A autora mineira lança 'Quando', drama no qual a maternidade é um ponto central

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Carla Madeira, a escritora mais lida do Brasil, lança o romance “Quando”, ambientado nos anos 80, abordando temas como maternidade, luto e violência. Em entrevista exclusiva à VEJA, ela detalha as escolhas estéticas e temáticas da obra, e reflete sobre as críticas e a influência da vida pessoal em sua ficção.

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Resumo gerado por ferramenta de IA treinada pela redação da Editora Abril.

Imagine uma mãe que ama o filho o bastante para entregá-lo à polícia. Essa cena perturbadora é uma passagem central de Quando, novo romance de Carla Madeira. Ambientada no Brasil dos anos 1980, a trama acompanha Viridiana e sua família ao longo de duas décadas de espera pelo retorno de um filho ausente, numa história atravessada por machismo, homofobia e pela sombra da ditadura.

Antes de se tornar a escritora mais lida do Brasil, com mais de 1 milhão de exemplares vendidos entre Tudo é Rio, A Natureza da Mordida e Véspera, Carla Madeira quase seguiu outro caminho. Começou a cursar Matemática, mudou para Comunicação, deu aulas para crianças e para estudantes universitários da UFMG antes de participar da criação de uma agência de propaganda em Belo Horizonte, sua cidade natal. A ficção chegou depois — e chegou para ficar.

Nesta entrevista exclusiva a VEJA, Madeira revela que escreveu boa parte de Quando enquanto vivia o luto da própria mãe, uma experiência que atravessa o livro sem que o leitor perceba de imediato. Fala também sobre a decisão estilística mais radical de sua carreira, criando um texto contínuo, com diálogos entremeados na voz do narrador, com pontuação, sintaxe e ritmo inusuais. A autora também comenta abertamente as críticas que recebeu nas redes sociais por supostamente romantizar a violência masculina. A seguir, a conversa:

Em Tudo é Rio, Véspera e agora em Quando, as figuras maternas são muito fortes. São elas que, de fato, conduzem as histórias. Você é mãe de dois filhos, a quem dedica o livro. Como essa experiência pessoal atravessa personagens tão marcantes? Eu acho que essa questão da maternidade é um ponto central da minha literatura. Está sempre comigo de uma maneira muito forte. Nesse livro em especial, eu perdi minha mãe enquanto escrevia, vivia um luto. Minha mãe era uma figura muito forte na minha vida pelo acolhimento, pela delicadeza e pelo espírito poético dela; uma pessoa com um olhar muito positivo e encantado com a vida. Tem uma passagem em Quando que é muito ela. Um dia, levando-a para o hospital, no final da vida, já maltratada pelo adoecimento e com muitas idas e vindas, ela parou no meio do caminho para apreciar um pezinho de alecrim plantado no jardim. Ela era essa pessoa, e é, de fato, uma matriz das minhas mães, das minhas mulheres em geral — seja por afinidade, porque há algo que se parece com ela, seja por oposição, por serem absolutamente o contrário dela.

E essa vivência de ser mãe, na sua própria vida, também influenciou a forma como escreve sobre maternidade? Acho que essa questão da maternidade vem muito dessa relação, e também da minha própria experiência de ser mãe, que realmente redimensionou tudo. É como um sal que colocamos na comida e que realça o gosto de tudo. A maternidade, para mim, foi isso: o desejo de viver, o medo, o amor, todas as emoções como se tivessem sido coloridas, intensificadas. E, além disso, me interessa muito na literatura pensar a natureza humana. Isso vem das gêneses, a primeira coisa é sempre a mãe. Tudo isso está sempre comigo, é um assunto eterno para mim.

Quando tem uma preocupação estética mais sofisticada, com diálogos sem travessão, frases terminando em vírgula, parágrafos que recomeçam com letra minúscula. O que você buscou com essas escolhas? O livro tem um eixo chamado o eixo da espera. A espera é como um baixo contínuo, ela não tem ponto [final]. Alguém que está esperando por alguma coisa está nesse estado o tempo inteiro — pode estar no banho, pode estar dormindo, pode estar em qualquer lugar, mas está em estado de espera. Eu quis que, na pontuação, esse estado de espera fosse justamente uma coisa que não tem pausa. É como se tudo estivesse atravessado por esse som, por essa espera que não tem pausa. A mãe que espera o filho voltar depois de vinte anos não tem pausa; Penélope esperando Ulisses não tem pausa. É aquela coisa constante.

