"É muito difícil competir com a infância." Era assim que Gabriel García Márquez respondia a quem perguntava por que havia escrito "apenas" um dos três volumes previstos para suas memórias. O resultado foi "Viver para Contar", livro fundamental para quem deseja compreender a obra do escritor colombiano. Leia mais (06/26/2026 - 15h00)

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26.jun.2026 às 15h00

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Gabriel García Márquez: Viagem à Semente

Preço R$ 129,90 (518 págs.) Autoria Dasso Saldívar Editora Record Tradução Eric Nepomuceno

"É muito difícil competir com a infância." Era assim que Gabriel García Márquez respondia a quem perguntava por que havia escrito "apenas" um dos três volumes previstos para suas memórias. O resultado foi "Viver para Contar", livro fundamental para quem deseja compreender a obra do escritor colombiano.

Ali estão os personagens, cenários e episódios que mais tarde reapareceriam transformados em literatura. As tias que enchiam a casa com suas manias e crenças, a avó que narrava acontecimentos extraordinários como se fossem fatos corriqueiros, o avô coronel que lhe apresentou o mundo e a própria cidade de Aracataca: tudo isso acabaria migrando para os romances que fizeram de García Márquez um dos autores mais importantes do século 20.

Entre as lembranças mais célebres está a do avô que leva o menino para conhecer o gelo. A cena, eternizada em "Cem Anos de Solidão", ocorreu numa região onde o calor é permanente e as temperaturas raramente descem dos 24 graus. Como tantas outras passagens da obra de Gabo, aquilo que parece invenção nasceu de uma experiência concreta.

É justamente essa relação entre memória e literatura que está no centro de "Viagem à Semente", a monumental biografia escrita pelo colombiano Dasso Saldívar e agora reeditada no Brasil, pela Record, às vésperas do centenário de nascimento do autor, celebrado em 2027.

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O livro, lançado originalmente em 1997, oferece uma oportunidade rara para revisitar não apenas a vida do Nobel colombiano, mas a formação de sua imaginação.

Saldívar trabalha quase como um historiador. Resultado de anos de pesquisa, entrevistas e viagens pelos lugares onde viveu o escritor, a obra parte de uma hipótese surpreendente: a história de García Márquez não começa em 1927, quando ele nasce, mas quase 20 anos antes.

Em 1908, seu avô, Nicolás Ricardo Márquez, matou um homem em um duelo e foi obrigado a abandonar sua cidade. Instalou-se então em Aracataca, pequena localidade do Caribe colombiano que, décadas mais tarde, seria transformada em Macondo.

A infância tornou-se a grande obsessão do biógrafo. Para reconstruí-la, ele entrevistou personagens esquecidos, como a parteira que trouxe Gabo ao mundo e sua primeira professora, reconstituiu a casa dos avós e percorreu as ruas de Aracataca em busca dos cenários que reapareceriam nos romances.

Ali estavam o trem amarelo, o ciclo da banana, a presença avassaladora da United Fruit Company, os conflitos trabalhistas e políticos, os ecos da Guerra dos Mil Dias e as histórias fantásticas narradas pelos mais velhos. Em "Cem Anos de Solidão", todos esses elementos retornam transformados em literatura.

Um dos maiores méritos da biografia é mostrar que aquilo que tantas vezes foi apresentado como pura invenção possui raízes na experiência do escritor. O fantástico não surge da fuga da realidade, mas de uma observação atenta dela. Os fantasmas, as premonições e os acontecimentos extraordinários de Macondo nascem de uma cultura popular em que o sobrenatural convive com o cotidiano.

A própria viagem que García Márquez fez a Aracataca, em 1952, aos 25 anos, ocupa lugar central na narrativa de Saldívar. O jovem jornalista voltava para vender a antiga casa dos avós, mas acabou encontrando algo muito mais importante. Percebeu que ali estava a matéria-prima de sua literatura. Anos mais tarde, reconheceria naquele retorno uma das experiências decisivas para a criação de "Cem Anos de Solidão" e de outras obras.

Mas, entre a infância em Aracataca e a publicação do romance, havia um longo caminho. García Márquez estudou direito sem entusiasmo, descobriu a literatura moderna ao ler Kafka, trabalhou como jornalista em Bogotá, Cartagena e Barranquilla e atuou como correspondente jornalístico na Europa.