A economia mundial resistiu bem em 2026, mas essa resistência esconde que mecanismos tradicionais de desenvolvimento, como a industrialização, o comércio de mercadorias e a integração às cadeias globais de valor, já não garantem mais crescimento econômico, se…
A economia mundial resistiu bem em 2026, mas essa resistência esconde que mecanismos tradicionais de desenvolvimento, como a industrialização, o comércio de mercadorias e a integração às cadeias globais de valor, já não garantem mais crescimento econômico, segundo relatório publicado nesta sexta-feira (9) pela Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (Unctad).
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No novo relatório sobre Comércio e Desenvolvimento de 2026, a agência afirma que a criação de valor na economia global está migrando para setores considerados estratégicos, como semicondutores, inteligência artificial e tecnologias limpas, nos quais o custo de entrada é elevado e os países desenvolvidos concentram a maior parte dos investimentos.
“Industrialização, comércio de mercadorias e integração às cadeias globais de valor serviram por muito tempo como uma escada rumo a rendas mais altas. Cada degrau dessa escada está agora menos confiável”, escreve Pedro Manuel Moreno, secretário-geral interino da Unctad, no prefácio do documento.
A avaliação vem num ano em que a economia global absorveu choques importantes. Mesmo com a guerra no Oriente Médio, que interrompeu o trânsito pelo Estreito de Ormuz e fez o barril do Brent saltar de US$ 70 para mais de US$ 110 nas semanas seguintes ao início do conflito, o comércio mundial deve crescer cerca de 4% em 2026, depois de atingir o recorde de US$ 35 trilhões no ano passado, segundo a Unctad.
O crescimento global, no entanto, deve desacelerar de 2,9% em 2025 para 2,6% neste ano, e a agência aponta que, com exceção de um pequeno grupo de economias asiáticas, como China e Índia, os países em desenvolvimento deixaram de reduzir a distância de renda per capita em relação às economias avançadas desde meados de 2010.
“A aparente resiliência da economia global em 2026 esconde grandes diferenças entre países e setores”, afirma o relatório. “Apenas algumas economias estão se beneficiando do boom da inteligência artificial, e essa divisão agrava desafios estruturais de longa data, como a financeirização, a desigualdade, a redução do espaço fiscal e as mudanças climáticas”.
Os países desenvolvidos capturam cerca de 70% do investimento estrangeiro em novos projetos envolvendo semicondutores, inteligência artificial e tecnologias limpas. A exceção são os minerais críticos, em que os países em desenvolvimento lideram com 59%, mas sem conseguir agregar valor.
“A África extrai a maior parte do cobalto do mundo, mas retém menos de 1% do valor nas cadeias verdes de suprimentos”, exemplifica o documento. “A assimetria se acentua entre as economias de menor renda quando China, Índia e os Estados do Golfo são excluídos do agregado do Sul Global.”
Nesse cenário, a agência da ONU alerta que os motores tradicionais, industrialização, comércio e participação nas cadeias de valor, só funcionam quando há políticas deliberadas por trás deles: política industrial como uma estrutura de longo prazo, política financeira a serviço do desenvolvimento e diversificação apoiada na cooperação regional.
Sobre a importância da cooperação regional como margem de manobra, o relatório cita o Pix, que o Brasil está levando a outros países. “ Essas redes ampliam o que as políticas nacionais podem alcançar e funcionam melhor em conjunto com um sistema multilateral de comércio que mantenha a não discriminação e o tratamento especial e diferenciado em seu centro”, afirma.
“O que um país consegue alcançar agora depende menos de uma única hierarquia global e mais de sua posição em cada setor”, afirma a agência da ONU no documento. “A virada geoeconômica reduz o espaço para o desenvolvimento, mas, para as economias em ascensão do Sul Global, também abre novas oportunidades.”




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