessa transformação do constrangimento em espetáculo aconteceu no Mercado dos Peixes, em Fortaleza. A influenciadora Valéria Diniz, de 25 anos, estava com amigas quando Matheus, de nove, aproximou-se da mesa para vender balas e bombons. Em vez de simplesmente recusar a compra, Valéria decidiu perguntar sobre a preferência política da família e gravar a abordagem. Depois que o menino mencionou Lula, ela mandou que fizesse o gesto associado ao presidente. “Votou em quem? No Lula? Faça o L. Pronto. Não quero, não. Obrigada”, disse, sob risadas das acompanhantes.

O vídeo foi publicado nos Stories do Instagram na quarta-feira (28), acompanhado de uma provocação: “Vai na mamãe e manda ela fazer o L”. Matheus perdeu a mãe e mora com a avó, Inês de Maria do Nascimento, em Caucaia, na Região Metropolitana de Fortaleza. A criança é autista e vende doces para ajudar nas despesas familiares. Não há indicação de que Valéria soubesse da morte de sua mãe. A avó contou à TV Cidade que o neto retornou abalado, sem conseguir explicar o que havia acontecido. “Ele não disse nada. Ele não falou, mas ficou com os olhos cheios de lágrimas”, relatou.

A repercussão mobilizou motociclistas, entregadores e moradores da região, que foram à casa de Matheus na quinta-feira (29), compraram seus produtos e levaram presentes e alimentos. Valéria, que havia manifestado apoio a Flávio Bolsonaro nas eleições, publicou um pedido de desculpas e afirmou que não pretendia humilhar o menino. Seu perfil, que reunia cerca de 70 mil seguidores, saiu do ar, sem esclarecimento sobre a suspensão.

A retaliação pública atingiu também Bruno Motta, conhecido por seu trabalho no stand-up e pela criação de “Gongada Drag”, espetáculo que reúne artistas drag queens e convidados em apresentações de humor. Na quarta-feira (28), o comediante de 46 anos contou no X que havia perdido um contrato para atuar como mestre de cerimônias num evento empresarial por causa de suas manifestações políticas. Segundo ele, o cachê pagaria dois meses das despesas de sua produção. O episódio o assustou pela primeira vez em 25 anos de carreira. Sua mãe telefonou chorando e relembrou os tempos da ditadura militar, preocupada com o futuro do filho.

O relato foi compartilhado pelo deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG), parlamentar mais votado do Brasil e um dos principais nomes do bolsonarismo nas redes sociais. Com mais de 22 milhões de seguidores no Instagram, Nikolas respondeu à perda profissional com um insulto: “Os fascistas não querem sustentar mais vocês. Bem vindo a nova era, petista safado”. O deputado também republicou a reclamação do humorista nos Stories, com uma provocação sobre seu medo.

A exposição foi seguida por milhares de mensagens dirigidas ao artista. Em entrevista à jornalista Larissa Ricci, do Metrópoles, Bruno relatou ameaças de agressão caso fosse reconhecido na rua ou durante suas apresentações. “Ameaças de violência quando me encontrarem ou forem nos shows. Tem de tudo”, afirmou. O comediante, que já trabalhou no “Furo MTV”, participou do “Improvável”, dos Barbixas, e se apresentou em programas de Jô Soares e Fábio Porchat, criticou o comportamento do parlamentar. “Não acredito que é isso que um deputado eleito deva fazer”, declarou ao UOL.

A manifestação contra Bruno Motta aconteceu enquanto Nikolas defendia uma campanha para que eleitores de direita deixassem de comprar produtos e contratar serviços de empresas e profissionais associados à esquerda. O deputado chegou a desafiar comerciantes a identificar publicamente suas preferências políticas, com uma imagem que mostrava uma bandeira do PT na fachada de uma loja. “Você que é comerciante de esquerda. Desafio lançado: coloque a bandeira do PT no seu estabelecimento”, escreveu.

Outros políticos passaram da convocação ao boicote para o incentivo explícito à demissão. O vereador de Curitiba e deputado federal eleito Guilherme Kilter (Novo-PR) publicou um vídeo orientando empresários a dispensar funcionários petistas. “Se você precisa fazer um corte de gastos ou uma reestruturação da sua empresa, comece pelos petistas”, declarou. O Ministério Público do Trabalho do Paraná recomendou que ele retirasse as publicações e se retratasse. Kilter contestou a medida e alegou imunidade parlamentar.

