A Europa prepara-se para investir quase o triplo do que investia há uma década para acelerar a transição energética. Mas Bruxelas reconhece que o dinheiro público já não basta. Sem capital privado, inovação e capacidade para transformar tecnologia em indústria, a estratégia europeia poderá ficar pelo caminho.

A Comissão Europeia estima que, para cumprir os objetivos da transição energética, o investimento no setor terá de subir para cerca de 660 mil milhões de euros por ano entre 2026 e 2030. E para 695 mil milhões anuais na década seguinte, quase o triplo da média anual registada entre 2011 e 2021. Uma subida que, segundo a Estratégia de Investimento em Energia Limpa, apresentada pela Comissão em março, reflete a “necessidade de investir em simultâneo na geração, na eficiência energética e nas redes”.

Mas o documento reconhece que o financiamento público, por si só, está longe de cobrir esta necessidade. O Grupo Banco Europeu de Investimento (BEI) comprometeu-se a mobilizar mais de 75 mil milhões de euros em financiamento ao longo dos próximos três anos, mas a estratégia aposta sobretudo em atrair capital privado, nomeadamente através de instrumentos como um fundo de coinvestimento em infraestruturas energéticas, mecanismos de titularização de receitas reguladas dos operadores de rede e a criação de um Conselho de Investimento para a Transição Energética, que reunirá investidores institucionais, Estados-membros e responsáveis da Comissão.

Este esforço de mobilização de capital ganhou urgência adicional com a publicação, em abril, do plano AccelerateEU - Energia da União Europeia. O documento surge na sequência do agravamento do conflito no Médio Oriente, desde março de 2026, e do encerramento do Estreito de Ormuz, que elevaram a fatura europeia das importações de combustíveis fósseis em 24 mil milhões de euros nos primeiros 52 dias de crise, pouco mais de sete semanas. Segundo o documento, mais de metade (57%) da energia consumida na Europa continua a depender de importações fósseis, o que deixa famílias e empresas, sobretudo PME e indústrias intensivas em energia, expostas a choques de preços globais. O plano elenca cinco áreas de ação para responder à situação. Fala em maior coordenação entre Estados-membros, na proteção dos consumidores e da indústria face a subidas de preços, na aceleração da produção de energia limpa doméstica e da eletrificação e no reforço do sistema energético e mobilização de investimento público e privado.

Face a este cenário, o Conselho Europeu de Inovação (EIC) publicou, a 24 de junho, uma declaração a apelar à aceleração da implementação de tecnologias europeias de ponta - “deep tech”, na designação utilizada no documento - em toda a cadeia de valor da energia, da geração e armazenamento às redes e materiais avançados. O Conselho do EIC sublinha que a carteira da instituição inclui atualmente cerca de uma centena de empresas a desenvolver soluções em 12 áreas do setor energético, e defende que estas tecnologias podem dar resposta tanto a necessidades de curto prazo como à resiliência energética europeia a longo prazo.

Para Ana Casaca, membro do Conselho Europeu de Inovação, o principal obstáculo às quase cem empresas de deep tech energética apoiadas pela instituição “já não é apenas tecnológico”. Segundo Ana Casaca, “muitas empresas europeias de deep tech na área da energia já demonstraram que as suas soluções funcionam”, disse ao Negócios. O desafio está agora “no passo seguinte: transformar demonstrações bem-sucedidas em deployment industrial”.

Os bloqueios à escala industrial

Ana Casaca identifica três bloqueios principais a essa passagem para a escala industrial. O primeiro é o capital. “Energia é deep tech intensiva em ativos físicos. Exige acesso a instalações industriais e equipamentos, processos de certificação, integração em infraestruturas críticas e ciclos de validação longos”, referiu.

O segundo é a regulação e o licenciamento. “O tempo da inovação é muitas vezes mais rápido do que o tempo administrativo. E isso atrasa a primeira implantação industrial”.

O terceiro é a bancabilidade. “Para escalar, uma tecnologia tem de ser não só promissora, mas financiável: com modelo de receita claro, histórico operacional, garantias, standards e enquadramento regulatório previsível”. Por isso, a especialista advoga que a mensagem do Conselho do EIC não podia ser mais clara: “A Europa não pode limitar-se a financiar tecnologia. Tem de criar condições para a sua adoção. Isso significa financiamento contínuo, licenciamento mais rápido, procura industrial e pública, primeiros contratos comerciais, offtakes e colaboração mais próxima entre startups, investidores, indústria e decisores públicos”.

Sobre a articulação entre instrumentos europeus de financiamento (uma das exigências centrais da declaração do Conselho), Ana Casaca identifica a maior lacuna na “transição entre a excelência avaliada e a capacidade real de financiamento”. Há projetos, explica, que obtêm reconhecimento europeu pela qualidade técnica, como o Seal of Excellence, “mas não conseguem financiamento por limitação orçamental”. Cita o exemplo da Polónia, que criou um mecanismo nacional para financiar a componente de subvenção de projetos com Seal of Excellence do EIC Accelerator não financiados a nível europeu, “uma forma inteligente de usar fundos nacionais ou regionais, evitando repetir avaliações e aproveitando projetos já validados”.

