Três avanços mostram como a ciência está aprimorando o rastreamento do câncer de mama
É justamente para ampliar essa conversa que existe o MAMA – Culturas de Prevenção, um projeto de comunicação dedicado a transformar a prevenção em uma cultura que faça parte da vida e não apenas do calendário de Outubro Rosa. Desde 2023, CLAUDIA é parceira da iniciativa, e a colaboração ganhou forma no Casa Clã + MAMA, encontro que reúne informação, ciência e diferentes perspectivas sobre saúde e prevenção.
Para esta edição, MAMA e Claudia se unem novamente para a publicação de um levantamento exclusivo sobre os principais avanços no rastreamento do câncer de mama dos últimos cinco anos. Convidamos o oncologista Dr. Gustavo Werutsky, head científico do MAMA para apresentar as tecnologias, descobertas e mudanças que vêm transformando a maneira como a doença é prevenida e identificada.
Imagine se um exame de rotina pudesse prever, com precisão inédita, quem tem maior risco de desenvolver câncer de mama nos próximos anos? É exatamente isso que a inteligência artificial (IA) começa a tornar possível.
O modelo Mirai, desenvolvido por pesquisadores do MIT (Massachusetts Institute of Technology) e testado em mais de 128 mil mamografias realizadas em sete hospitais de cinco países (incluindo o Brasil, no Hospital de Amor de Barretos) mostrou resultados promissores. A tecnologia conseguiu prever o risco de câncer de mama com alta precisão, mesmo em populações muito diferentes entre si, algo inédito até agora.
Além disso, outro grande estudo, o MASAI Trial, realizado no programa nacional de rastreamento da Suécia, avaliou a IA como apoio direto à leitura das mamografias realizadas em 105.934 mulheres. Com isso, houve um salto na detecção de casos: 338 cânceres detectados com IA contra 262 no método tradicional. Além de mais diagnósticos em estágios iniciais e com linfonodos negativos (ou seja, com maiores chances de cura), houve ainda uma diminuição de 44% na carga de trabalho dos radiologistas, e sem aumento significativo de falsos positivos.
Em outras palavras, a IA promete apoiar os profissionais com análises mais precisas e rápidas. Uma ferramenta que ainda vem sendo estudada, mas com potencial de mudar o futuro do rastreamento do câncer de mama.
Durante décadas, o rastreamento seguiu a mesma lógica: todas as mulheres fazem mamografias com a mesma frequência, na mesma idade. Só que, agora, a ciência está propondo virar essa chave e enxergar cada mulher como única.
No lugar de usar só a idade como critério, novos estudos querem considerar fatores como histórico familiar, mutações genéticas, densidade mamária, estilo de vida e até variações no DNA que aumentam ou reduzem o risco da doença. A ideia é: quem tem maior risco faz exames com mais frequência, evitando diagnósticos tardios; quem tem menor risco pode espaçar mais as mamografias, reduzindo exames desnecessários.
Três iniciativas mundiais estão discutindo este tópico:
A maior organização de câncer de mama do mundo defende que o modelo atual, baseado só na idade, está ultrapassado na era da medicina de precisão. A Komen alerta que diretrizes que recomendam mamografias apenas a cada dois anos, a partir dos 40, podem fazer com que tumores evoluam sem serem detectados, e ainda confundir pacientes sobre quando devem procurar o exame.
Para a instituição, o ideal seria que cada mulher tivesse um plano individual de rastreamento, definido com seu médico com base em seus fatores de risco. E faz um alerta: uma em cada quatro mulheres nos EUA não fez nenhuma mamografia nos últimos dois anos, o que torna ainda mais arriscado diluir a importância da prevenção periódica.
Nos Estados Unidos, o WISDOM Study está testando se vale a pena trocar a mamografia anual por um esquema totalmente personalizado.
Mais de 64 mil mulheres entre 40 e 74 anos participam do estudo. Quem entra no grupo personalizado faz um teste genético de saliva, que analisa mutações conhecidas (como BRCA1 e BRCA2) e um escore poligênico com 220 variações genéticas associadas ao risco de câncer de mama. Esses dados são combinados a informações clínicas (como histórico familiar e densidade mamária) para calcular o risco de cada participante nos próximos cinco anos – e, a partir daí, definir quando começar e parar o rastreamento, com que intervalo e por qual método.
O estudo também se destacou por ampliar a diversidade de participantes, incluindo mais mulheres negras, latinas e de idade mais avançada.
Na Europa, o MyPeBS (My Personal Breast Screening) recrutou 53 mil mulheres entre 40 e 70 anos em seis países (Bélgica, Espanha, França, Israel, Itália e Reino Unido). Elas foram divididas em dois grupos: um segue o modelo tradicional, e o outro adota o rastreamento personalizado, com testes genéticos, avaliação de densidade mamária e histórico familiar.
Quando o estudo for concluído, ele deve oferecer a primeira grande evidência sobre a segurança, eficácia e custo-benefício desse novo modelo.
Fazer mamografia parece simples, mas, na prática, não é para todo mundo. Em muitas regiões do Brasil (e do mundo), barreiras geográficas, sociais e estruturais dificultam o acesso das mulheres ao rastreamento do câncer de mama. A distância até os centros de saúde, a falta de informação ou mesmo a burocracia do sistema público podem significar diagnósticos tardios e piores chances de cura.
Nos últimos anos, porém, testando alternativas para ampliar o acesso ao rastreamento de pacientes brasileiras, surgiu o Projeto ITABERAÍ, em Goiás. O ensaio clínico testou uma hipótese: ao invés de esperar que as mulheres cheguem até os centros de rastreamento, por que não utilizar os próprios Agentes Comunitários de Saúde (ACS) para fazer o primeiro passo da triagem?
O estudo envolveu 3.670 mulheres entre 2022 e 2024, divididas em dois grupos: o grupo controle recebeu apenas as recomendações atuais do Ministério da Saúde; já o grupo de intervenção recebeu, além das recomendações, o exame clínico das mamas (ECM) feito pelos ACS, que foram treinados especialmente para isso.
Toda a jornada foi registrada em um sistema digital integrado, composto por dois softwares: o App Rosa, usado pelos ACS para cadastrar e examinar as participantes, e o RosaWatch, um sistema web que conecta equipes de saúde da família, médicos especialistas, enfermeiras navegadoras e pesquisadores, permitindo acompanhar, em tempo real, cada caso alterado até o diagnóstico e tratamento.




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