Imagine se você tivesse a oportunidade de experimentar a primeira receita original de caipirinha feita no Brasil, no início do século passado?Pois foi mais ou menos o que sentiu o mergulhador belga Stefan Panis quando retirou do fundo do mar inglês uma
Imagine se você tivesse a oportunidade de experimentar a primeira receita original de caipirinha feita no Brasil, no início do século passado?
Pois foi mais ou menos o que sentiu o mergulhador belga Stefan Panis quando retirou do fundo do mar inglês uma garrafa contendo um líquido escuro, que ali jazia há 162 anos.
Era uma garrafa — ainda fechada — de uma Guinness Extra Stout, cerveja negra que é um dos símbolos nacionais da Irlanda — mais ou menos como a caipirinha significa para no Brasil.
Só que aquela garrafa era de 1864, e, portanto, estava no fundo do mar há mais de um século e meio.
Mas ainda com o seu precioso líquido dentro.
O mergulhador belga encontrou a tal garrafa quando vasculhava os escombros de um velho naufrágio na costa da Inglaterra, a cerca de cinco quilômetros da cidade de Dover.
Eram os restos da barcaça inglesa Mindora, que havia partido de Londres com destino a Vancouver, no Canadá, em novembro de 1864, com um carregamento de mercadorias diversas - entre elas, um número não sabido de garrafas da famosa cerveja irlandesa, como a que ele achou.
A primeira reação de Panis foi pensar em abrir a garrafa e dividir a experiência com o amigo Eddie Huzzey, que o acompanhava naquele mergulho.
Mas o receio de que, após tanto tempo debaixo d'água, aquela cerveja tivesse apodrecido, fez ele mudar de ideia.
Panis, então, fez o correto: entrou em contato com o fabricante da Guinness e comunicou o achado, ao mesmo tempo em que enviou uma pequena amostra do conteúdo da garrafa (extraída por meio de um micro furo na rolha, como fazem os sommeliers para provar vinhos históricos sem precisar abri-los) para um microbiologista especializado em cervejas, da Universidade KU Leuven, na Bélgica.
O objetivo de contatar o especialista era duplo: avaliar se aquela cerveja ainda estava potável, e - bem mais importante que isso - descobrir os componentes originais daquela fórmula de 162 anos atrás, a fim de tentar reproduzi-la.
A Guinness respondeu rapidamente, entusiasmada com o achado: ""Descobertas como essa proporcionam uma janela fascinante para o nosso passado", escreveu o porta-voz da marca.
Já o pesquisador da universidade ainda está analisando a amostra, visando recriar, com todos os seus elementos, a fórmula original da bebida - algo não tão fácil, porque é pouco provável que se consiga recuperar células ainda vivas da levedura usada naquela cerveja do século 19.
Caso não consiga, o pesquisador utilizará uma cepa atual da levedura original, a fim de obter um resultado o mais próximo possível do original.
"Será como voltar no tempo", diz, entusiasmado, o mergulhador que achou a garrafa, que acredita que ainda há outras nos escombros do naufrágio.
"Assim que as condições melhorarem, voltaremos a mergulhar no local, em busca - quem sabe? - de um engradado inteiro daquela cerveja", diz o belga, que também acredita que ela ainda esteja consumível.
Se não entrou água pela rolha, é bem possível que não tenha estragado, porque, apesar de submerso, as condições do local são perfeitas para a conservação de uma bebida, já que a temperatura da água é sempre baixa, a pressão constante e, como o mergulho é bem profundo, há escuridão absoluta, sem luz do sol
"Sei que as cervejas não são como os vinhos, que ficam melhores com o passar do tempo, mas não poderia haver uma 'adega' mais adequada para conservar uma bebida do que aquele naufrágio", diz o belga, com o respaldar de outros casos parecidos.
Em 2010, mergulhadores encontraram garrafas de champanhe francês que estavam há 168 anos em um naufrágio no Mar Báltico, e elas ainda estavam em perfeito estado - razão pela qual foram vendidas por € 30 000 (cerca de R$ 200 000) cada, em um leilão na internet.
"Não sabemos quantas garrafas de Guinness ainda podem haver lá", diz o mergulhador, contando com a possibilidade de ter achado um verdadeiro "tesouro líquido".




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