De volta às urnas após mais de duas décadas, ex-ministro diz à DW que o PT precisa se adaptar a uma nova geração, critica o modelo de emendas parlamentares e aponta São Paulo como estado decisivo em 2026.
https://p.dw.com/p/5JIXhAnúncioDe volta às urnas mais de 20 anos após ter o mandato cassado, o ex-ministro da Casa Civil José Dirceu reconhece que há insatisfação com o governo mesmo entre eleitores petistas, mas minimiza o impacto eleitoral de derrotas no Congresso ou de casos como a investigação contra Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho mais velho do presidente.
Aos 81 anos, o advogado afirma ter recebido "uma missão" de Luiz Inácio Lula da Silva para voltar à direção do partido e disputar uma vaga na Câmara dos Deputados. Em entrevista à DW, ele defendeu a renovação do Partido dos Trabalhadores (PT).
"Tenho defendido que o PT precisa ser reconstruído, até porque a nova geração é outra, o mundo é outro e o Brasil também mudou. O partido já começou, por assim dizer, um aggiornamento de seu programa e de sua visão sobre o país", afirma.
"É bom que haja. Nós estamos vivendo um outro momento. É um governo com muitas limitações, muitas restrições orçamentárias e muitas limitações políticas. Então é preciso compreender isso e assumir que nós temos propostas para mudar essa situação e estamos fazendo isso", diz, ao comentar que o PT precisa também ampliar sua campanha nas redes sociais.
Figura central na chegada de Lula ao Planalto em 2002 e na construção de uma política de alianças que rompeu o isolamento do PT no começo do século, Dirceu reconhece derrotas importantes do campo governista também no Congresso, mas vê espaço para negociação.
"Nós temos de responder a todas as questões da campanha. Existem problemas de corrupção? Existem, e o governo está combatendo, com a Polícia Federal, a CGU, a Receita Federal e o Coaf. Cada um responde pelos seus atos, como o presidente tem dito. [...] O filho dele tem de responder, como eu ou qualquer cidadão também têm de responder", afirma.
Ele defende, entretanto, que o país não deve repetir o interesse da direita em transformar segurança e corrupção na pauta principal e sobrepor esses temas a debates como o desenvolvimento econômico e a austeridade fiscal. "Não vamos cometer o erro histórico de transformar a corrupção no principal problema do país. Já fizemos isso durante a ditadura, que se apresentava como combate à corrupção e à subversão."
Ao comentar a campanha de Flávio Bolsonaro, afirma que o senador não conta com a mesma rede de apoio político que sustentou o bolsonarismo em 2018 e 2022. "Ele ainda não encontrou o discurso. [...] Está muito enfraquecido nos estados. Não acredito que ele consiga. Ou ele retoma o programa do pai, e aí retorna ao passado e perde a eleição, ou cria um programa."
"É uma agressão política, porque ele quer intervir nos assuntos internos brasileiros, ele quer eleger a família Bolsonaro abertamente", afirma. "Há uma intervenção quando se cria uma agenda de conflito envolvendo o país e temas como big techs, terras raras e o Pix. [...] Essa crise internacional que o Donald Trump está criando gera consciência no país da necessidade de união e de buscar soluções para as nossas deficiências."
"O Brasil tem características diferentes das de outros países da região, porque nós temos um histórico que o Petro [ex-presidente da Colômbia] não tinha, nem muito menos o Castillo [ex-presidente do Peru] e o candidato dele." Ele defende uma agenda de integração regional voltada para infraestrutura, energia, combate ao narcotráfico e imigração, mas ressalta divergências com Washington em temas de segurança internacional.
Além da corrida presidencial, o ex-ministro considera a disputa estadual decisiva para a formação de maiorias políticas e vê São Paulo como peça-chave na disputa.
O estado elege a maior bancada da Câmara, com 70 deputados, e tem histórico recente favorável à direita. É também onde ele tenta retornar ao Congresso e onde o ex-ministro Fernando Haddad (PT) busca derrotar o atual governador Tarcísio de Freitas (Republicanos). Há risco, segundo as pesquisas, de vitória do incumbente no primeiro turno, o que eliminaria um palanque para Lula no estado durante outubro.
"Evidentemente, o governador Tarcísio tem liderança, tem a sua coalizão partidária, tem apoio do prefeito da capital, que foi reeleito. Então nós não estamos enfrentando uma eleição como favoritos. Agora, dizer que é impossível vencer em São Paulo, eu não concordo desde o começo", pontua, ao destacar o consolidado eleitorado conservador no estado.
Em seu retorno à vida política, Dirceu também tem impulsionado pedidos de uma reforma política, eleitoral e também no Judiciário. Ele concentra críticas nas emendas parlamentares impositivas, cujo volume se aproxima dos investimentos discricionários da União.
"O Congresso, empoderado com emendas impositivas, evidentemente muda o presidencialismo, muda o papel do Congresso, que inclusive invade atribuições do Executivo."
Como alternativa, propõe obrigações de transparência e vinculação dos recursos a programas prioritários do governo para distribuição dos recursos, cuja imposição diminui a margem de negociação do governo. Embora critique o sistema de emendas, relativiza a narrativa de isolamento do governo no Congresso.
A rejeição do nome de Jorge Messias ao STF pelo Senado, segundo ele, representou uma derrota política relevante, mas pontual. Como contraponto, cita o apoio de partidos de centro e de direita na Esplanada. "O Lula abriu um diálogo com o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, sobre a segurança pública, a questão das terras raras, das blusinhas e o fim da escala 6 por 1. O pacto político é possível porque os problemas do país exigirão esse entendimento", argumenta.
Além da renovação partidária, Dirceu defende mudanças no sistema eleitoral, incluindo o debate sobre o voto em lista. Também considera necessário reavaliar o modelo de financiamento de campanhas após a proibição das doações empresariais.
"Naquele momento, a decisão de proibir o financiamento empresarial foi correta. Mas hoje há bilhões de reais concentrados nas mãos dos parlamentares, o que também produz poder econômico e influência política."




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