Em São Paulo, o suplente de deputado federal Victor Ruiz (PL) também estimulou empresários a investigar as redes sociais dos empregados para identificar quem havia votado em Lula. Numa das publicações, orientou a demissão de funcionários que tivessem feito o “L”. Depois da repercussão, passou a recomendar que os empregadores não revelassem a motivação política dos desligamentos.

O Ministério Público do Trabalho recebeu 3.529 denúncias de assédio eleitoral em 2026 até a tarde de quinta-feira (29), superando os 3.373 registros de todo o processo eleitoral de 2022. Somente em outubro foram aproximadamente 2,7 mil denúncias, concentração que levou o governo federal a organizar uma força-tarefa envolvendo órgãos trabalhistas, eleitorais e de segurança pública.

Em Fortaleza, a Justiça do Trabalho determinou a reintegração de pelo menos 22 funcionários da fábrica de confecções Gout Jeans, após denúncias de dispensa discriminatória no primeiro dia útil depois da eleição. O Ministério Público apresentou gravações, fotografias e informações sobre cartazes depreciativos espalhados no ambiente de trabalho. A decisão liminar ordenou o retorno dos empregados em até 48 horas, sob multa de R$ 5 mil por trabalhador não reintegrado, além de exigir uma retratação pública. O proprietário da empresa, Gutemberg Bittencourt, negou as acusações e afirmou que contestará o processo.

A dimensão digital da campanha entrou na mira do Ministério Público do Trabalho. Na quinta-feira (29), o órgão ajuizou uma ação civil pública contra a Meta, responsável pelo Instagram, Facebook e Threads, pedindo R$ 50 milhões por danos morais coletivos e a remoção das publicações que incentivam perseguição profissional.

O processo apresenta um dado sobre o alcance dessas mensagens: apenas quatro publicações de um perfil verificado, com 3,8 milhões de seguidores, somavam mais de dois milhões de curtidas. Segundo os procuradores, parte do conteúdo não se limita a manifestações de opinião política. Os vídeos ensinam empresários a identificar eleitores, expõem trabalhadores ao ridículo e celebram a perda de empregos.

A ação também responsabiliza os sistemas de recomendação das plataformas pela ampliação do alcance dessas publicações. Recursos como o Explorar e os Reels sugeridos distribuem conteúdo conforme sua capacidade de produzir interações. Para os procuradores, a empresa tem recursos para identificar e combater publicações discriminatórias, mas não os utiliza adequadamente nesse caso.

A Justiça do Trabalho de São Paulo acolheu o pedido de urgência e determinou que a Meta remova as postagens identificadas em até 24 horas, sob multa de R$ 500 mil por conteúdo mantido. A decisão também exige que a empresa interrompa sua recomendação pelos algoritmos e informe os usuários brasileiros sobre a proibição do assédio eleitoral. O pedido de indenização de R$ 50 milhões ainda será julgado.

A discriminação também chegou à área da saúde. O cardiologista Clederson Henry Dina, que realiza atendimentos no Hospital Israelita Albert Einstein, publicou no Instagram uma mensagem contra eleitores do PT. “Não atendo petistas vagabundos”, escreveu. Em outra declaração, afirmou dispor de meios para recusar pacientes de acordo com a preferência eleitoral, sem explicar como identificaria o voto de quem procurasse atendimento.

O hospital repudiou a manifestação e informou que o episódio estava sob análise interna. O Código de Ética Médica proíbe qualquer forma de discriminação no exercício da profissão.

Outro episódio levantou suspeitas de retaliação dentro do serviço público. A socióloga Silvana Pereira Gimenes, que tem paralisia cerebral, foi exonerada de um cargo de coordenação na Secretaria dos Direitos da Pessoa com Deficiência do governo paulista três dias depois de criticar um comentário capacitista de Flávio Bolsonaro sobre Lula. A administração estadual atribuiu a saída a ajustes administrativos, sem detalhá-los.