Marlos Henrique da Silva é diretor de Investigação, Desenvolvimento e Inovação na Sonae MC. Uma conversa sobre como gerir expectativas entre quem inova, quem trabalha e quem procura resultados.

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O meu filho de nove anos pergunta-me sempre. E eu, para simplificar a resposta para ele, digo que, entre outras coisas, ajudo pessoas a construírem robôs. Obviamente, não é exatamente isto que faço.

Este é o "Querido Líder", o podcast da Rádio Observador dedicado à liderança. Eu sou o Ricardo Conceição e, como sempre, comigo estão os especialistas em liderança, Milton Sousa e Jorge Medeiros. Hoje recebemos Marlus Henrique da Silva, diretor de Investigação, Desenvolvimento e Inovação na Sonae, onde se cruzam biomateriais, química alimentar, robótica, energias renováveis e transformação digital. É formado em Administração pela Universidade de Pernambuco e mestre em Contabilidade e Auditoria pela Universidade de Aveiro. Construiu uma carreira feita através de pontes entre finança, tecnologia, negócio, academia e as empresas. É também professor convidado no Departamento de Química da Universidade de Aveiro, ainda membro do Conselho de Supervisão do EIT Manufacturing e da direção do Laboratório Colaborativo da Bioeconomia Azul, Colabii2E. Lidera projetos que vão da valorização sustentável aos recursos marinhos, ao desafio de transformar a inovação em resultados concretos, com um olhar muito atento para a inteligência artificial e para o futuro da economia. Muito bem-vindo, Marlus Henrique da Silva.

Muito obrigado, Ricardo. Um gosto estar cá.

Marlus, hoje é um programa feito com dois elementos à distância. Eu e o Jorge estamos nos estúdios da Rádio Observador, o Marlus está no Porto e o Milton está fora em trabalho. O Marlus estudou Administração na Universidade de Pernambuco, depois fez um mestrado em Contabilidade e Auditoria na Universidade de Aveiro. Qual é a história desta vinda do Recife para Portugal, onde já mora há mais tempo do que morou no Brasil, não é?

É verdade. É uma história que já contei muitas vezes e gosto muito de contar. Eu vim cá para passar 10 meses. Eu tinha já uma carreira em construção na área das finanças no Brasil. Eu tirei uma licença, eu estava na banca. Tirei uma licença para vir cá fazer um mestrado em Aveiro, porque entendi, e a universidade naquela altura era reconhecida e continua a ser, como uma universidade muito relacionada com a inovação. E a verdade é que passados 10 meses, nunca mais quis voltar e nunca mais voltei. Não só pela inovação, isto é, de facto, aquilo que depois fiz como carreira. Não só o meu trabalho de mestrado na Universidade de Aveiro foi relacionado com inovação, mas depois o que vim a construir em termos de carreira profissional depois daí foi sempre relacionado com inovação, mas também porque adoro Portugal, sinto-me português. É uma pergunta recorrente nos tempos que correm, relativamente ao mundial, por quem eu torço. Por ambas. Eu sou um privilegiado, tenho sempre duas oportunidades de ganhar o mundial. E não é mentira neste momento, portanto, acho que temos aqui duas grandes seleções e que vença o melhor.

Mas esperemos que haja aqui um teste verdadeiro a essa sua convicção.

Não sei se o calendário vai permitir.

Já houve. As duas seleções já se enfrentaram no mundial. Se não estou em erro, na África do Sul.

Ficou empate para o meu deleite. Facilitou, ficou empate o jogo, mas sim, é verdade. Tenho esse sentimento, que para mim é uma duplicidade de amor à pátria e de gosto. Portugal é a minha casa, já é há bastante tempo. O Brasil foi o lugar onde eu nasci, me fez crescer, portanto, sinto-me também privilegiado nesse sentido.

Nós costumamos fazer também esta pergunta a pessoas que têm uma experiência internacional como o Marlus, mas eu acho que aqui a resposta vai ser diferente da habitual. Foi fácil mudar do Brasil para Portugal?

Ao fim de 10 meses não queria ir embora.

Exatamente, foi fácil, mas posso lhe confessar aqui, a primeira aula que tive no meu mestrado era numa sexta-feira e a aula toda da sexta-feira era em português. E eu saí de lá sem perceber absolutamente, rigorosamente nada. Ainda não estava habituado com a pronúncia portuguesa. No sábado, para o meu deleite, as aulas foram em inglês e, portanto, já consegui aprender algo. Foi algo que tive que trabalhar desde o início. E portanto, tirando isto, foi muito fácil a adaptação. Sim.

Marlus, e agora a pergunta é: faz uma licenciatura em Gestão, faz um mestrado em Contabilidade e como é que salta daqui para a inovação?

Exatamente. Portanto, numa carreira de Finanças construída no Brasil, que estava a ser construída no Brasil, faço aquele interregno para esse mestrado em Aveiro, quando fui efetivamente confrontado com aquilo que hoje me apaixona, que é a inovação. A universidade tinha ali grandes relações com empresas como a Portugal Telecom, como as Siemens, mesmo a Nokia. Havia ali todo um cluster de inovação e que efetivamente eu achei que era uma boa altura de juntar a minha experiência na área financeira à inovação e, portanto, o meu próprio mestrado foi desenvolvido sobre estruturas de financiamento para inovação. Portanto, aí foi a minha porta de entrada para aquilo que efetivamente tenho feito nos últimos mais de 20 anos, que é trabalhar inovação, mas uma inovação muito focada nos negócios, no impacto, também na sua própria sustentabilidade enquanto função empresarial.

Marlus, mas isso veio quase como surpresa, porque a sua intenção inicial, se bem percebi, era quando veio para Portugal, era fazer o mestrado na área contabilística, financeira Por ter escolhido uma universidade como a Universidade de Aveiro, bebeu este caldo e este entusiasmo tecnológico. Foi isso?

Foi mesmo isto. Apresentou-se para mim um mundo novo, daquilo que é o impacto que a inovação pode ter, não só nos negócios, mas também na sociedade. E claro, estava ali à minha frente uma onda que eu não queria mesmo deixar de surfar. Portanto, tentei aplicar aquilo que conhecia e efetivamente foi uma mudança de área de atuação.

E hoje, quando lhe perguntam o que é que faz, o que é que responde?

O meu filho de nove anos pergunta-me sempre. Eu, para simplificar a resposta para ele, digo que, entre outras coisas, ajudo pessoas a construírem robôs. Obviamente, não é exatamente isto que faço. Eu lidero pessoas, direta e indiretamente, dentro e fora da AMC e do grupo Sonae. São pessoas com naturezas, percursos muito diversos, pessoas da academia, pessoas da tecnologia, parceiros de vários setores. É um grande privilégio, porque consigo ter uma oportunidade de trabalhar desde com grandes cientistas, até prémios Nobel, também com agricultores, e trabalhar a tal inovação que me apaixona.

Os que elementam os Prémio Nobel, não é?