Tratamento tem ação mais rápida que antidepressivos convencionais e pode ser alternativa em casos selecionados, explica o psiquiatra Adiel Rios

Para quem convive com depressão, encontrar o tratamento adequado nem sempre acontece na primeira tentativa.

Há pacientes que passam por diferentes antidepressivos sem alcançar a resposta esperada.

É principalmente nesse grupo que a cetamina passou a chamar a atenção da psiquiatria por uma característica particular: a possibilidade de apresentar efeitos antidepressivos de forma rápida.

Diferentemente dos antidepressivos convencionais, que normalmente precisam de semanas para que seus efeitos sejam avaliados, estudos mostram que a cetamina pode produzir melhora de sintomas depressivos em um intervalo menor em parte dos pacientes.

Pesquisas também vêm investigando seu efeito sobre a ideação suicida. Uma meta-análise publicada em 2024 reuniu 14 estudos e 1.380 participantes e encontrou evidências de redução rápida da ideação suicida após o tratamento.

Segundo o psiquiatra Adiel Rios, fundador do Grupo Nutrindo Emoções, isso está relacionado, entre outros mecanismos, à atuação da substância no sistema glutamatérgico.

“A cetamina atua de uma maneira diferente dos antidepressivos que usamos tradicionalmente. Sua ação sobre o glutamato está relacionada a mecanismos de plasticidade cerebral e isso ajuda a entender por que alguns pacientes podem apresentar uma resposta tão rápida. Estamos falando principalmente de pessoas que já passaram por outros tratamentos e continuam enfrentando sintomas importantes”, explica.

Um dos principais estudos sobre o tema foi publicado no New England Journal of Medicine.

A pesquisa comparou cetamina intravenosa e eletroconvulsoterapia em pessoas com depressão resistente ao tratamento e sem sintomas psicóticos.

Após três semanas, 55,4% dos participantes que receberam cetamina apresentaram redução de pelo menos 50% nos sintomas, segundo o critério utilizado pelo estudo. 

A possibilidade de uma resposta em pouco tempo, porém, não transforma a cetamina em uma solução indicada para qualquer quadro depressivo.

“Quando falamos que uma pessoa pode perceber mudanças rapidamente, isso não significa que uma aplicação vai resolver a depressão ou que todos terão a mesma resposta. Existe indicação, avaliação individual, acompanhamento e um planejamento terapêutico. Alguns pacientes respondem muito bem, outros parcialmente e há aqueles que não respondem”, ressalta Adiel.

O tratamento também pode provocar efeitos adversos, incluindo alterações transitórias de percepção e dissociação.

No estudo publicado pelo New England Journal of Medicine, a dissociação esteve entre os efeitos associados à cetamina.

Outro cuidado importante é diferenciar a cetamina da escetamina.

Nos Estados Unidos, por exemplo, a cetamina é aprovada pela FDA como anestésico, mas não especificamente para transtornos psiquiátricos; já a escetamina intranasal possui indicação aprovada para determinados casos de depressão resistente e exige administração e monitoramento em ambiente de saúde devido aos riscos envolvidos.

Para Dr. Adiel Rios, a discussão sobre o tratamento também precisa evitar a ideia de que rapidez significa facilidade.

“Depressão resistente é uma condição complexa. A cetamina abriu uma possibilidade importante justamente porque trouxe outra estratégia para pacientes que muitas vezes já tentaram diferentes caminhos. Mas ela precisa fazer parte de um cuidado responsável, acompanhado e pensado para aquela pessoa. Não existe tratamento psiquiátrico sério baseado em promessa de milagre”, conclui.