Mas, segundo Ana Casaca, esse tipo de mecanismo tende a cobrir apenas a componente de subvenção, não a de capital ou investimento de escala. “E é muitas vezes aí que está o maior bloqueio” em energia deep tech. Uma empresa pode precisar de poucos milhões para demonstrar uma tecnologia, mas de “dezenas ou centenas de milhões” para construir capacidade industrial, certificar, contratar, produzir e operar. “É por isso que a articulação entre instrumentos é tão importante”, reforçou ao Negócios. “O EIC pode identificar tecnologia de alto potencial e reduzir risco nas fases iniciais. O Scale Up Europe Fund pode apoiar rondas maiores. O Innovation Fund pode ajudar nas primeiras instalações industriais. E o futuro Fundo Europeu de Competitividade deve ligar estas soluções às prioridades industriais europeias”.

Financiamento, sublinha Ana Casaca, “não chega”. As empresas precisam também de mercado - “clientes, contratos, offtakes e procura previsível” - e, em energia deep tech, “o primeiro contrato comercial é muitas vezes tão importante como a próxima ronda de financiamento”. Sem esse primeiro cliente, diz, “muitas tecnologias continuam presas entre a demonstração e a escala”. Ana Casaca aponta o procurement público, que representa cerca de 14% do PIB da União Europeia, como uma alavanca de mercado subaproveitada, alertando que processos demasiado rígidos, pensados apenas para fornecedores já estabelecidos, “acabam por excluir precisamente as soluções novas que a Europa quer escalar”. Defende ainda que as regras europeias de concorrência têm de ser compatíveis com mercados globais, digitais e tecnológicos, onde escala, capital e velocidade contam muito. “A Europa não pode financiar a inovação com uma mão e dificultar a escala europeia com a outra. Caso contrário, corre o risco de financiar a descoberta e ver a industrialização, o valor económico e os campeões tecnológicos crescerem noutros mercados”, mencionou.

Energia deixou de ser um tema de transição climática

Questionada sobre o duplo desafio identificado na Estratégia de Investimento em Energia Limpa - garantir energia estável e barata tanto para a indústria tradicional como para as infraestruturas emergentes ligadas à inteligência artificial -, Ana Casaca enquadra-o como “um dos grandes desafios estratégicos da Europa”. A energia, diz, “deixou de ser apenas uma questão de transição climática. É hoje uma questão de competitividade industrial, segurança económica e soberania tecnológica.” Segundo Ana Casaca, a Europa enfrenta dois desafios em simultâneo: garantir energia competitiva para a base industrial existente e, ao mesmo tempo, preparar o crescimento da nova infraestrutura digital, já que “a inteligência artificial, a computação avançada e os data centers vão exigir mais eletricidade, redes mais robustas e maior capacidade de flexibilidade”.Para Ana Casaca, produzir mais energia renovável “é essencial, mas não chega”. É também necessária uma estratégia para a eletrificação da economia, armazenamento de energia e calor, redes inteligentes, gases e combustíveis renováveis, captura e utilização de carbono, materiais avançados, nuclear e soluções para setores difíceis de eletrificar. Conclui que a transição energética “tem de ser também uma estratégia industrial”, já que a Europa “não pode escolher entre descarbonização e competitividade. Tem de fazer as duas coisas ao mesmo tempo”.

Usar a conjuntura atual para reposicionar a sua economia

A Associação Portuguesa de Energias Renováveis - APREN remete a posição de Portugal na transição energética europeia para os números do desempenho renovável nacional. Segundo a associação, o país fechou 2025 com 75,6% de incorporação renovável na produção elétrica, uma quota que se consolidou nos 76,3% entre janeiro e maio de 2026, o terceiro valor mais elevado na Europa, atrás apenas da Noruega e da Dinamarca. De acordo com a APREN, este desempenho traduziu-se em impacto direto na estabilização dos preços de mercado diário.

Segundo dados disponibilizados ao Negócios, nos primeiros cinco meses de 2026, o sistema elétrico nacional registou 737 horas em que a produção renovável foi suficiente para suprir a totalidade do consumo de Portugal Continental, gerando uma poupança acumulada de 1083 milhões de euros em importações evitadas de gás natural, eletricidade externa e licenças de CO2.

Para a APREN, a energia “é cada vez mais uma questão de segurança de abastecimento e de resiliência económica. As atuais tensões geopolíticas avivam as memórias de 2022, que demonstram as fragilidades da Europa face à sua dependência energética externa. Assim, avizinham-se novas propostas de ação e reposta ao cenário atual, colocando-as energias renováveis no centro da decisão”.

Segundo a associação, é neste novo enquadramento, em que a energia passou a fator central de segurança económica e estratégica, que deve ser lida a posição portuguesa.

“A elevada incorporação de eletricidade renovável, os custos de eletricidade competitivos e a posição geográfica estratégica colocam o país com as condições ideias para atrair novas atividades industriais intensivas em energia desde os data centers ao aço verde, passando pela produção de baterias. Mas esta oportunidade não é automática, pode perder-se se os bloqueios atuais estruturais persistirem”.