E a questão da polifonia, quando personagem e narrador trocam de voz — como isso se desenvolveu? Essa questão polifônica, em que o personagem toma a voz do narrador e depois o narrador toma a voz do personagem, eu tinha começado a esboçar em Tudo é Rio. Lá, em alguns momentos, o narrador é tão permeável que o personagem ocupa o lugar dele, vai sendo preenchido pela emoção do personagem, e de repente é o personagem quem fala. Fiz isso algumas vezes naquele livro e retomei agora de forma mais consciente e mais radical. Os personagens estão sempre — e isso acontece em todos os eixos — tomando a narrativa para si, como se todo mundo quisesse contar aquela história. E a voz que se impõe é a que tem o melhor ângulo para narrar o que está sendo narrado.

Este livro também tem um pano de fundo político mais explícito que os outros, com referências à ditadura e a temas como machismo, homossexualidade e conflito de gerações. Pode falar sobre isso? Existe todo um contexto ali em torno da questão central, que é a denúncia — a mãe que denuncia o filho — e uma perspectiva de uma engrenagem de violência que vem de séculos. Isso não é exatamente novo na minha literatura; está presente na ideia de Véspera, do que veio antes. Mas aqui há um momento específico em que essa situação acontece, em 1986, quando estávamos saindo do esforço das Diretas Já e caminhando para retomar as eleições diretas.

Como esse contexto da denúncia se diferencia do que já aparecia nos outros livros? Nos outros livros já existe, de certa forma, essa engrenagem, o histórico da família passando pelos ambientes onde as pessoas crescem, mostrando como as heranças de violência e de afeto acontecem. Neste livro, esse contexto coloca uma instituição de fora, a denúncia para um plano de punição social e entra mais diretamente nessas questões da engrenagem da violência. E, claro, dentro dessa engrenagem, temos um cenário político mais forte, preconceitos mais fortes, violências ligadas à intolerância em aceitar as pessoas como elas são, em todas essas dimensões.

Hoje a autoficção está em alta no mercado editorial, mas você vai na contramão, criando histórias totalmente ficcionais. O que pensa desse momento da literatura? Na autoficção, assim como na ficção, existe muita coisa maravilhosa e muita coisa que não é tão interessante. Eu não sei fazer autoficção, sempre me acho muito chata quando tento algo nessa direção, fico me sentindo meio em volta do próprio umbigo, meio lamentosa, ficando ali remoendo. Então não fui capaz de fazer isso de uma maneira que eu achasse interessante.

Já se sentiu tentada a explorar mais esse caminho da autoficção? Acho que esse momento em que a autoficção tem tido uma produção tão grande, com tantos autores se dedicando a ela, pode ser mesmo um reflexo do nosso tempo, mas também é uma forma de as pessoas procurarem a própria linguagem, a própria história, a própria compreensão do que viveram, e de compartilharem isso. No meu caso, gosto de fazer ficção — ou talvez eu só seja capaz de fazer ficção. Tenho dito muitas vezes que imaginar é sempre revelar um pouco de si mesma. A ficção traz muito do inconsciente do autor, pequenas vivências, pequenas observações e escutas que ele fez ao longo da vida. Acho importante esse exercício da ficção, do imaginar, do inventar cenários. E tenho visto algumas experimentações interessantes em novos lançamentos, pensando essa relação entre ficção e realidade, acho ótimo que isso tudo conviva bem.

Você foi criticada nas redes sociais por supostamente romantizar homens violentos. No programa Roda Viva, explicou que o perdão em Tudo é Rio representa um mecanismo psicológico da vítima, não uma absolvição do agressor. Como lida com esse tipo de crítica? Quando escrevo um livro, o leitor é soberano na compreensão dele. Não tem como dizer a uma pessoa “entenda de outra maneira”. Ela entende com os recursos que tem, com a maneira como lê. E eu entendo, num cenário de tanta violência no Brasil, o desejo de que tudo seja uma oportunidade de reforçar a luta contra essa violência. Mas a literatura trabalha em outro lugar, ela coloca a questão para enxergarmos também os outros mecanismos que estão ali, que fazem parte da maneira como lidamos com os acontecimentos.

