É necessário selecionar melhor aquilo que entra no prato, diz o nutricionista Luiz Raposo - Canva Semaglutida e tirzepatida reduzem a fome e podem favorecer a perda de peso, mas acompanhamento nutricional, proteína e musculação são fundamentais para preservar massa muscular e manter os resultados no longo prazo No consultório e nas conversas do dia a dia, a cena tem se tornado cada vez mais comum. Pessoas que desejam emagrecer recorrem às chamadas canetas emagrecedoras, percebem a fome diminuir, passam a comer menos e começam a comemorar os números mais baixos na balança. O problema aparece quando a perda de peso passa a ser tratada como um processo exclusivamente medicamentoso. Com menos apetite, algumas pessoas simplesmente reduzem drasticamente a quantidade de comida, pulam refeições ou passam a fazer pequenas refeições sem avaliar se estão ingerindo proteínas, fibras, vitaminas e minerais suficientes. O peso cai, mas isso não significa, necessariamente, que o organismo esteja recebendo tudo o que precisa ou que a composição corporal esteja melhorando. É justamente nesse ponto que entra a nutrição. Medicamentos como semaglutida e tirzepatida contribuem para o controle da fome e do apetite, mas não substituem a construção de hábitos alimentares capazes de sustentar o resultado. Para o nutricionista Luiz Raposo, o cuidado deve considerar saúde, comportamento e qualidade de vida, e não apenas os números da balança - Foto: Divulgação
Para o nutricionista Luiz Raposo, que atua com emagrecimento e metabolismo na Eleve Clinic, o tratamento precisa ir além da balança. A proposta é utilizar o período de maior controle da fome proporcionado pela medicação para construir uma relação mais equilibrada com a alimentação e preservar a saúde metabólica. “A medicação ajuda bastante no controle da fome e do apetite, mas ela não ensina a pessoa a se alimentar bem. É aí que entra o acompanhamento nutricional”. Antes: menos fome não significa, necessariamente, melhor alimentação A redução do apetite é um dos efeitos mais conhecidos das chamadas canetas emagrecedoras. Para quem passou anos lutando contra a fome excessiva ou contra a dificuldade de controlar a ingestão alimentar, sentir menos vontade de comer pode representar uma mudança importante. Mas existe uma diferença entre comer menos e comer melhor. Quando a quantidade de alimentos diminui muito, a qualidade nutricional das refeições passa a ter ainda mais importância. Uma pessoa pode consumir poucas calorias e, mesmo assim, não alcançar uma quantidade adequada de proteínas, fibras, vitaminas e minerais. “O paciente pode ficar tão sem fome que começa a pular refeições ou comer porções muito pequenas. E aí existe o risco de não atingir nem a quantidade de proteína nem os micronutrientes que o organismo precisa”, explica Luiz Raposo. O nutricionista chama atenção para uma mudança de perspectiva durante o tratamento. Se o paciente vai comer menos, as refeições precisam ser planejadas para concentrar nutrientes importantes. “Por isso, quando o apetite está muito reduzido, precisamos pensar em qualidade. Se a pessoa vai comer menos, cada refeição precisa entregar o máximo possível de nutrientes” A lógica é simples, mas exige acompanhamento: não basta reduzir a quantidade de comida. É necessário selecionar melhor aquilo que entra no prato. Depois: emagrecer preservando músculo Um dos pontos que mais preocupam profissionais envolvidos no tratamento do excesso de peso é a composição corporal. A redução do peso corporal pode envolver a diminuição de gordura, mas também de massa magra. Durante qualquer processo de emagrecimento pode ocorrer alguma perda de massa magra. A questão é evitar que ela seja excessiva. “O papel do nutricionista é justamente tentar fazer com que o peso perdido venha principalmente da gordura, preservando o máximo possível de músculo”, afirma Raposo. Para isso, o acompanhamento precisa considerar diferentes variáveis. A quantidade de proteína consumida, o valor energético da dieta, a distribuição das refeições e a evolução da composição corporal são alguns dos elementos avaliados ao longo do processo. “Não queremos apenas que o paciente pese menos; queremos que ele fique mais saudável e com uma composição corporal melhor”. A frase resume uma mudança importante na maneira de avaliar o sucesso do emagrecimento. A balança continua sendo um indicador, mas não deve ser o único. Antes: a balança como principal referência Durante anos, o emagrecimento foi associado quase exclusivamente à redução dos quilos. Quanto maior a queda na balança, maior parecia ser o sucesso. Essa visão, porém, pode esconder o que realmente aconteceu dentro do organismo. Uma pessoa pode perder peso e, simultaneamente, reduzir uma quantidade relevante de massa muscular. Nesse cenário, o resultado visual e numérico pode até parecer positivo, mas a composição corporal pode não ter melhorado na proporção esperada. “E sim, é possível emagrecer e ainda assim piorar a composição corporal. A balança pode cair, mas parte desse peso pode ser músculo”, alerta o nutricionista. Por isso, o acompanhamento pode incluir medidas como circunferência abdominal, percentual de gordura, massa muscular, força e desempenho nos exercícios. Dependendo da avaliação clínica, exames laboratoriais também podem ser utilizados para acompanhar indicadores metabólicos. Entre eles estão glicemia, hemoglobina glicada e colesterol, quando indicados. “Perder peso não significa necessariamente perder gordura ou melhorar a saúde”, dispara o nutricionista. Depois: proteína e musculação entram no centro do tratamento Se a alimentação fornece os nutrientes necessários para preservar e recuperar a massa muscular, o exercício oferece um estímulo fundamental para que o organismo mantenha esse tecido. Nesse cenário, a musculação ganha importância especial. “A proteína e a musculação são fundamentais nesse processo”, destaca Luiz Raposo. “A musculação dá ao corpo o estímulo para preservar a massa muscular, enquanto a proteína fornece os nutrientes necessários para manutenção e recuperação desse músculo”. A combinação entre alimentação adequada e treinamento de força pode ser especialmente relevante em processos de emagrecimento nos quais há redução importante da ingestão alimentar. O objetivo não é simplesmente fazer o ponteiro da balança descer. É favorecer uma redução de gordura corporal com preservação da massa magra e melhora dos marcadores relacionados à saúde. Antes: comer pouco a qualquer custo A diminuição da fome pode trazer outro desafio. Alguns pacientes passam a comer tão pouco que começam a apresentar dificuldades para manter uma alimentação nutricionalmente adequada. Náuseas, saciedade precoce, refluxo e constipação também podem interferir na alimentação e fazer com que o paciente reduza ainda mais a ingestão. Nessas situações, a estratégia nutricional precisa ser adaptada à tolerância individual.




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