Getty Images Antes de iniciar a leitura, coloque seu chá a granel preferido em um infusor e despeje água quente, mas atenção: a temperatura deve estar entre 60 °C e 80 °C se for chá verde ou branco, para não ficar amargo; já se preferir chá preto ou alguma in…
Antes de iniciar a leitura, coloque seu chá a granel preferido em um infusor e despeje água quente, mas atenção: a temperatura deve estar entre 60 °C e 80 °C se for chá verde ou branco, para não ficar amargo; já se preferir chá preto ou alguma infusão de raiz, precisa ser quase fervendo. Retire o infusor lá pelo terceiro parágrafo para chás mais densos, como o preto, e só lá pela metade da matéria, se for mais leve.
Pois é, o chazinho só de ervas para quando se está doente é coisa do passado. Muita gente traz a bebida ao centro da mesa de refeições, até mesmo como harmonização de jantares, como opção sem álcool. Tudo pelo prazer do sabor, não apenas como bebida saudável.
A ideia de tomar o chá o dia inteiro, como bebida sem açúcar, agrada a Isabella Nery Castiglia, empreendedora de Belo Horizonte de 32 anos. Para ela, a pedida é tomar gelado, o que ficou mais fácil com produtos lançados em sachê para preparo direto na água fria, como da marca Leão. Ela recomenda o sabor laranja e morango. “Não gosto de café, nem de açúcar, nem de adoçante. Gosto de chá sem nada, puro. É uma opção que eu amo, porque eu vivo de dieta uma opção gostosa para tomar gelado.”
Já na fria Curitiba, João Paulo de Freitas, gerente comercial de 46 anos, prefere a bebida quentinha. “Desde a infância, minha mãe fazia muito chá mate com limão, e aqueles chazinhos calmantes para a noite, de camomila ou erva-cidreira. Hoje eu tomo já pela manhã, logo depois do café. No mercado, quando olho para uma caixinha de chá e gosto, compro. Esses tempos achei um novo queridinho, um chá-mel, de menta, gengibre e própolis. Claro que eu também gosto daqueles chás a granel, por exemplo o chinês, feitos com a erva na água usando um infusor. São ótimos, mas a praticidade do chá de saquinho é uma beleza.”
Consumidores como Castiglia e Freitas têm alimentado um mercado brasileiro de chás que, segundo a Expert Market Research, deve crescer a uma média composta anual de 6,9% entre 2025 e 2034. Na década passada, entre 2013 e 2020, segundo pesquisa da Euromonitor International, esse mercado cresceu 25%, o dobro da média global.
Não se trata de competir com o café, bandeira tocada há mais de 30 anos por Carla Suaeressig, que calcula a preferência do café no Brasil sobre o chá em 5 x 1. Enquanto o café foi introduzido no país em 1727 e se consolidou como uma das principais atividades econômicas exportadoras do país a partir das décadas de 1830 e 1840, o cultivo da Camellia sinensis, que é a planta do chá, começou apenas no início do século XIX, trazida pela corte portuguesa.
O cultivo ganhou impulso no século XX com a imigração japonesa, especialmente no Vale do Ribeira (SP), onde a cidade de Registro se tornou uma das principais referências da produção de chá no país. No Sul do Brasil, a planta de erva-mate permaneceu como uma das atividades econômicas mais importantes até o início do século XX, com exportações importantes que só decaíram com a crise econômica mundial de 1929, mas ainda resistem.
Com o avanço da cafeicultura, o café assumiu definitivamente o protagonismo econômico nacional e regional, tanto que Suaeressig sentencia: somos ocidentais, pois o Ocidente prefere o café. Só o Oriente favorece o chá acima de tudo. “Imagina encontrar um amigo na rua e chamar para tomar um chá? Vai achar que você está doente”, brinca. Mas ela reivindica um lugar de honra para o chá também.
Coordenadora e fundadora da Academia Brasileira de Chá e Mate, Suaeressig se orgulha de ser a primeira sommelière de chá e erva-mate do país. “Eu digo que não precisa brigar com o café. Pode tomar os dois, mas só café bom. Os dois são prazerosos, mas o chá é harmonizador universal com tudo, e ainda traz a memória gustativa do que se experimentou desde pequeno”, pondera. “Se for frutado, tem boa aceitação no Brasil, instiga boas memórias. Temos um grande consumo no Brasil de infusão e chás de ervas.”
Em tempo, chama-se “chá” somente a infusão feita com as folhas da Camellia sinensis, que pode ser chá verde, preto, branco, vermelho ou oolong, todas contendo cafeína. Já “infusão” denomina bebidas feitas a partir da imersão de outras ervas, flores, raízes ou frutas em água quente. A sugestão da mestre sommelière é harmonizar jantares com opção sem álcool, servindo vinho ou cerveja junto ao chá. “Tem gente que não gosta de tomar água junto com o vinho, mas um chá saboroso vai muito bem.”