Se sente incomodada? É claro que isso me incomoda, porque sempre fui uma pessoa feminista! Não acho que, ao fechar o livro, essa seja a mensagem dele, mas para algumas pessoas resultou nesse incômodo. Isso acontece quando se confunde perdão com impunidade, ou quando as pessoas veem ali uma situação de continuidade da “família margarina” — como se aquelas pessoas fossem, depois de tudo que viveram, passar a viver como uma família feliz, entre muitas aspas. Isso não considera o que está escrito no próprio livro, que é: “o próximo passo traz a possibilidade dos abismos”. Isso não está sendo considerado.

Ainda acompanha esse tipo de crítica nas redes sociais? Essas questões me chateiam, mas hoje eu não acompanho mais tanto as redes sociais. Tenho minha conta no Instagram mais para comunicar o que estou fazendo, às vezes para algum contato, mas tenho ficado um pouco fora disso, porque há tanta coisa importante para ler. Essas coisas acabam me chateando porque eu gostaria de me sentar com a pessoa e conversar, mas o desejo dela não é o da conversa, é o da crítica. Num primeiro momento eu me assustei, pensei em explicar que não era isso. Depois entendi que talvez não precise ser assim — acho que as pessoas vão compreendendo, aos poucos, o que é a literatura, o que é o “eu literário”. Acho que isso vai se assentando, de alguma maneira.

Conte, por favor, sobre a construção do personagem Francisco, de Quando, uma criança que absorve os dramas da família e os somatiza. Teve inspiração em crianças reais? Eu fiz algumas rodas de conversa com crianças, porque, quando comecei a escrever com essa voz infantil, eu não sabia exatamente se estava infantilizando demais ou se estava colocando algo além do que seria possível para a idade delas. Senti necessidade de ouvir como as crianças falam e como as questões contemporâneas estão chegando até elas, e como estão elaborando isso. Fiz duas rodas de conversa, uma com crianças de oito a dez anos, e outra de dez a doze — porque há esse arco no livro, o Francisco começa bem novinho e vai crescendo até chegar ao tempo mais atual da narrativa. Foi incrível, porque essa foi talvez a minha observação mais consciente, já que eu estava ali prestando atenção na linguagem, na maneira de construir as frases e de organizar o pensamento. Fiz uma dinâmica em que mostrava imagens de diferentes situações e perfis de família — famílias homoafetivas, famílias ricas, famílias pobres, um menino jogando futebol, um menino dançando balé — e pedia que elas contassem o que estavam vendo, sem eu dizer nada antes, só para ver o que vinha.

Uma curiosidade, quem eram essas crianças? Como conseguiu reunir esse grupo? Foi numa escola de classe média de BH, uma escola privada com uma visão muito atenta às questões sociais, uma instituição que trabalha numa perspectiva de formar consciência mesmo. E foi uma experiência incrível, pude perceber que as crianças têm um vocabulário muito sofisticado, estão muito informadas sobre várias questões, atentas ao que acontece, talvez porque estejam mais expostas às notícias, que chegam até elas. Isso me ajudou muito a encontrar o tom de voz do Francisco e do Nino [outro personagem infantil do livro], e também a trazer aquela angústia.

A sua vivência como professora também influenciou a construção desses personagens? Trabalhei com crianças durante quase cinco anos, mesmo já tendo feito faculdade de comunicação. Dava aula para crianças de três, quatro anos. Presenciei muitas discussões e tensões ligadas à angústia daquilo que não é dito à criança, considerando que ela é “só uma criança”, mas que é vivido mesmo assim. Muitas vezes, na tentativa de poupá-las, subestimamos o quanto elas são uma antena, o quanto estão captando tudo o que acontece. E isso, às vezes, gera angústias imensas. Se começarmos a nomear as coisas, respeitando o que pode ser conversado em cada idade, damos a elas a chance de elaborar aquilo e sair do lugar de angústia.

Já pensou em escrever literatura infantil algum dia? Você deve se lembrar daquele momento em que o Tito conta a sua perspectiva e diz que entendeu uma certa situação quando estava lendo a história de um ferro de solda que se apaixona por um boneco de lata. Fiquei com muita vontade de pensar essa história como literatura infantil. Vamos ver se eu me animo.