Gaúcha moradora de São Paulo, Suaeressig manteve por muitos anos lojas da marca de chás alemã Tee Gschwendner em locais de prestígio como o shopping Iguatemi, em São Paulo, e o Mueller, em Curitiba. Ali ela ensinava preparos como o “cold brew”, para tomar gelado, entre outras técnicas. Porém, ela considera que a presença da marca premium de chás em lojas de shopping naquele início de século XXI estava muito à frente do espírito do tempo. Após o fechamento das lojas, ela considera que abriu mercado para outras marcas de chá de alto padrão. “Nas nossas lojas demos o primeiro curso de sommelier de chá e erva-mate”, conta ela, que foi jurada recentemente em concurso de erva-mate na Argentina.
Na Região Sul, a erva-mate é tomada verde na cuia - o chimarrão é algo que Juliana Sloma, 42 anos, carrega para onde for. “Minha vida começa depois que tomo meu chimarrão, muda até meu humor, um momento de reflexão, um companheiro”, conta a moradora de São Borja, na fronteira do Rio Grande do Sul com a Argentina.
O chá faz parte de um estilo de vida, pensando em bem-estar e hábitos saudáveis” — Gabriel Moliterne “Na minha casa, meus pais, embora de origem polonesa e italiana, tinham o hábito de tomar, então comecei muito cedo, aos 7 ou 8 anos de idade. Além de ser fonte de energia, porque contém cafeína, ele também tem antioxidantes dos radicais livres e funciona como digestivo.”
Nutricionista do Hospital Albert Sabin, de São Paulo, Gabriel Moliterne lembra que os povos originários do Brasil já utilizavam infusões de plantas medicinais, hábito reforçado depois por imigrantes europeus e asiáticos. “Durante muitos anos, o chá foi associado principalmente ao uso caseiro e medicinal, mas hoje faz parte de um estilo de vida, pensando em bem-estar, hidratação e hábitos saudáveis. As pessoas também estão aprendendo a usar novos sabores e misturas de especiarias, como chá verde, hibisco, gengibre e blend de frutas.” Nos atendimentos que ele realiza, porém, os campeões continuam sendo o chá de erva-doce, camomila, hortelã, capim cidreira e erva-cidreira.
O ressurgimento do chá como bebida saborosa é comemorado e estimulado pelas fabricantes do produto, para quem as infusões deveriam ser tomadas com frequência britânica. A surpresa foi perceber que alguns sabores resistem bem até em momentos de economia ruim. “Em 2026, observamos um cenário desafiador, com elevado endividamento das famílias e redução da renda disponível, mas os chás continuam demonstrando resiliência, especialmente os blends de ervas voltados ao relaxamento, digestão, bem-estar e consumo diário”, aponta Henrique Luiz Boldrini de Almeida Fontana, CEO da Chás Real, de Curitiba.
Ele atribui a demanda constante a uma ligação histórica com a bebida. “Povos indígenas, especialmente os guarani, já consumiam erva-mate séculos antes da chegada dos europeus”, conta o representante da quinta geração da família Fontana na indústria ervateira do Paraná.
“A bebida fazia parte da alimentação, da cultura e dos hábitos sociais dessas populações muito antes da formação do mercado brasileiro. Durante os séculos XIX e início do XX, a erva-mate tornou-se um dos principais produtos econômicos do Sul do Brasil. Na prática, o chá consumido pelos brasileiros era predominantemente derivado da própria erva-mate, seja na forma de chimarrão ou a erva-mate tostada, infusão de sabor marcante e características semelhantes às dos chás pretos tradicionalmente consumidos na Europa.”
Hoje a inovação não está tanto na tecnologia, e passa mesmo pelos sabores. Algumas marcas apostam em nichos como “sabores do mundo”, caso da curitibana Chamel, que investe na curiosidade típica do paladar brasileiro com os lançamentos “Encantos do Caribe”, chá polonês, indiano, dos Pampas, inglês, da savana e marroquino, com a meta de ampliar a presença da marca em um mercado cada vez mais diversificado, depois que as vendas da marca cresceram quase 50% entre 2021 e 2025.
“Historicamente, o brasileiro costuma consumir chá de forma bastante funcional, associado a benefícios para a saúde e ao alívio de desconfortos do dia a dia. Quando pensamos em chá, geralmente pensamos em digestão, relaxamento ou bem-estar”, concordam Lucas Dranka, pesquisador e desenvolvedor de produtos, e Vitor Manoel da Silveira, analista de marketing da Chamel.
“O que buscamos fazer é ampliar a percepção. Acreditamos que o chá também pode ser uma experiência de sabor, aroma e prazer. Por isso, trabalhamos com chás alimentícios, incentivando um consumo mais próximo ao que acontece com o café: uma bebida apreciada não apenas por seus benefícios, mas também pela experiência que proporciona. Percebemos que, cada vez mais, consumidores buscam produtos que unam bem-estar, praticidade e novas experiências de consumo, e acreditamos que esse movimento continuará impulsionando o crescimento da categoria nos próximos anos.”




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